Juremir Machado da Silva

Luiz de Miranda, um bom poeta

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Luiz de Miranda, um bom poeta Juremir Machado, Luís Gomes, Michel Houellebecq e Luiz de Miranda (Foto: Acervo pessoal)

Partiu, na última sexta-feira, o poeta Luiz de Miranda, com quem mantive contato por três décadas. Morreu no hospital da PUCRS. Tornara-se um homem difícil no trato. A velhice, as dificuldades financeiras e a doença fizeram dele uma pessoa ainda mais complicada. Era artista, via-se como artista e não fazia concessões. Exigia reconhecimento e admiração. Quase todos que tentavam ajudá-lo acabavam, nalgum momento, por se afastar, mesmo mantendo a admiração.

Miranda produzia muito. Orgulhava-se de escrever um poema em quatro minutos. Na pressa, podia conceber coisas menos boas. Nos momentos de inspiração, fazia belos poemas. Certa crítica torcia o nariz para ele. Como já não era bom de marketing, chegando a ser agressivo, ou mesmo ríspido, provocava afastamento ou dificultava novas aproximações. Ele se apaixonou pela poesia e passou a viver para ela. O problema era como viver dela num país e num mundo de autoajuda.

Miranda era o melhor poeta gaúcho depois de Quintana. O único ainda vivo a rivalizar com ele é Carlos Nejar. Quando digo isso, alguns riem. Problema dos outros, que podem ser menos bons. Miranda era de uma sinceridade brutal. Por isso me sinto na obrigação de ser muito sincero neste elogio póstumo. Escrevi várias vezes sobre ele ao longo da sua vida, chamando-o de poeta maldito. Viveu seus últimos anos como excluído. Teve ajuda nos últimos dias do médico e escritor José Eduardo Degrazia e do professor da PUCRS Ricardo Barbarena.

Durante algum tempo, foi ajudado por Sergio Faraco, até que sobreveio o desentendimento, como sempre acontecia. Colaborei, como também fez Degrazia, para a sua viagem de retorno a Uruguaiana, onde moraria numa Casa de Repouso conseguida por seus admiradores na cidade. Como previsto, não durou. Ele brigou por lá e voltou para a sua reta final de solidão e abandono em Porto Alegre, até que foi encontrado perambulando pelas ruas do centro da Capital, confuso e descalço. Tinha conseguido alugar um apartamento na Siqueira Campos.


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Certa época, tentei convencer Miranda de que a história de ganhar o Nobel não fazia sentido, que era meio megalomania. Ficou furioso. Levava profundamente a sério essa ideia. Passou meses sem me ligar. Argumentei muitas vezes também que se apresentar como tendo a obra poética mais longa do mundo em número de páginas não era boa propaganda. Queria briga. Esse era um ponto fundamental para ele na sua biografia. Não abria mão das suas estratégias de consagração. Via-se como um dos maiores poetas do mundo. Publicamos muitos poemas da sua última fase no renascido Caderno de Sábado do Correio do Povo.

Uma vez, Miranda me pediu para ir a um cartório com ele. Queria me designar como herdeiro da sua obra. Não aceitei. Disse-lhe para falar com Luís Gomes, editor da Sulina e nosso amigo comum. Luís topou para fazer-lhe um agrado. Agora, vai repassar esses direitos para Gláucia e seu marido, familiares do poeta. Volta e meia Miranda me dedicava um poema. Ou me pedia uma cópia de uma foto em que estamos juntos, ele, eu, Luís Gomes e Michel Houellebecq, na Feira do Livro de Porto Alegre. Gostava dessa imagem, que sempre perdia, como perdia números de telefone de quase todo mundo, exceto o da Sulina, por onde recomeçava os contatos. Tenho dele um livro autografado de 1993 em que desejava que a “luz azul da poesia” sempre estivesse em meu caminho.

Chegou a ter uma fortuna crítica excelente. Grandes poetas elogiaram a sua poesia. Ganhou importantes reconhecimentos, entre os quais o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2001). Teve muita mídia no Rio de Janeiro e em São Paulo. Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre a poesia de Miranda: “Poesia aberta, comunicante, como um sopro de vida e insatisfação”. Mário Quintana: “Porto Alegre, roteiro da paixão, é o canto sinfônico da cidade”. Ferreira Gullar: “A poesia de Luiz de Miranda fala de todos nós”. Raul Bopp: “A poesia de Luiz de Miranda revela a sensibilidade do verdadeiro e grande poeta. É uma contribuição definitiva à literatura brasileira”. Moacyr Scliar: “Luiz de Miranda, poeta maior deste país”.


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O que eu quero realmente dizer aqui é o seguinte: Luiz de Miranda era um bom poeta, com a devida vênia a quem pensa o oposto. Numa época em que a poesia, intimidada, só pode sussurrar, a dele ainda se permitia tons mais elevados, no estilo de Pablo Neruda. Miranda era o poeta boêmio de um mundo prosaico e cada vez mais cinza.

“O mundo é pequeno,
não vai além da nossa casa.
A estrada e o aramado
Vizinham, mas não se amam.
O silêncio morre
Neste tapete de ausências,
Onde procuro o sono e o amanhã.
O vinho é a esperança
Onde escrevo e permaneço”

(do “Livro do Passageiro”)

Vieira da Cunha, brizolista de carteirinha

Fiz um Terra Mátria, minha live semanal no Twitter, Facebook e Youtube, com Vieira da Cunha, o Vieirinha, candidato do PDT ao governo do Rio Grande do Sul. A conversa fluiu como tinha de ser. Afastado da linha de frente da política por seis anos, tendo reassumido seu cargo no Ministério Público, Vieira da Cunha está com toda a corda: cheio de ideias e de entusiasmo. Brinquei com ele dizendo saber que sua volta não podia demorar. Afinal, a política faz parte da identidade dele. Vieira riu e disse: “Acho que tu sabias mais do que eu mesmo”.

É papo direto. Por que não avançou a conversa para uma aliança com o PSB de Beto Albuquerque, que acabou por desistir da candidatura? Resposta frontal: porque o PDT é muito maior no Rio Grande do Sul do que o PSB e Beto não abriu mão da cabeça de chapa. Outra questão: com o PT, dadas as mágoas acumuladas ao longo do tempo (os petistas não perdoam Ciro Gomes por ter ido para Paris e não ter feito campanha para Fernando Haddad no segundo turno de 2018 e criticam o entusiasmo de Vieira da Cunha coma Lava Jato), teve conversa? Resposta: teve. Vieira discorreu longamente sobre a Lava Jato, disse não ser lavajatista, no sentido de um apoio incondicional à operação, renovou sua profissão de fé no combate à corrupção, garantiu de ter lido os processos contra Lula e ter encontrado muitas provas contra o ex-presidente da República. Ou seja, a paz com o PT não será selada.

Arrisquei à pergunta típica de jornalista? Num segundo turno entre Jair Bolsonaro e Lula, em quem Vieira votaria? Ele não quis responder alegando que a premissa é falsa por dar Ciro Gomes fora do segundo turno. Para Vieira o jogo de verdade, a campanha, ainda nem começou. As pesquisas, insistiu, não são definitivas. Lembrou do caso de Germano Rigotto, em 2002, que saiu muito atrás nas pesquisas e elegeu-se governador do Rio Grande do Sul. Vieira da Cunha é brizolista de coração, alma, corpo, carteirinha e crachá. Até 5 de agosto, data limite para a confirmação das chapas, ele ainda sonha com alguma aliança, reservando o lugar de vice na sua chapa para um parceiro de outro partido. Em caso de chapa pura, quer uma companheira pedetista para vice. Como candidato a sua primeira agenda será uma visita ao CPERS, o sindicado dos professores do Rio Grande do Sul.

Afinal, para ele, a educação vem em primeiro lugar.

Segue a íntegra da entrevista:

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