Juremir Machado da Silva

Um 13 de maio para não esquecer

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Um 13 de maio para não esquecer Capa do jornal Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888 (Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Os jornais fartaram-se de tanto noticiar os grandiosos fatos. Não havia greve de acontecimentos. A Gazeta de Notícias, de 14 de maio de 1888, segunda-feira, combinou as notícias sobre a melhora do estado de saúde do imperador com a libertação dos escravos. A descrição do momento final quis ser também monumental: “A sessão do Senado foi das mais imponentes que se tem visto. Antes de abrir-se a sessão, o povo que cercava todo o edifício, com justificada avidez de assistir ao que ali ia se passar, invadiu os corredores e recinto da câmara vitalícia.” O espetáculo em cartaz afigurava-se imperdível: “As galerias, ocupadas por senhoras, davam um aspecto novo e entusiástico ao Senado, onde reina a calma imperturbável da experiência.” O feminino, por um momento, invadia a casa dos machos.

O imaginário social estava dominado pela ilusão de um final feliz para um longo pesadelo.

Ao terminar o seu discurso, o senador Correia, que se congratulou com o país pela passagem do projeto, teve uma ovação por parte do povo. Apenas o Senado aprovou quase unanimemente o projeto, irrompeu uma salva prolongada de palmas, e vivas e saudações foram levantados ao Senado, ao gabinete 10 de março, à abolição, aos senadores abolicionistas e a S. A. Imperial Regente. Sobre os senadores caiu nessa ocasião uma chuva de flores, que cobriu completamente o tapete; foram soltados muitos passarinhos e pombas.

Assim se comemorava um acontecimento extraordinário. A população improvisava um roteiro ou adaptava seus costumes para estar à altura do salto que seu parlamento vinha, enfim, dar.


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Tudo era flor, embora nem todas as flores exalassem perfume.

Nessa ocasião, entrou no recinto uma comissão da Confederação Abolicionista, que entregou ao senhor senador Dantas e presidente do conselho ricas coroas de louro com espigas de ouro maciço. Ao presidente do Senado foi oferecido um ramo de flores artificiais.

Nas ruas, a festa antecipava o último ato e designava aos gritos seus heróis.


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Igual entusiasmo havia nas imediações do edifício, onde grande massa de povo se aglomerava em volta dos gloriosos estandartes da Confederação. À proporção que saíam os ministros e senadores abolicionistas, eram levantados vivas e saudações, especialmente quando apareceu em uma das janelas o benemérito conselheiro Dantas, a quem o povo fez uma estrondosa saudação.

Era a hora da colheita. Colheita das rosas e dos rosários de lutas.

Organizou-se depois luzido e numeroso préstito, precedido por duas bandas de música, o qual se dirigiu para a rua do Ouvidor. Foi esse o começo das festas de ontem, entusiásticas e extraordinárias, como jamais se viram nesta cidade.

Era tempo de colher, de aplaudir e de acreditar.

O cortejo enorme passou pela rua do Ouvidor às 2 horas, com destino ao paço da cidade, onde momentos depois Sua Alteza Imperial Regente devia sancionar o decreto legislativo extinguindo a Escravidão no Brasil.

Por que a palavra escravidão merecia (em jargão jornalístico) uma “caixa alta”, uma inicial maiúscula?

A passagem pela rua do Ouvidor foi imponente. Das redações dos jornais caía sobre o cortejo uma verdadeira chuva de flores. Os edifícios dos jornais achavam-se enfeitados com colchas, bandeiras, galhardetes e arcos de flores; muitas outras casas estavam também enfeitadas.

Era uma vitória também da imprensa.

À noite, as redações e muitas casas particulares da rua do Ouvidor iluminaram a frente. Em alguns jornais tocavam bandas de música. Desde que foi conhecida a votação do Senado começou a afluir muito povo, pela rua do Ouvidor, de modo que das 3 horas em diante era quase impossível o trânsito por ela.

A abolição engarrafava as ruas do Rio de Janeiro. A festa desengarrafaria o que os foliões pudessem beber. Havia, antes disso, o ritual.

Às 2h30 da tarde uma onda de povo invadiu o saguão do paço, apenas o préstito ali chegou. Uma comissão da Confederação Abolicionista, composta dos srs. João Clapp, Nicolau Moreira, Joaquim Nabuco, Afonso Celso Júnior, José do Patrocínio, capitão Senna, Pinto Peixoto, Antônio Azeredo, Brício Filho, Leopoldo Figueira, José Dantas, Doelinger e Regadas, subiu para uma das salas do Paço, onde aguardou a chegada de Sua Alteza a princesa imperial regente.

Quase todos os líderes da causa estavam presentes. A situação era solene e, ao mesmo tempo, de uma alegria incontrolável.

Em outra sala aguardava também a chegada de Sua Alteza a comissão do senado, composta dos srs. Dantas, Ignácio Martins, Afonso Celso, Evaristo Veiga, Jaguaribe, Cândido de Oliveira, Franco de Sá, Paranaguá, De Lamare, Barros Barreto e Taunay, para apresentar os autógrafos da lei extinguindo a escravidão.

Veio o coroamento da situação: “Pouco antes das 3h da tarde, anunciada a chegada de Sua Alteza por entusiásticos gritos do povo, que em delírio a aclamava, abrindo alas o ministério, camaristas e damas do paço vieram recebê-la à porta.”

[…]

Chegava ao fim o cativeiro.


[…]

Foi assim. E mais. Na página 3 da edição de 15 de maio de 1888 do jornal A Província de São Paulo, encontrava-se este anúncio: “Aluga-se uma criada branca para o serviço doméstico ou ama-seca.” Na primeira página dessa mesma edição histórica, Jesuíno Cardoso amarrava passado, presente e futuro: “1888 é o complemento de 1822 e o início de uma nova era, cujo término deve ser a uniformidade do regime democrático na América.”

*Fragmento de meu livro Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social. Rio de Janeiro: Record, 2017.

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