Artes Visuais, Entrevista, Performance, Reportagens

Nuno Ramos instaura seu momento contra a violência

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Nuno Ramos instaura seu momento contra a violência Instituto Ling/Reprodução

Instituto Ling inaugurou na última terça-feira (15/6) a exposição Dito e Feito – Aos Vivos, Porto Alegre, do artista Nuno Ramos. Com curadoria de Tiago Mesquita, a mostra reúne uma performance inédita homônima, pensada especialmente para o centro cultural porto-alegrense, e outras 11 obras: a instalação em áudio Carolina, que já esteve no Instituto Tomie Ohtake em 2006, o filme Iluminai os Terreiros e outros nove registros de performances apresentadas durante a carreira do pintor, desenhista, escultor, escritor, cineasta, cenógrafo e compositor paulistano.

A performance inédita Dito e Feito – Aos Vivos, Porto Alegre poderá ser conferida ao vivo somente nesta semana, com transmissão gratuita pelo canal do YouTube do Instituto Ling ainda na quinta (17/6) e na sexta-feira (18/6), das 17h às 22h. A obra faz parte da série de performances Aos Vivos, que o artista iniciou em 2018, trabalhando com a palavra, o tempo presente e a situação político-social do país.

O conjunto de trabalhos partia até agora do mesmo procedimento, com atrizes e atores ouvindo ao vivo, com um fone, determinada programação da televisão e repetindo, em outra situação cênica, o que escutavam. Na performance realizada na capital gaúcha, as atrizes Patsy CecatoNelly CoelhoMargarida Peixoto e o ator João Gabriel OM reproduzirão não mais as falas protocolares e editadas da televisão, mas o que uma equipe nas ruas de Porto Alegre, formada pelos artistas Lucas Sampaio e Betina Camara, captura.

“Aos Vivos (Dervixe)” (2018). Foto: Equipe Nuno Ramos/Divulgação

Após as exibições ao vivo, o registro da performance ainda poderá ser assistido na galeria do Instituto Ling, onde as demais obras também podem ser vistas. A mostra fica em cartaz até o dia 18 de setembro, com horários sem mediação de segunda a quinta-feira, das 14h às 19h, e com mediação nas sextas-feiras, às 16h30min e 18h30min, e nos sábados, às 15h, 16h30min e 18h30min. A visitação está sendo feita somente com agendamentos pelo site da instituição, permitindo o acesso de grupos de até cinco pessoas por vez.

Formado em filosofia pela USP, Nuno Ramos é pintor, desenhista, escultor, escritor, cineasta, cenógrafo e compositor. Começou a pintar em 1984, quando passou a fazer parte do grupo de artistas do ateliê Casa 7.

Desde então tem exposto regularmente no Brasil e no exterior. Participou da Bienal de Veneza de 1995, onde foi o artista representante do pavilhão brasileiro, e da Bienal de São Paulo em 1985, 1989, 1994 e 2010.

“Foda-se Foice” (2008). Foto: Equipe Nuno Ramos/Divulgação

Como escritor, publicou O Mau Vidraceiro (2010), Ó (2008) – livro ganhador do Prêmio Portugal Telecom –, Ensaio Geral (2007), O Pão do Corvo (2001) e Cujo (1993). Como cineasta, roteirizou e codirigiu com Clima, em 2002, os curtas-metragens Luz Negra e Duas Horas.

Em agosto de 2020, foi apresentada em São Paulo a performance Marcha à Ré, cocriação de Nuno com Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, em que 120 carros ocuparam duas faixas da Avenida Paulista deslocando-se em marcha à ré, em uma espécie de “anticarreata”. Comissionada pela Bienal de Berlim, a obra foi registrada pelo cineasta Eryk Rocha e deu origem a um curta-metragem, exibido no ano passado no 27º Porto Alegre Em Cena.

Já em Chão-Pão, performance executada no final de maio no Sesc Avenida Paulista, um grupo de performers monta um piso feito com lajotas e pães. Sobre esse terreno, os artistas caminham e dançam, quebrando e modificando esse chão-pão. No meio da cena, dois monitores trazem trechos em loop dos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol Terra em Transe, ambos de Glauber Rocha – mais especificamente, da frase “A culpa não é do povo”, que se repete nos dois longas.

Na entrevista exclusiva a seguir, Nuno Ramos comenta a respeito da performance criada especialmente para o Instituto Ling, reflete sobre a importância do acaso e do engajamento político em sua obra e alarma-se quando o assunto é o Brasil de hoje: “Com o bolsonarismo, a gente está vivendo uma naturalização do não político, da violência, do golpe. Isso tudo vai se naturalizando aos poucos. Então eu vejo com uma preocupação sem fim. É uma espécie de pesadelo do qual eu não consigo acordar”.

“Aos Vivos (Terra em Transe)” (2018). Foto: Equipe Nuno Ramos/Divulgação

Nesse novo desdobramento da série de performances Aos Vivos, você faz uso novamente de atores e de dramatização cênica, mas a fonte são as falas das pessoas nas ruas da cidade, e não mais os discursos veiculados na televisão. O que você acha que essa mudança trará de novo a esses trabalhos? Qual é a sua expectativa a respeito desse coral de conversas colhidas ao acaso?

É um pouco como se eu tivesse invadido a Rede Globo ou a fonte de notícias. Agora somos nós que fazemos. Com isso, a gente tem uma autonomia muito grande, uma quebra de padrão, porque a TV tem uma padronização enorme da fala, dos tempos, das pausas, do que pode e do que não pode ser dito. Então essa fonte, para os atores, vai ser muito mais aberta, confusa e amadora. Acho que eles vão ter que lidar com situações de silêncio, de pausas, de perda de comunicação. É uma aventura mais errante. Uma coisa é você ter a Globo, que é de fato um padrão nacional, que unificava o país naquele plim-plim famoso e tal; e outra coisa é você ter uma captação ao vivo que você mesmo está criando. Há um acesso agora ao real que não é mais mediado por uma instituição tão forte quanto a Globo. Agora somos nós mesmos que vamos acessar como nós quisermos.

Por mais que sejam planejadas e roteirizadas, essas performances são resultado em grande medida do imponderável e do aleatório. Como você lida com a casualidade em sua obra?

Acho que toda obra quer transformar o acaso em necessidade. Isso é próprio da arte. Mesmo a coisa mais acadêmica do mundo tenta de algum modo captar alguma coisa que não seja padrão, se não seria só uma réplica. No meu caso, essa obra está muito ancorada em vários níveis de captação do real. Um deles é o pessoal da rua, que vai improvisar, que vai ter que extrair – de uma entrevista, de uma situação de rua, de uma situação de ruído e de grito – informações interessantes para mandar para nós. A outra são os meus atores que vão estar em cena, improvisando em cima daquilo, tentando se unir. Tem ainda o modo como nós vamos filmar e passar isso para o público, que não deixa de ser uma criação em ato. E depois de tudo isso, ainda vamos fazer um filme, um mini doc, um curta ou algo assim, que vai ser uma outra elaboração disso. Então, o trabalho, na verdade, é uma câmara de ecos, em que aquela captação original vai bater de várias formas em várias situações de atuação sobre ela.

As performances e manifestações artísticas de caráter performativo são cada vez mais frequentes em sua trajetória. O que lhe atrai em particular nesse tipo de linguagem?

Eu de fato tenho feito performance em teatro com mais força do que antes. Um pouco por causa da circunstância já que, com essa situação pandêmica, meus fornecedores de materiais estão um pouco mais difíceis. Mas, além disso, eu sinto que estou atuando no presente, no ato, nessa coisa do “agora” que o teatro tem. Por mais que você grave, o teatro tem um ato. Não é como um filme, que tem um ato original que você remonta e faz o que quer com ele. O teatro instaura um momento. E eu acho que a gente precisa instaurar o momento, até pela violência político-cultural que a gente está vivendo. A gente precisa contrapor a isso os nossos atos, por mais frágeis que sejam. Então estou muito atraído, eu acho, pela fragilidade do teatro, pela fragilidade desse ato, por sobreviver um pouco essa noção de momento, num momento em que a gente está sendo atropelado e atacado de todos os lados. Talvez por esse motivo que eu esteja tão atraído por isso, mexendo com a réplica quase sempre de um real que está lá fora, vendo como é que eu consigo – na repetição, cedendo ao real o próprio fato de trazê-lo pra dentro e repeti-lo – instaurar o meu próprio ato, o ato dos atores, o deslocamento e esse tipo de coisa. É como se fosse uma replicazinha do mundo que eu estou tentando fazer, como se fosse um mundo interior, em que a gente pega esse eco e mexe com ele. Então acho que talvez tenha uma intuição de que não tem como enfrentar a violência direto, mas criar um labirinto interior para poder reagir a ela.

Cena do filme “Iluminai os Terreiros” (2014). Foto: Equipe Nuno Ramos/Divulgação

Sua produção é não apenas prolífica, mas também diversificada em termos de expressões, indo das artes visuais à literatura e ao ensaio, passando pelo cinema, a música e as artes cênicas. Como você organiza e direciona sua criação? O que leva você a desenvolver uma ideia como poesia em vez de  pintura, por exemplo?

Eu não sei. Tem a ver com a vida prática, no sentido das oportunidades aparecerem e isso me levar. Estou sempre muito aflito para retomar os outros projetos que eu estou deixando de fazer. Trabalho com muita simultaneidade, mas me sinto em dívida com coisas que eu comecei e que eu precisava de mais tempo. Vivo atormentado com isso, tenho muita insônia, então essas linguagens vão todas batendo umas nas outras. Mas acho que eu inventei esse lugar um pouco dispersivo entre essas linguagens todas, e eu tento não perder o fluxo entre elas. Por exemplo, eu tenho feito muito desenho, mas faz tempo que eu não trabalho com ideias de esculturas e instalações, e sinto muita falta disso agora. Mas precisaria de uma oportunidade, um jogo institucional que me permitisse isso… Você vai pra onde liberam pra você ir. E tem a pressão nova de reagir à boçalidade vigente. Isso puxa, talvez, essa coisa no sentido do ato, que eu falei antes. Mas eu nunca me sinto pronto para renunciar a nada. Esse é o grilo. Eu abro uma coisa e quero manter o que eu já fazia, então vai ficando um bololô difícil de dar conta. Talvez o mais constante seja a literatura, que é uma coisa que eu nunca deixo de mexer e que sempre dá um jeito de estar comigo. O resto é uma confusão que eu vou tentando atender.

Voltando às performances, o conteúdo de crítica social e política é contundente e evidente não apenas na série Aos Vivos, mas igualmente em trabalhos recentes como Marcha à Ré e Chão-Pão. Você acha inescapável ao criador posicionar-se com sua arte diante da situação brasileira atual?

Eu acho inescapável ao criador posicionar-se diante da situação política atual nos termos do criador e não nos termos da situação política atual. Eu não acho que a reação mais direta, como é a minha, ao quadro político violento que a gente está vivendo, seja modelo pra nada. No meu caso, isso tende a ser um negócio muitas vezes não panfletário, mas pegando ecos reais, réplicas deste mundo. Mas eu não acho que isso seja absolutamente mais rico. O que eu sinto é que a gente vive um ataque múltiplo, e a gente precisa dar respostas múltiplas. Então eu tenho profundo respeito e admiração por quem age de outra forma. O que eu acho importante é que faça, que a gente não caia na afasia, no não fazer, no silêncio, que é o que essa gente quer. Tá na hora de fazer coisas, de se unir, de fazer junto. Se for o caso, de baixar um pouco a bola e fazer em condições piores. Eu acho que a gente tem que ter orgulho de estar conseguindo produzir numa situação pandêmica viral ou política, em que o vírus e a política se fundiram quase. A gente tem que ter orgulho de fazer, mas acho que não haja regra nenhuma que possa dizer que a maior evidência política, como é o meu caso, seja melhor do que a menor evidência política. Acho que isso vai da obra de cada um.

“Carolina” (2006). Foto: Equipe Nuno Ramos/Divulgação

Por falar em Brasil, como você vê o país hoje e no futuro próximo?

O país hoje como uma tragédia sem fim. O futuro próximo como um risco, como uma prova de altíssima voltagem de violência e de perda total de qualquer parâmetro civilizatório. Acho que a gente instaurou, com a eleição do Bolsonaro, exatamente o que deveria ter ficado de fora, que é a violência mesmo. O que está invadindo todas as instituições políticas e culturais é a violência, uma potência de devastação, cujo desejo é de morte, de destruição, de nadificação. Depois dessa nossa nadificação, vão restar dez imbecis que não sabem o que fazer com tudo o que eles arrasaram. Acho que há evidentemente uma violência institucional, golpista, sendo gerada. Isso é de uma explicitude que é chocante de ver, parece uma sentença anunciada, e tudo vai se acumulando e ninguém consegue de fato reagir. Com o bolsonarismo, a gente está vivendo uma naturalização do não político, da violência, do golpe. Isso tudo vai se naturalizando aos poucos. Então eu vejo com uma preocupação sem fim. É uma espécie de pesadelo do qual eu não consigo acordar.

Quais são seus projetos seguintes?

Estou fazendo uma série chamada A Extinção É para Sempre, em São Paulo. São sete obras, e a gente já abriu duas: o Chão-Pão e CHAMA. A próxima chama-se Desastres da Guerra, uma peça que a gente está fazendo em cima das gravuras do Goya, fazendo tableaux vivants e fazendo a tradução de alguns depoimentos para o braile e tocando braile. É uma coisa de música, dança e teatro juntos, que deve inaugurar em meados de julho. Depois virá um outro trabalho, que estamos começando a ensaiar também, feito em cima do Iracema – Uma Transa Amazônica (filme de 1974), do Jorge Bodanzky (cineasta), e com a própria atriz, a Edna de Cássia.

“Aos Vivos (Dervixe)” (2018). Foto: Equipe Nuno Ramos/Divulgação
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