Juremir Machado da Silva

Porto Alegre de antigamente

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Porto Alegre de antigamente Fachada do antigo Cine Avenida, que funcionava na João Pessoa | Foto: Alex Rocha/PMPA

O conceito de antigamente é algo muito recente, especialmente na vida de cada pessoa. Era um mundo fervilhante. A capital gaúcha parecia enorme. A Rua da Praia exibia uma beleza lustrosa de salão de festas. Era ali que ainda passeavam as mais belas moças do Estado. Rapazes, essa palavra ainda não era coisa de velho, desfilavam garbosos – outro termo que também era possível usar. A era do shopping center estava apenas começando. A vida pulsava nas ruas. Jornais circulavam freneticamente: Correio do Povo, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Zero Hora, Jornal do Comércio, Diário de Notícias. Os militares estavam no poder, mas em fase de retirada lenta, gradual e insuportável.

Cinemas com portas para as calçadas atraiam milhares de espectadores: Imperial, Cacique, Vitória, Avenida, Capitólio, Guarany, Carlos Gomes, para os mais desinibidos sexualmente, Real, Baltimore e tantos outros que esta crônica se transformaria num catálogo se todas as salas fossem citadas. Havia cinemas nos bairros, até na distante avenida Assis Brasil. Ia-se ao cinema pelos diretores de um filme. Dizia-se: “Já viste o último Bergman?” Os mais prolixos precisavam: “Já viste o último do Buñuel?” Ainda era tempo de discotecas e ouvia-se alguém falar: “Aquele é nosso John Travolta”.

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O Internacional brilhava no cenário nacional. Falcão era o rei do Rio Grande do Sul e, com a aposentadoria do Pelé, um dos soberanos do Brasil. Depois, seria rei de Roma. As raparigas em flor, imperativamente chamadas de gurias, chocavam e deslumbravam com minissaias estonteantes. Os guris usavam pantalonas, bocas de sino, calças tão largas junto aos pés que varriam o chão por onde passavam. Havia cronistas para todos os gostos, assim como críticos de cinema. As corridas de cavalo no hipódromo do Cristal ainda eram chiques.

Era tempo de abraçar os que voltavam do exílio, de chorar pelos que nunca retornariam para casa, abatidos pelas ditaduras do Cone Sul, de ouvir Mercedes Sosa e, com certo atraso, de sonhar com uma “sociedade alternativa”. Ônibus haviam substituído os bucólicos bondes elétricos num afã de modernidade que um dia seria lamentado. Ainda não se votava para governador, muito menos para presidente da República, o bipartidarismo era um piscar de olhos da ditadura para a democracia que ela havia assassinado. Escrevia-se à sombra do grande Erico Verissimo, falecido havia poucos anos. Mario Quintana imperava na Caldas Júnior. A vida era agridoce como uma canção de Lupicínio.

Naquele distante ano da Porto Alegre antiga eu chegava à cidade pela primeira vez. Enxerguei uma nesga do Beira-Rio do alto do viaduto da Borges e quase não acreditei que era verdade. Tive vontade de dizer como Rastignac, personagem essencial do grande Balzac:

– Agora, nós dois, Porto Alegre.

Tive a sensatez de só pensar isso. Não podia imaginar que “séculos” depois sentiria saudades daqueles cinemas, daqueles jornais, inclusive dos que pouco li, como o Diário de Notícias, que se extinguiu ao final daquela década, e da vida que não levei, pois já se vivia uma transição para o que deixaríamos de ser. Hoje, quando penso na Porto Alegre de antigamente, penso naquele distante ano de 1979. Tudo me parecia possível naqueles dias impossíveis. Essa Porto Alegre antiga agora é uma foto nas minhas lembranças esparsas.

Às vezes, olho para a cidade e me pego murmurando:

– Como foi que não vimos o tempo passar!

A vida é como um jornal do dia anterior. Mal se terminou de ler, já passou.

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