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O insustentável “existir” na periferia

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O insustentável “existir” na periferia

Alteramos nossa rotina em março de 2020, quando de uma hora para outra fomos atingidos pela pandemia. No bairro Restinga um misto de descrença e medo juntou-se à inevitável ordem do cotidiano: trabalho, transporte, escola, mercado. Como fazer uma reunião com amigos? Como estar em família agora em meio ao isolamento? Contudo, o mundo não para. Mesmo que diminua a velocidade, é à força de trabalho e consumo que alimenta essa dinâmica. 

Na Restinga, as ações de controle e distanciamento se confundem com a necessidade de sobreviver. A criatividade de quem “se vira” é desafiada pelas limitações. Aqui o medo da fome é maior que o do vírus. Além disso, nossa fração dentro da cidade é preferencialmente deixada na violência silenciosa do descaso. São poucas as políticas públicas e a compensação se constrói somente pela mobilização interna e externa. Essa é a única ação que garante a segurança alimentar de uma população com mais de 100 mil habitantes. 

As saídas emergenciais de socorro para famílias em situação de vulnerabilidade são providenciadas, por exemplo, pelas professoras e professores. São eles que em seu coletivo mobilizam uma rede para garantir a vida de seus educandos. São esses educadores que preenchem com seus parcos recursos os espaços vazios deixados pelo Estado. Os mesmos profissionais que no decorrer do ano passado foram expostos a compromissos desumanos para lidar com a carência de todos os recursos para efetivar suas práticas de ensino. O que vemos é uma onda de desemprego que leva crianças e adolescentes a perderem os espaços de alimentação que a escola se tornou. Sem falar que os índices de abandono escolar beiram o inacreditável.

Outro problema combatido pela sociedade civil é a violência doméstica. Mulheres comuns e treinadas pela Themis, as Promotoras Legais Populares se multiplicam de forma criativa para o atendimento às vítimas. Os casos só crescem e essas promotoras se disponibilizam a atender pelo telefone atuando junto à delegacia do bairro. Vemos muitas mulheres e crianças expostas. Com a rede de atendimento o que se tenta é lutar pela manutenção da vida de quem está suscetível a agressores. Com a fome, esse atendimento também está comprometido, pois essas mesmas atendentes precisam se dividir entre o que fazem e a busca de alimentos. A crise é enorme. 

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Para completar o quadro, funcionários de posto de saúde estão sendo demitidos e educadores sociais sendo dispensados. Contratos são rompidos pelo poder público e essa gente está exposta ao desemprego. Uma onda de manifestações vem sendo silenciada pelos que reivindicam o mínimo direito a uma vida digna. 

Um pedido contra a fome

Precisamos a todo custo intensificar a arrecadação e a distribuição alimentos, roupas e toda sorte de itens necessários para acolher famintos e desabrigados. Nossa rede de assistência paralela e alternativa está mobilizada para isso, mas temos urgência alimentar, estrutural e de saúde. Estamos frente a um terrível abandono da comunidade. 

Há nuvem de incerteza após os dez meses de distanciamento. Há também uma recessão que coloca a periferia em situação de penúria. Temos um cansaço com essa tamanha diminuição de recursos, por isso vale dizer: nem com toda a criatividade da Restinga estamos dando conta. O pouco que se tem vem aumentando nossa exaustão. Hoje há muito pouco para dividirmos e estamos sendo testados no limite. 

Os sujeitos comuns conseguiram dar um aporte temporário. Mas já não é mais possível. É muito tempo à espera de políticas públicas e não existe como acalmar a fome que nos assola. Precisamos de respostas. Nossos sonhos de futuro estão sendo ceifados. Aqui na Restinga também somos cidadãos.

Existe um projeto para nós? Qual será o plano que nos inclui nessa cidade? Quem nos dará respostas? 

Como disse Joel Rufino dos Santos: não há como excluir já que todos estamos a dividir o mesmo mundo. 

A periferia quer mais coerência da cidade!

Neila Prestes de Araujo é mestre em História pela UFRGS, com a dissertação “Origens do Bairro Restinga, entre versões, a inversão do olhar sobre a memória: uma história autocentrada no discurso do sujeito subalterno sobre o processo de ocupação da comunidade entre 1967 – 1971”.

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