Desapaga POA

Os impactos do Plano de Melhoramentos de 1914 e os projetos de memória da atualidade nas periferias

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Os impactos do Plano de Melhoramentos de 1914 e os projetos de memória da atualidade nas periferias O atual Viaduto da Borges de Medeiros, ou Viaduto Otávio Rocha, nome do Intendente da época de execução da obra planejada no Plano de 1914. Foto: Acervo Museu José Joaquim Felizardo e Banco de Imagens do Programa Monumenta

A pesquisa, os textos e a elaboração dos roteiros da série sobre a PERIFERIAS na história de Porto Alegre são de Guilherme Maffei, Juliana Mohr e Vinicius Furini.
A equipe de locução conta com Clara Falcão e Lucas Samuel.
Os áudios e a trilha sonora tem a direção e criação de Bebeto Alves e nesta edição conta com músicas de Nelson Coelho de Castro.
A comunicação é do Marketing da Ju e a edição é de Vitor Ortiz.

Ministério do Turismo, Secretaria Especial de Cultura, Secretaria de Estado da Cultura e Fundação Marcopolo apresentam:
DESAPAGA POA – O podcast que chegou para desapagar os apagados da história de Porto Alegre: negros, negras, negres, indígenas e periferias, às vésperas da cidade completar 250 anos de sua data oficial de fundação.

Olá pessoal, estamos iniciando mais um episódio da série DESAPAGA POA.

Este projeto foi selecionado no edital Criação e Formação Diversidade das Culturas, da Secretaria Estadual da Cultura – SEDAC/RS – e Fundação Marcopolo e é realizado com recursos da Lei 14.017 de 2020 (a Lei Aldir Blanc).

Esta primeira série terá 10 episódios que estão disponíveis nos principais agregadores de podcast, sendo transmitidos todos os sábados, pela rádio FM Cultura (107.7), e apoiadora do projeto.

O DESAPAGA POA tem o apoio também do Matinal Jornalismo, revista Parêntese e RogerLerina.com; e os conteúdos detalhados (o roteiro para leitura, a bibliografia e as imagens da pesquisa) ficam disponíveis no site www.matinaljornalismo.com.br/desapagapoa.

Eu te convido a seguir o Desapaga POA nas redes sociais e a colaborar com o projeto na nossa vaquinha digital no site APOIA-SE e compartilhando os episódios com seus amigos.

A pesquisa, os textos e a elaboração dos roteiros da série sobre PERIFERIAS na história de Porto Alegre – que você vai ouvir neste episódio – são de Guilherme Maffei, Juliana Mohr e Vinicius Furini.

A equipe de locução deste episódio conta com Claro Falcão e Lucas Samuel.

Os áudios e a trilha sonora têm a direção e criação de Bebeto Alves, com participação do professor de canto e dança guarani Arlindo Kuarai.

Toda a produção do projeto é realizada via on-line, com trabalho em home office e reuniões pela web, diante da necessidade de cuidados neste contexto de pandemia.

A comunicação é do Marketing da Ju. A edição é minha e eu sou o Vitor Ortiz.

Neste episódio, vamos analisar os impactos dos primeiros planos urbanísticos da história da cidade, como o Plano de Melhoramentos e Embelezamento que estabeleceu projetos e diretrizes higienizadoras, resultando nas principais transformações do centro de Porto Alegre nas primeiras décadas do século XX, como a abertura da avenida Borges de Medeiros.

Vamos também navegar pelas Ilhas do Guaíba, entre outras histórias, para conhecer algumas das iniciativas de valorização do Patrimônio Cultural das nossas periferias, relembrando que a Prefeitura já chegou a financiar projetos emblemáticos, como o“Memória dos Bairros”.

Museu de Imagens Desapaga POA

PARTE 1

PORTO ALEGRE SE REESTRUTURA: BELOS POSTAIS SEM TRABALHADORES

Juliana Mohr

Na cidade alta, à vista de todos, destacavam-se o espaço de oração e as casas públicas e privadas daqueles que comandavam a cidade. Na cidade baixa, o fervor do porto, de seus trabalhadores e de suas mazelas. Pela configuração do terreno, em aclives e declives, por mais que os engenheiros militares se dedicassem a esquadrinhar simétricas vias e lotes nos planos oficiais da cidade, vielas e becos surgiam quase naturalmente, nas adjacências, para dar acesso e, principalmente, para abrigar os mais pobres da cidade.

Em ocupações desordenadas de terrenos baldios ou de prédios senhoriais ultrapassados, surgiram diversas casas, às vezes grandes, às vezes pequenas, mas essencialmente muito simples para a modernidade que a cidade ambicionava.

Becos povoados por cortiços eram uma realidade na Porto Alegre do final do século XIX. Casas que abrigavam mais de uma família, que abrigavam os trabalhadores da cidade que se viam obrigados a arcar com altos valores para alugar espaços insalubres. Porto Alegre estava deixando de ser uma cidade colonial para se tornar industrial, e necessitava da força motriz de uma massa trabalhadora que viria a ser composta por ex-escravizados, colonos vindos do interior e imigrantes, mas não queria cruzar com suas moradias.

A elite industrial, bastante influenciada pelos ideais de Augusto Comte e seu lema “Ordem e Progresso”, nessas terras sulinas eram representadas pelo PRR (o Partido Republicano Rio-Grandense). Ela não estava satisfeita com o que se via pelo centro da cidade. Júlio Castilhos, líder considerado ideal por esta elite do positivismo republicano gaúcho, indicou, então, para concorrer ao cargo de Intendente – o que corresponderia ao de prefeito nos dias atuais – a José Montaury, que tomou posse em 1897 permanecendo na Intendência até 1924 – por 27 anos consecutivos.

Era ele o encarregado de redecorar a “sala de visitas” do Rio Grande do Sul, a capital Porto Alegre. Sala de visitas esta que, na visão dos republicanos, deveria ser apresentada ao mundo como belíssimos cartões postais, com edifícios monumentais e praças com elaborados planos paisagísticos, o que fora então preparado. Não podia haver ruelas sem calçadas, sem saneamento básico e apinhadas de empobrecidos que não viviam como os tempos da modernidade exigiam.

O jornal Gazetinha de 05 de março de 1896 destacava o que de pior podia existir nesta moderna Porto Alegre: becos e cortiços:

“Horas há, durante o dia, em que se torna prejudicial à saúde transitar-se por ali, // tal é o fétido que exalam as ditas calhas”. // (apud KOLLER, 2015, p. 96).

Os becos deveriam, assim, ser higienizados, destruídos, e seus moradores remodelados. Mas como fazer isso? Com novas diretrizes municipais que obrigassem os proprietários a adaptar as construções ao esplendor da modernidade , teoricamente, incorporando os proletários à tal sociedade moderna.

Para tanto, a intendência aumentou taxas para os terrenos baldios, exigiu a substituição de divisórias de madeira nas casas, a construção de latrinas, coibiu a criação de cortiços proibindo construção de prédios sem frente de terreno e exigiu que houvesse uma entrada independente para uso exclusivo dos moradores. Apresentou, Inclusive, sugestão de plantas para novas casas populares. Ou seja, buscou de diferentes formas acabar com os cortiços e evitar que se proliferassem. Tudo fiscalizado pela Diretoria de Higiene Municipal.

O intendente Otávio Rocha, que assumiu em 1924, tentou seguir os esforços de seu antecessor, José Montaury, realizando o que foi idealizado pelo Plano de Melhoramentos e Embelezamento, o conhecido Plano João Moreira Maciel, de 1914, seguindo com a instalação de esgoto, iluminação pública, gás, abertura e alargamento de vias para a melhoria da circulação e transporte.

Como salienta o professor Günter Weimer (2015), porém, tal plano tinha como objeto de modernização apenas o centro da cidade, o que correspondia a cerca de um quinto do território urbano já ocupado ou em vias de ser. Ou seja, a “visão de conjunto” alardeada pelos positivistas não correspondia exatamente à realidade no planejamento da Intendência e, muito menos, a que fora executada. Desse modo, perdeu-se uma oportunidade efetiva para a adoção de diretrizes gerais para o desenvolvimento e expansão da cidade , um déficit que, nos próximos anos, Porto Alegre vai acumular e carregar nos ombros da população que vivia fora do centro da cidade.

As reformulações da cidade, ao invés de melhorar a vida dos trabalhadores, acostumados com 12 e até 14 horas diárias de serviços, na prática, a aplicação do Plano Moreira Maciel levou ao aumento dos aluguéis na área central e à migração dos mais pobres para moradias mais afastadas do centro, com menor infraestrutura e consequentemente, mais baratas.

E para onde foram esses trabalhadores, // suprimidos da cena fotográfica dos cartões

Eles foram para os arrabaldes, principalmente para lugares mais próximos aos seus respectivos locais de trabalho. No Quarto Distrito da capital, no prolongamento da rua Voluntários da Pátria, antigo Caminho Novo, se instalaram diversas fábricas, dando origem aos bairros-fabris São João e Navegantes.

A Porto Alegre de 1900 possuía, oficialmente, pouco mais de 73.000 moradores, e a de 1927, após este ciclo, já tinha ultrapassado os 270.000 habitantes, dos quais mais de 10% – ou 35.000 pessoas – moravam no Quarto Distrito.

Vivendo próximos a seus locais de trabalho, dificilmente precisariam ir ao que os trabalhadores chamavam de (entre aspas) “Porto Alegre”, ou seja, ao centro da cidade, pois no seu bairro havia fábricas, comércio, bares, cinemas e clubes de recreação. O bairro então era como se fosse uma cidade dentro de outra.

Segundo Margarete Bakos, o intendente Alberto Bins, que assumiu com a morte prematura de Otávio Rocha em 1928, tentou melhorar a moradia dos trabalhadores com o plano público de construção das vilas operárias, uma vez que se observava um “afluxo desordenado de moradias de trabalhadores nas cercanias da zona industrial,” mas, ao que parece, a falta de verbas impediu o progresso do plano. Enquanto isso, companhias privadas promoviam o loteamento dos distritos, oferecendo lotes conforme a renda dos possíveis moradores. No caso dos bairros Navegantes e São João – áreas baixas e sujeitas a inundações – os terrenos eram vendidos a longo prazo, em pequenas parcelas.

Mas quem eram esses trabalhadores-compradores? Alexandre Fortes explica no seu livro de 2004: Nós do quarto distrito: a classe trabalhadora porto-alegrense e a era Vargas:

“Ao lado dos imigrantes estrangeiros recentes, havia muitos trabalhadores industriais de Porto Alegre vindos do interior, geralmente de famílias que já habitavam o estado no período anterior à grande imigração do século XIX. Esses gaúchos resultavam da miscigenação, ao longo de várias gerações e em graus e combinações variadas, de indígenas, negros, castelhanos e portugueses, cujo sobrenome, via de regra, eram adotados destes últimos, dos portugueses.”

Assim, os bairros afastados passaram a possuir uma população composta de novos trabalhadores combinados com aqueles que foram expulsos do centro da cidade.

Passada a primeira metade do século XX, os movimentos de expulsão dos trabalhadores para as margens periféricas do município continuaram, intensificados especialmente pela pressão do crescimento populacional, em grande parte resultante do fenômeno da migração do campo para as grandes cidades, o que ocorreu especialmente nas regiões sudeste e sul do Brasil, as primeiras a sentirem os impactos da industrialização, inclusive e de forma muito evidente no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre.

Em que pese alguns projetos previstos no Plano Geral de Melhoramentos de 1914 e sua implementação tenham contribuído para a elevação do preço dos aluguéis na área central e ainda em que pese obras como a abertura da atual avenida Borges de Medeiros – realizada vários anos depois – mas idealizadas naquele plano – tenham tido consequência higienizadora, causando a expulsão de parte dos mais pobres do centro para outros lugares de moradia na periferia, o Plano é um dos pioneiros na transformação de grandes cidades no Brasil e tem aspectos até hoje levados em conta, influenciando todos os Planos Diretores da cidade elaborados posteriormente a ele, conforme nos explica a professora Célia Ferraz, arquiteta e urbanista formada pela Mackenzie – São Paulo – professora do programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da UFRGS:

No ponto de vista da referida professora, “Porto Alegre, como capital do Estado, no início daquele período republicano, não poderia desprezar a feitura de um plano, que pudesse organizar os novos espaços de aterros, gerados pela construção do novo porto, no centro, que estava em andamento, o que a levaria a cidade ao status de cidade moderna.

“Havia, claro, outras necessidades. Outros lugares também demandavam atenção e precisavam ser reformulados, como os alargamentos e prolongamentos de vias, avenidas marcando os acessos que iam sendo adequados às novas necessidades do trânsito. Os bondes, por exemplo, que já estavam instalados e correndo pelas ruas não conseguiam dar conta do atendimento de toda a cidade em razão da impossibilidade de vencer a topografia acidentada entre o centro e as saídas para os arrabaldes e vice-versa.

A insalubridade de algumas localidades, também exigia providências. Áreas inundáveis tinham que ser resolvidas. Riachos transbordando, como era o caso do Dilúvio e do Cascatinha, exigiam soluções. Problemas estruturais não faltavam. A solução era planejar a cidade, o que era uma exigência do governador ao intendente da capital.” – afirma Célia.

Para dar um andamento mais rápido, a Intendência criou a Comissão dos Melhoramentos Urbanos, em 20 de junho de 1912. Esta comissão foi dividida em três setores, para que vários assuntos pudessem ser tratados simultaneamente. O setor de Cadastro, tratava do plano de melhoramentos urbanos, onde o Eng. Maciel estava encarregado de mapear os projetos aprovados, criar novos espaços e reorganizar os existentes. Ele deveria também atentar para a questão do saneamento e embelezamento da cidade. “Sempre obedecendo à norma positivista de Melhorar Conservando!”, acentua Célia Ferraz, a quem o Desapaga POA procurou ouvir para complementar essa análise dos impactos do Plano João Moreira Maciel.

Na capital gaúcha, duas vilas centrais permaneciam incomodando o embelezamento do centro da cidade. Eram elas a Vila Santa Luzia, considerada uma das maiores de Porto Alegre, no bairro Santo Antônio, e, a Ilhota, conhecida como o “reduto dos negros”, próxima aos bairros Cidade Baixa, Menino Deus e Azenha – onde hoje está o Centro Municipal de Cultura e o Ginásio Tesourinha.

As duas se caracterizavam por serem povoadas por grandes e numerosas famílias, muitas vezes aparentadas, sem acesso à infraestrutura de saneamento básico e por serem constituídas por casebres, em regiões inicialmente desprezadas pela classe média. A primeira na colina da melancolia, adjacente aos diversos cemitérios, como o São Miguel e Almas; a segunda em área baixa, entre uma ilha formada pelos dois cursos d’água do arroio Jacarezinho, condição que lhe dava o nome de Ilhota.

Quando o Jacarezinho, hoje o conhecido arroio Dilúvio, foi canalizado – o que ocorreu no início dos anos 1940, na gestão do Prefeito Loureiro da Silva – a Ilhota deixou de existir como tal. Aliás, um dos braços do Jacarezinho ou Jacareí, que significa “rio dos Jacarés” na língua guarani, seguia em direção à ponta do Gasômetro, destacando-se onde ainda hoje existe a Ponte dos Açorianos, também chamada de Ponte de Pedra. As famílias da Santa Luzia, na colina onde atualmente estão os cemitérios, e da Ilhota, foram removidas abruptamente nos anos 1960, dando origem ao bairro Restinga.

O impacto desta mudança caracteriza o contexto pensado por Janice Perlman, segundo a qual:

“A mudança de residência por imposição do governo trouxe grandes perdas para a população removida […] Antes da remoção, essas populações tinham proximidade com as classes mais abastadas e, diante disso, conseguiam trabalhos […] A vantagem da localização compensava as dificuldades e lhes permitia sobreviver com maior facilidade. (1977 apud ZAMBONI, 2009, p.44)

Assim, as mudanças impostas pelos administradores da cidade naqueles anos 1960, como ocorreu no caso da Santa Luzia e da Ilhota, tiveram como principal impacto o distanciamento dos trabalhadores que ali viviam do seu lugar de trabalho, localizado na região central – implicando, entre outras coisas, também, numa grande mudanças no seu cotidiano e tipo de vida.

Ao serem deslocadas, as diversas famílias tiveram que se adaptar ao contexto de uma mudança radical, numa ruptura também nas suas redes de relações interpessoais. Os primeiros moradores da Restinga viviam e trabalhavam na região central da cidade e, ao serem deslocados para a periferia da zona sul, passaram, juntamente com as periferias das zonas norte e leste de Porto Alegre, a ter que travar lutas que adentram o século XXI, a fim de assegurar o direito dos moradores de acesso ao sistema sanitário, à educação pública e gratuita, a assistência à saúde, ao trabalho e renda, ao lazer e a algo novo que adentrou a agenda cotidiana de suas vidas naqueles anos 1960: o transporte.

PARTE 2

AS ILHAS DO GUAÍBA E OS PATRIMÔNIOS DE PERIFERIA

Guilherme Maffei Brandalise

Existe um bairro em Porto Alegre que, apesar de estar localizado próximo do centro e ser quase tão antigo quanto a própria cidade, nem sempre é lembrado como parte deste universo que classificamos de periferias. Talvez porque entre a massa urbana – do concreto e do asfalto das ruas do centro – e este lugar de moradia, exista um rio, um caudaloso manancial de águas doces que envolvem o oficialmente denominado Bairro Arquipélago, assim estabelecido em 1959. O bairro, suas ilhas, fauna, flora e as águas que o envolvem compõem o Parque Estadual do Delta do Jacuí, criado oficialmente, em 1979 – uma das principais reservas de biodiversidade da região.

Além da natureza exuberante, protegida pela legislação ambiental do Estado, nas diversas Ilhas que compõem o delta desaguam os rios que formam o Guaíba: o Jacuí, o rio Caí, o Gravataí e o Sinos (este último, o único que perdeu seu antigo nome indígena, pois antes da colonização teria a denominação de Cururuaí ou Itapuí, no tupi-guarani).

Alguns núcleos urbanos das ilhas surgiram ainda no século XVIII, quando começaram a ser povoadas por açorianos. Traços das tradições desse povo imigrante ainda são perceptíveis nas Ilhas, como é o caso da culinária, do artesanato e da cultura religiosa. Nestes primórdios da ocupação açoriana estava também o modo de produção escravista e os homens, mulheres e crianças trazidos à força da África e às vezes, sendo chamados de crioulos, de outros recantos do Brasil. Esse povo também deixou um legado nas Ilhas, como mostram alguns nomes de elementos geográficos, como a Ilha do Quilombo, a Ilha da Maria Conga, o Arroio Congo, o Arroio Quilombo, entre outros.

Há inclusive histórias de resistência e vingança, uma delas sobre um tal de Dom Manoel, um fazendeiro que costumava maltratar aqueles que escravizava, tanto que acabaram por assassiná-lo. Datado de 1856, há também registro de terras nas Ilhas de posse de uma família negra, os Benguela de Aguiar.

Todas essas histórias poderiam ter sido levadas pela correnteza do tempo e da modernidade, que fazem com que a cultura perca suas raízes e se transforme em mercadorias com valores supostamente universais, afastadas das pessoas e das comunidades. Porém, iniciativas como a de Teresinha Carvalho da Silva, professora da rede pública e pesquisadora da história das Ilhas, conseguem preservar e fomentar a memória dos lugares. Seu projeto se chama Museu das Ilhas do Guaíba, tem o apoio da UFRGS e se expressa na forma de diversos painéis espalhados pelos núcleos urbanos do Delta, com o objetivo de atingir os turistas, apresentando os locais e diversas histórias, dialogando também com a memória e outras instituições que atuam naquelas comunidades. Por exemplo, conta um dos painéis que, em 1836, em plena Guerra Farroupilha, as escunas dos rebeldes atravessaram o canalete no arroio Flor da Pintada, que corta a Ilha que leva este mesmo nome, para chegar em Porto Alegre, então controlada pelos imperiais. Canalete esse, que foi construído com mão de obra de prisioneiros, negros e brancos, do antigo Cadeião da ponta do gasômetro, para escoar a produção nas Ilhas nos tempos de paz, anteriores ao da guerra farroupilha.

Há também na Ilha da Pintada um antigo transmissor de rádio que já contou e é referência de muitas das histórias que marcaram Porto Alegre. Noutro quadrante da cidade, no Bairro Ponta Grossa, um outro historiador daquela comunidade busca resgatar a importância histórica de um outro transmissor da mesma época, utilizado pelo então Governador Leonel Brizola na Rede da Legalidade, em 1961. Rede radiofônica esta que ajudou a impedir o golpe militar naquele ano, mobilizando o Rio Grande do Sul para assegurar a posse do presidente João Goulart, diante da renúncia de Jânio Quadros e da resistência das elites conservadoras do país a um presidente trabalhista.

No extremo sul da cidade, o historiador Vagner Eifler promove trilhas contando a história e mostrando a beleza natural do bairro também banhado pelas águas do Guaíba, enquanto luta com sua comunidade pela preservação do prédio, hoje abandonado, da antiga estação transmissora da Rádio Farroupilha, que assim como a que existe na Ilha da Pintada, preserva uma história cívica, de resistência e luta do povo gaúcho pela democracia.

Iniciativas de preservação da memória empreendida nos bairros da cidade com temas locais ou em torno de episódios da história política nacional – como estas das ilhas e da Ponta Grossa, identificadas na Rede da Legalidade – não são únicas em Porto Alegre.

Na zona leste da capital, surgiu em 2006 o Museu Comunitário da Lomba do Pinheiro, estabelecido no casarão de estilo colonial português – construído ainda no final do século XIX pela família Remião – prédio doado ao projeto do Museu pelos herdeiros.

A organização de um acervo teve início com peças e mobiliário antigos, ligado ao passado – nem tão distante – em que o bairro era praticamente zona rural. A iniciativa contou com a colaboração fundamental da comunidade a partir de depoimentos e participação nas atividades programadas pelo projeto.

Em entrevista ao portal Aprendiz, O pesquisador Davidson Kaseker afirmou que “a dimensão desafiadora da diversidade étnica-cultural ímpar da Lomba do Pinheiro – expressa pelo convívio de três CTGs (os Centro de Tradições Gaúchas), duas escolas de samba, três escolas de música (entre as quais a Orquestra Villa Lobos) três grupos de etnias indígenas (Kaingang, M´byá Guarani, Charrua), vinte e sete times de futebol e trinta e três associações de moradores – impulsionou essa primeira iniciativa de preservação da memória da comunidade, criando um projeto de musealização do território” – inovador e desafiador, tendo em vista este encontro de culturas diversas e tempos históricos distintos: do rural colonial às periferias urbanas da contemporaneidade.

No caso da Lomba do Pinheiro, não há dúvidas de que é essa diversidade de culturas, práticas e grupos uma das riquezas culturais do bairro. É dessa mistura, dessa pluralidade de origens e práticas que se forma a memória social nas periferias do Brasil.

Segundo o sociólogo austríaco Michael Pollak, existem três aspectos relevantes que influenciam na construção tanto da memória quanto da identidade social: os acontecimentos, direta ou indiretamente ligados àquela comunidade; os lugares importantes e os personagens – que são os protagonistas das histórias.

Há também diversas maneiras de preservar os patrimônios, sejam eles materiais ou imateriais, que podem contar com a iniciativa privada, o estado ou ainda as próprias comunidades. Neste último caso, em que o protagonismo é da comunidade, a participação das pessoas a partir de um processo democrático consegue valorizar de forma especial o patrimônio vivo, que pode advir tanto das práticas culturais quanto das pessoas “especialistas da memória” – utilizando palavras do grande historiador Jacques Le Goff.

Uma referência histórica dessa perspectiva popular na preservação da memória social existiu até alguns anos atrás aqui mesmo em Porto Alegre, e se chamava projeto “Memória dos Bairros”. Uma iniciativa que teve início assim que foi criada a Secretaria Municipal da Cultura, o que ocorreu já no primeiro mandato de um prefeito eleito após o ciclo de prefeitos biônicos nomeados pela ditadura para governar a capital, como fora entre 1964 e 1986.

Depois de 22 anos de prefeitos interventores, que precisavam do amém dos militares, já que a cidade era considerada “área de segurança nacional”, o ex-Prefeito Alceu Collares, através de um movimento liderado pelo Professor Joaquim José Felizardo, criou a SMC, dando início a um ciclo inovador de políticas públicas de cultura, seguidos depois pelo ex-Prefeito Olívio Dutra e em todo o período de governos da chamada Administração Popular. O projeto Memória dos Bairros teve, na sua origem, este vínculo oficial e trouxe uma visão específica sobre o que é história e o que é memória, visão esta bastante conectada ao processo de criação do Orçamento Participativo, especialmente entre os anos 1990 e 2000.

Dirigido pela pesquisadora Marion Kruse Nunes, o Memória dos Bairros era executado através do CPH – Centro de Pesquisa Histórica – instituição de memória da prefeitura de Porto Alegre, criado em 1989. Sua metodologia baseava-se principalmente na técnica da História Oral, método que historiadores utilizam para pensar o passado a partir do depoimento de pessoas. Durante a pesquisa, eram documentadas práticas sociais, desde as mais simples experiências cotidianas até as mais organizadas; preservando, reconstruindo e estruturando a memória social das comunidades da cidade. O resultado final do projeto foram 16 livros sobre diversos bairros e regiões, todos disponíveis gratuitamente na web, no site do Centro de Pesquisa Histórica de Porto Alegre, ainda disponível.

Com esses exemplos, podemos pensar em novas maneiras de contar a história da cidade, dos bairros, das ruas, de modo que se leve em conta a vivência das pessoas, de seus familiares e vizinhos, rompendo com uma visão elitista, segundo a qual as pessoas simples e do povo não fazem história, ou que história é coisa de generais e grandes vultos – como propugnava um fazer histórico conservador.

Afinal, a experiência de viver num determinado bairro ou região da cidade costuma ser compartilhada pelos diversos moradores dali, circunstância que nas periferias pode ser ainda mais marcante pela necessidade de luta por melhores condições de vida e de infraestrutura urbana. Mesmo que nossa época nos induza ao individualismo, como seres humanos, necessitamos de uma coletividade ao redor, e é também direito de todos conhecer, organizar, preservar e valorizar suas memórias e suas histórias.

BIBLIOGRAFIA:

Museu das Ilhas do Guaíba:

História da Ponta Grossa:

Museu Comunitário da Lomba do Pinheiro:

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