Juremir Machado da Silva

Sob o sol de junho

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Sob o sol de junho Nilson May, José Francisco e Salus Loch no lançamento do livro

      Forçoso é admitir que as expectativas na vida mudam com o tempo. Estou falando do tempo que faz. Há os que se deliciam com os invernos e suas lareiras, com taças de vinhos tintos aveludados, que lembram, em alguns casos, o cheiro acre de pinheiros selvagens. Esses são também os que se encantam com passeios na neve e outras aventuras geladas. Há, porém, os que só se fascinam pelo trabalho, pelas tabelas, pelas realizações, pelos saldos e pelos feitos com crachá. Digo que para alguns, como eu, chega o tempo do sol de inverno.

      Quando me perguntam qual a temperatura que mais me agrada, exagero: mínima de trinta graus. Feitas as ressalvas, negocio: fico com vinte e cinco e estamos conversados. Não me venham com nada abaixo de vinte graus. O frio não me traz qualquer recompensa. Lembro do minuano soprando nas coxilhas de Palomas, das frestas nos galpões e da melancolia dos crepúsculos. Recordo das geadas nas madrugadas. Posso também, dando um salto no tempo e na vida, lembrar de Berlim com sensação de quinze graus negativos. Ou de um final de ano nas montanhas do Jura. As melhores lembranças são sempre do calor.

      O sol de junho, num sábado de lentidão, interrompe por horas a passagem do tempo. Pode-se voltar à infância com uma cesta de bergamotas, que, em Palomas, eram chamadas de “vergamotas”. Ou contemplar o horizonte como quem busca a eternidade. Neste tempo de viagens, dominado pela aceleração do turismo, cada um deve andar o máximo para se manter minimamente sintonizado com o espírito da época. Há, contudo, os que como eu só querem contemplar. Não falo de uma contemplação patológica ou preguiçosa. Eu me refiro a essa necessidade espiritual de olhar o céu, cobrir-se com o sol morno e inventariar as melhores sensações: a vida em estado de purificação transitória.

      Uma das mais curiosas taras da nossa época é a das tabelas Excel. Um amigo, que antes falava dos Beatles e do existencialismo, converteu-se às tabelas Excel. Tivemos um encontro sob alamedas arborizadas. Ele não falou de flores nem citou Camus ou Sartre. Discorreu com olhos brilhantes sobre gráficos e tabelas coloridas. Havia passado do existencialismo ao “excelismo” com a mesma fé. Eu queria muito amar as tabelas Excel. Ainda continuo na literatura. Entre os livros tenho vivido meus melhores momentos, os de evasão. Às vezes, fujo de casa em companhia de Dom Quixote ou de qualquer um.


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      Há o tempo em que gente como eu se diverte contabilizando as contradições alheias, listando promessas não cumpridas, rindo das enrolações dos políticos e dos seus fãs mais dedicados, aqueles que torturam os fatos em prol das verdades de aluguel. O sol de junho pode ser um bálsamo, uma benção ou um chocolate quente. É fundamental em algum momento assumir uma alma de gato. Espreguiçar-se ao sol para frear a loucura da produção. Outro dia, encontrei uma colega que me deixou meio sem saber como me comportar ou o que dizer. Ela falou:

– Estou me sentindo nua.

– Opa! Como assim?

– Deixei meu crachá em casa.

Tambor tribal

(Esculturas de Porto Alegre)

Bombou no último sábado, na Casa da Memória Unimed” o lançamento do livro “A escultura pública de Porto Alegre”, obra em homenagem aos 250 anos da capital gaúcha, de José Francisco Alves, publicada pela Unimed Federação/RS e Unimed Porto Alegre, com apoio da Sidi – Medicina por imagem. O evento contou com a presença do secretário da Cultura de Porto Alegre, Gunter Axt, do secretário extraordinário para os 250 anos da capital, jornalista Rogério Beidacki, do escritor Gilberto Schwartsmann, que lançou recentemente o romance “A amante de Proust”, do professor Sergius Gonzaga e de muita gente da cultura. O médico e escritor Nilson May, presidente da Unimed Federação/RS, destacou a importância da memória para a identidade de um lugar.

(Fernanda Bastos na curadoria da FLIP)

      A jornalista gaúcha Fernanda Bastos, criadora, junto com o escritor Luiz Maurício Azevedo, da bela editora Figura de Linguagem, voltada para a literatura negra, será curadora da Festa Literária de Paraty, ao lado da professora e escritora baiana Milena Britto e do crítico literário Pedro Meira Monteiro, professor na Universidade de Princeton. A FLIP acontecerá de 23 a 27 de novembro de 2022. Fernanda manda muito bem na poesia, como prova o seu livro “Dessa cor”:

     Aperto o estilete
     confiro se está virado
     para baixo
     o lado mais pontiagudo
     que enfio na carne e
     rasgo o pulso
     tingindo os dedos
     e esfrego a mesma cor
     no chão até pintar
     um tapete vermelho
     para você.

Triste Brasil

      O assassinato do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Araújo afunda o Brasil ainda mais nessa tristeza que nos perturba.

Parêntese da semana

A revista mais cultural de Porto Alegre trata do “dono do nome”. Explico: virou mania alguém se se tornar dono do que é público, até de nomes. Japoneses andaram patenteando nomes de frutas brasileiras. O nome “Cais Mauá” teria dono. Quem nomeia vira dono? É poder divino.

Frase do Noites

O iluminista iluminado: “Profissão de fé: ninguém mais religioso do que um ateu convicto ou um militante em campanha eleitoral”.

Imagens e imaginários

Uma velha e inesquecível entrevista com Ailton Krenak feita em tempos de pandemia. Lição de modéstia sobre o lugar do homem no universo, crítica ao conceito de antropoceno, aula de generosidade.

Escuta essa

      Charles Trenet continua a ser uma das vozes mais clássicas da música francesa. “Que reste-t-il de nos amours?” é maravilhosa.

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