Juremir Machado da Silva

Capitalismo de resguardo

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Capitalismo de resguardo

Coleciono frases otimistas: “Privatiza que melhora”, “reforma ou quebra”, “terceiriza que funciona”, “se pagar para despachar as bagagens o preço das passagens áreas cai na hora”, “o que interessa a qualidade é do serviço, não quem é o prestador”. Pois é, a concessão dos aeroportos era a salvação da lavoura. Mas as concessionárias estão devolvendo o pacote. Li, no jornal “O Globo” está passagem que derruba qualquer um das alturas: “A decisão de Changi, operadora aeroportuária de Cingapura, de devolver o Galeão, expôs uma batalha travada nos bastidores entre operadoras de aeroportos e o governo. As empresas querem rever os termos dos contratos de concessão em razão do impacto negativo da pandemia sobre o fluxo de passageiros”. Trocando em miúdos (sempre que escrevo isso penso no Chico Buarque), não deu para ter o lucro esperado, então o Estado que pague a conta. Que capitalismo é esse, brother?

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Tem mais, muito mais: “A avaliação é que a pandemia representa um risco que não poderia ser mensurado no momento da concessão e que torna impossível alcançar os resultados previstos no período”.

Em bom português, capitalismo é correr riscos, mas se o risco ganhar, pede-se que o Estado fique com o prejuízo e estamos conversados.

Como diria Edgar Morin, é preciso civilizar a barbárie antes que eles nos domestique.

Vale outra frase de coleção: “Privatiza o lucro, socializa o prejuízo”. É o capitalismo de resguardo. Assim, sempre se ganha.

Ou toma que o aeroporto é teu.

*

Hoje comi peixe no Mercado Público
Cocei a barriga como um bronco,
Lambi os beiços e até comentei:
A poesia morreu. Está enterrada.
Depois, voltei para casa de ônibus
Lendo os poemas colados no vidro
Acho que adormeci e morri
Encontrei Deus depois do túnel
Ele me disse: bem-vindo, poeta
Então, desci, subi apressado,
Espichei-me no sofá para repousar,
Quem sabe sonhar com Deus e o paraíso,
Um paraíso de poetas frescos, leves,
Que sobem pela frente e pagam passagem.
A luz que filtrava pela janela era glauca
Perdi a vida procurando palavras no dicionário
Agora, aposentado, jogo tudo fora com as espinhas
Salvo essa claridade que indica o caminho
Quando eu morrer, quero peixe, poesia e muito sol.

(Do meu livro “Quase (toda) poesia)

*

Maquiavel (que não era maquiavélico, mas era bom de frases agudas): “As injúrias devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, saboreando-as menos, ofendam menos: e os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, a fim de que sejam mais bem saboreados”.

*

Enfim, somos ou não modernos? O negócio é ler a revista Parêntese em tempos de comemorações dos cem anos da Semana de Arte Moderna:

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Sempre que leio sobre empresas que pedem ao Estado para cobrir seus prejuízos, ouço Chico Buarque:

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