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O futuro não vem de carro

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O futuro não vem de carro

A mobilidade urbana molda não apenas cidades, como oportunidades e acessos a serviços e ao lazer da população, seja por meio da disponibilidade de diferentes formas de se locomover, como pela infraestrutura oferecida. Com a maioria das pessoas do país vivendo em concentrações urbanas e dentro de um contexto de crise climática – essa impulsionada pelas emissões de veículos automotores – já passa da hora de repensar o modelo de mobilidade das cidades, visando uma melhor adaptação e enquadramento a um futuro sustentável.

As cidades do Brasil hoje têm uma profunda relação com o modelo rodoviarista, com uma constante expansão horizontal da mancha urbana, a obrigatoriedade e aumento do número de vagas de estacionamento em planos diretores, sem falar nas reduções fiscais para aquisição de veículos automotores. O carro consolidou-se no país a partir de décadas de incentivos governamentais – promovidos por diferentes gestões – que muitas vezes abriram mão de receber impostos em troca da implantação de indústrias automobilísticas em nome da economia. 

E eis que o automóvel ganhou as ruas que não deveriam ter deixado de ser das pessoas. Por vezes, rasgou áreas verdes com asfaltamento em prol do “progresso”, delineou diferentes traçados e estreitou o passeio dos pedestres, enquanto colaborou decisivamente para a crise climática. De tanto espaço, o carro passou a ocupar imaginários de sonhos e sucesso. Quem não lembra do destaque que ganhava o “carro do ano”? 

Faltou sublinhar, porém, o quanto de prejuízos essa proliferação desenfreada de carros proporcionou. Não apenas na questão do espaço, mas da escala em que nossas cidades são pensadas. O planejamento urbano passou a responder às necessidades de veículos automotores. Quantas vezes não foi defendido o alargamento de vias ou de se construírem viadutos para “melhorar o fluxo”? Não bastaram. E, mesmo assim, os já normalizados congestionamentos das grandes cidades continuam a ser cenas comuns. 

Se hoje é até difícil imaginar como seriam as cidades sem carros – do silêncio das ruas à qualidade do ar que seriam instantaneamente proporcionados – esse exercício se faz mais do que necessário ao planejamento urbano para o futuro. É tempo de repensar a relação a dimensão humana na cidade, centrar as decisões nas pessoas e não mais em automóveis. Tornar as cidades atrativas e convidativas a outros modos de deslocamento. Eis o desafio para os próximos anos. 

Para isso é necessário fomentar uma mobilidade urbana inteligente e sustentável, porque as pessoas seguem e seguirão precisando se movimentar nas cidades. O departamento gaúcho do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB RS) vê na mobilidade sustentável uma alternativa possível. Ao repensar a distribuição do uso do solo na cidade, redesenhar os passeios, além de deixá-los acessíveis, pode ajudar a encurtar distâncias. O ato de caminhar por si só já é saudável, criar espaços convidativos ao pedestre pode transformar a realidade do futuro de uma população. 

Ter o transporte público priorizado, juntamente com a qualificação dos serviços prestados, é fator determinante na redução da disputa dos tempos de viagem. A infraestrutura urbana precisa estar a favor de uma sociedade que busque no veículo particular a exceção do deslocamento, que possa encontrar no transporte coletivo viabilidade para o seu dia-a-dia. Transporte público de qualidade, planejado e ao alcance – tanto física quanto financeiramente – da população, pode impulsionar a melhoria da qualidade de vida de como um todo.

Uma cidade mais democrática se constrói também a partir da mobilidade. A dificuldade de acesso a oportunidades de trabalho e educação é um obstáculo decisivo à superação da pobreza. O acesso à equipamentos básicos de saúde e às atividades públicas de lazer são direitos que estão na base constitucional da nossa sociedade. O direito ao transporte e à mobilidade são caminhos para o direito à cidade! 

Perceber que a mobilidade urbana não pode mais partir do veículo individual motorizado como elemento principal das cidades faz parte de um movimento global, que pode ser entendido pelo Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável – DOTS. Integrar a cidade a partir de diferentes modais é uma das tantas estratégias possíveis e estimular o uso de bicicletas pode ser uma das principais. Assim como dar mais espaço para os carros faz aumentar o seu uso, a expansão da infraestrutura cicloviária encoraja as pessoas a usarem bicicletas como meio de transporte, além de melhorar a segurança viária e promover saúde pública. 

Atualmente, Porto Alegre – outrora referência no transporte público – cria percalços para si mesma nesta área. Apesar de contar com um Plano Diretor Cicloviário desde 2009, apenas cerca de 15% dessas rotas foram instaladas, num ritmo que, de tão lento, parece estacionado. Além da morosidade, a maioria das ciclovias se concentra na região central da cidade, não oportunizando o uso de um modal de baixo custo e ambientalmente sustentável à população periférica e beneficiando, ainda que indiretamente, o setor imobiliário

Não bastasse a pouca quilometragem de ciclovias na cidade, ainda que comprovadamente elas colaborem para reduzir o número de acidentes, a maioria dessas vias segue descontinuada ou desconectada. Para piorar, algumas, como na Benno Mentz, são apagadas, sendo reconvertidas em ciclorrotas, com menos segurança aos ciclistas e mais espaço aos carros. A falta de manutenção e cuidados ainda faz cenas como as que vimos acontecer neste ano, com ciclovias literalmente desabando na Avenida Ipiranga.

Nesse cenário, aos ciclistas, ainda é negado o direito de transportar o seu veículo no transporte público, o que economizaria tempo e encurtaria distâncias, em especial àqueles que vivem em áreas periféricas da cidade. Assim como a falta de dados sobre quem pedala e onde pedala acaba por deixar obscura a real demanda que Porto Alegre tem sobre as infraestruturas, equipamentos e mobiliários complementares, como bicicletários e paraciclos – elementos igualmente importantes para o planejamento de uma cidade cicloinclusiva. 

Ao também não zelar por suas calçadas da mesma forma que assiste ao recorrente corte de árvores e à construção de arranha-céus que inevitavelmente vão elevar a movimentação de carros particulares, Porto Alegre, cuja atual gestão municipal não raro exalta a “inovação”, desperdiça a oportunidade de apresentar ao mundo a potência da vitalidade urbana que tem em suas ruas e calçadas, para pedestres e ciclistas. Para pessoas.  

O futuro não vem de carro.

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