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Acordo com Alvarez & Marsal indica que a prefeitura de Porto Alegre é incapaz de lidar com a atual crise, aponta professor da UFRGS

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Acordo com Alvarez & Marsal indica que a prefeitura de Porto Alegre é incapaz de lidar com a atual crise, aponta professor da UFRGS Prefeituta anunciou acordo "pro bono" por 60 dias | Foto: Giulian Serafim / PMPA

Para André Cunha, consultoria escolhida pela gestão Melo não tem competências para planejar uma cidade com maior resiliência climática. Empresa que atuou em Nova Orleans e Brumadinho é especialista em gerir companhias “que estão com graves problemas e não conseguem se reerguer por conta própria”

Pouco mais de uma semana depois de Porto Alegre registrar a cheia histórica que ainda afeta a vida na cidade, o prefeito Sebastião Melo (MDB) anunciou um acordo com a empresa norte-americana Alvarez & Marsal. No dia 13 de maio, Melo informou que a consultoria ajudaria o município a pensar “sobre tudo”, de hospitais a escolas e vias públicas. 

André Cunha | Acervo pessoal

A Alvarez & Marsal, no entanto, é conhecida por atuar em gestão de riscos, conforme destaca André Moreira Cunha, vice-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. À Matinal, o professor diz observar com preocupação a rapidez com que a empresa “se colocou no centro decisório” da atual crise. 

Com atuação nos episódios do rompimento da barragem em Brumadinho (MG), em 2019, e após a passagem do furacão Katrina em Nova Orleans (EUA), em 2005, a consultoria também foi contratada pela Americanas para coordenar seu plano de recuperação judicial no ano passado. 

Na sequência do anúncio do acordo, Melo foi cobrado por não procurar produtores de conhecimento locais. Eleitas recentemente como as melhores universidades federal e privada do Brasil, UFRGS e PUCRS, até então, haviam sido contatadas apenas para oferecer apoio logístico. Em coletiva na tarde desta terça-feira (21), o prefeito contou ter se encontrado com o reitor da federal, Carlos Bulhões, e afirmou que vai considerar as universidades próximas na fase de reconstrução da cidade.

A seguir, leia a entrevista com o economista André Cunha.

Matinal – O senhor conhece essa consultoria contratada pela prefeitura?

André Cunha – Esta é uma empresa de consultoria que atua em “gestão de riscos”, com um leque muito amplo de inserção setorial e mais de 40 anos de atuação. A essência do seu trabalho é o que se chama de “turnaround management”, vale dizer, de “gestão interina” de empresas que estão com graves problemas e não conseguem se reerguer por conta própria. Isso por si só parece indicar que a prefeitura de Porto Alegre assume ser incapaz de lidar com a crise em curso. Evidentemente, isso é fruto de um longo processo de desconstituição das capacidades estatais do município e de, talvez, menor propensão a trabalhar em parceria com outras instituições públicas, que poderiam apoiar o município. Trata-se, assim, de uma empresa reconhecida em um segmento específico de mercado que tem mais a ver com reorganizar negócios problemáticos para posterior venda. 

Matinal – O fato de ser um trabalho “pro bono” por 60 dias e não ter qualquer estimativa de custo depois disso faz sentido? É praxe? 

Cunha – Vivemos uma situação de calamidade pública, com flexibilização de várias regras de contratação de serviços por parte de entes públicos. Nestes termos, isso poderia, em tese, ser considerado “normal” e ter sustentação legal. Todavia, causa estranheza e, por que não, preocupação, a rapidez com que esta consultoria se colocou no centro decisório. Temos diante de nós um conjunto complexo de decisões que precisam de planejamento de longo prazo. Por exemplo: em que termos vamos fortalecer os sistemas de proteção contra cheias? Vamos ter de realocar comunidades inteiras que vivem em áreas mais sujeitas aos impactos de futuros eventos climáticos extremos? Vamos preservar, sob o controle público, estruturas essenciais para a execução de políticas públicas nesta área, como o Dmae, ou a agenda privatista, que fracassou, será facilitada? Precisamos relocalizar estruturas importantes, como a rodoviária? Teremos de reorganizar o sistema de transporte urbano? E assim por diante. Este é o momento em que as lideranças políticas deveriam ouvir mais a sociedade, em seus mais variados segmentos, bem como a comunidade científica, que efetivamente conseguiu atuar onde a prefeitura falhou. 

Porto Alegre viveu um longo ciclo de alterações nos respectivos planos diretores, com maior permissividade para um padrão de uso do espaço urbano que facilitou a ampliação dos riscos derivados de eventos climáticos extremos. As áreas verdes foram diminuindo, com o avanço da verticalização e o excesso de concentração espacial das edificações. Populações socialmente mais vulneráveis ficaram concentradas em áreas de risco. Tudo isso vai cobrando um preço caro neste momento. Teríamos de estar pensando, planejando e agindo para criar maior resiliência climática na cidade. Não me parece que esta consultoria tenha competências técnicas para fazer isso. Ela começará seu trabalho sem ônus para a cidade, mas findo o prazo da “amostra grátis”, virá o custo efetivo a ser pago. Este, talvez, seja o menor dos problemas, diante do custo real de negligenciar o risco climático ao se manter o modelo atual de urbanização.

Matinal – O trabalho que ela fará não poderia ser feito de outra forma, com expertise local?

Cunha – Ainda não está claro o detalhamento do trabalho a ser realizado por esta consultoria. O conceito de “gestão de riscos” é muito abrangente. A pergunta que deveríamos nos fazer é: o que Porto Alegre precisa é de uma empresa especializada na reestruturação de negócios para a valorização e venda de ativos, ou de um novo Plano Diretor e um planejamento de longo prazo que nos permita ter maior resiliência aos choques climáticos? Não vejo esta consultoria com capacidade e expertise para lidar com os problemas reais que esta crise explicitou. Ao mesmo tempo, a sociedade e as nossas instituições têm competências e conhecimento científico para contribuir mais na transformação de Porto Alegre em uma cidade verde, inteligente e inclusiva. Isso seria bom para as pessoas e para os negócios em diversos setores.

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