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Área central foi decisiva para crescimento da esquerda na Câmara de Porto Alegre

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Área central foi decisiva para crescimento da esquerda na Câmara de Porto Alegre

Nos bairros mais ricos, Novo foi o preferido; partidos que agora compõem a base de Sebastião Melo (MDB) no Legislativo superaram PSOL e PT nos extremos da cidade. Veja os redutos eleitorais dos vereadores que assumem em janeiro

Decisiva para viradas no poder nas últimas seis eleições, a área central de Porto Alegre foi determinante em 2020 para a esquerda ampliar sua representatividade na Câmara de Vereadores em comparação com a legislatura atual. Na geografia do voto para vereador, PSOL e PT dominaram a faixa central do mapa, desde o Praia de Belas até a Lomba do Pinheiro, com exceção de um reduto bem delimitado do partido Novo no entorno do Moinhos de Vento. 

Já o MDB, partido do prefeito eleito, Sebastião Melo, teve uma votação diluída nas diferentes regiões da cidade, enquanto sua base de apoio teve preferência nos extremos. Candidatos do PSDB, sigla do atual prefeito, Nelson Marchezan, foram os mais votados nos bairros Farrapos, Humaitá e Anchieta, na zona norte, e Belém Novo, Boa Vista do Sul, Lami e Extrema, na zona sul.

Na votação para vereador, o PSOL foi o preferido em 32 dos 90 bairros com seções eleitorais, e o PT em 13. O Novo venceu em 14 territórios, a maior parte na região mais rica da área central da cidade e em bairros da zona sul que mantêm os padrões de renda média acima de R$ 3 mil, característica comum aos redutos do Novo na Capital.

Nos extremos, tanto ao norte quanto ao sul de Porto Alegre, o PSDB levou vantagem em 11 bairros. Já o MDB ficou à frente das outras legendas apenas nos bairros Serraria, Guarujá e Sarandi. A votação diluída entre seus representantes e o voto na legenda garantiram ao partido três vagas no Plenário, uma das maiores bancadas, mesmo sem um reduto eleitoral setorizado na cidade.

De forma geral, o resultado das eleições proporcionais chama a atenção pelo esvaziamento do centro político, que perdeu representantes, enquanto partidos mais à esquerda e à direita ganharam espaço, analisa Rafael Lameira, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Em Porto Alegre, as pessoas optaram por votos mais ideológicos e politizados, o que é reflexo da conjuntura mais polarizada que vivemos. Agora, a esquerda tem uma bancada suficiente para barrar alterações nas leis orgânicas do município, que precisam de dois terços dos votos”, afirma.

Oposição venceu em bairros de perfis diversos

No caso do PSOL, que tem a maior bancada de oposição ao governo, com quatro representantes, a votação foi distribuída entre vários candidatos. A campeã e o vice-campeão de votos para vereador são do partido: Karen Santos, com 15.702, e Pedro Ruas, com 14.478 votos. Matheus Gomes, com 9.869 votos, e Roberto Robaina, com 5.105, completam a bancada, que terá o reforço dos vereadores do PT e do PCdoB para fazer frente aos dois terços do Plenário que formam a base de apoio ao novo prefeito.

Os bairros das regiões que concentram os votos desses partidos são bastante diversos tanto demograficamente quanto no aspecto socioeconômico. O PSOL se destacou no Menino Deus, por exemplo, bairro com renda média de R$ 2.690,21, taxa de analfabetismo de 0,71% e 8,6% de representatividade negra na população, de pouco mais de 30 mil habitantes. Já o PT foi melhor na Lomba do Pinheiro, um dos bairros mais populosos de Porto Alegre, com 58 mil pessoas, sendo 32% negras, rendimento médio de R$ 515,67 e taxa de analfabetismo de 4,04%, conforme dados compilados pelo ObservaPOA a partir do Censo de 2010, o mais recente realizado. Em valores corrigidos pelo IPCA, a renda média equivaleria a R$ 4.753,04 no Menino Deus e R$ 911,08 na Lomba do Pinheiro em 2020. 

Com duas mulheres negras e jovens eleitas, Daiana Santos e Bruna Rodrigues, o PCdoB liderou no Morro Santana, principal reduto eleitoral de Daiana, além de Rubem Berta e Santa Rosa de Lima, na divisa com Alvorada. Bruna teve a maior parte de sua votação nominal no bairro Santa Tereza, apesar de a legenda não ter sido a mais votada do local, onde o Republicanos fez mais votos para vereador do que os demais partidos. O bairro é o quarto com maior percentual de negros na Capital (34,42%), atrás de Restinga (38,5%), Mário Quintana (38,62%) e Bom Jesus (40,68%). 

De acordo com Lameira, esses são indicadores representativos do retorno do PCdoB às candidaturas periféricas, que vinham sendo preteridas desde 2012 em prol do diálogo com candidatos da classe média. “Dos anos 1980 até 2012, os redutos do PCdoB eram a zona norte e a zona leste, mas o partido foi se afastando desse perfil, o que não deu muito certo”, analisa.

Ainda segundo o cientista político, esse retorno foi possível porque Bruna e Daiana conseguiram criar uma identificação das comunidades com suas candidaturas. “As pessoas entendiam que a política era para homens, brancos e ricos. Hoje, há uma tomada da política por segmentos que foram marginalizados, como os das lutas identitárias, feministas e do movimento negro. Eles têm aumentado o número de candidatos e isso tem feito as pessoas quererem votar em alguém que é parecido com elas”, completa Lameira.

Direita liderou nas periferias

Apesar do bom desempenho individual de candidatas como as eleitas pelo PCdoB em algumas comunidades, os partidos mais próximos do espectro da direita foram os mais votados na periferia de modo geral. Conforme Lameira, a vitória da esquerda na região central confirma o histórico do PT e, agora, do PSOL, de angariar votos na classe média identificada com bandeiras ligadas aos direitos civis. “Ironicamente, os partidos que são de esquerda e se identificam com os mais pobres não conseguiram conquistar o voto da periferia massivamente”, analisa o cientista político.

Lameira credita a vitória de partidos mais à direita na periferia a dois fatores. O primeiro é a grande influência das igrejas evangélicas nas eleições proporcionais, construindo uma relação que vai além dos partidos políticos. Apesar de a Câmara não ter uma bancada marcadamente religiosa, a influência da religião está presente. “Tem os pastores do Republicanos, tem os pastores locais que ajudam na soma do partido e tem os candidatos indiretos, por exemplo, a Psicóloga Tanise, esposa do ex-vereador Sabino, que agora é deputado estadual e é ligado a igrejas evangélicas”, comenta o especialista.

O segundo fator está ligado ao uso da máquina pública por quem está no poder. Dos 11 bairros nos quais o PSDB venceu, cinco têm renda média inferior a R$ 600. “Obras, inaugurações, o ‘CC’ que mora lá e movimenta votos. Isso faz uma diferença gigantesca”, aponta.

Olhando o desempenho individual, é possível perceber como a votação de candidatos como Gilson Padeiro (PSDB), que teve a maior quantidade de votos nominais entre todos os vereadores em três bairros da zona sul – Boa Vista do Sul, Extrema e Lami – elevaram a predominância do partido de Marchezan no voto para vereador naquela região.

Caso idêntico ao do companheiro de legenda Moisés Barboza, o Maluco do Bem, que foi o preferido no Agronomia, um dos poucos bairros a destoar das cores amarela e vermelha, que representam PSOL e PT, respectivamente, na faixa central do mapa que abre esta reportagem. O PSDB também teve o segundo maior número de votos na legenda para vereador: 7.069, atrás apenas do MDB.

Novo foi preferido em áreas com renda média acima de R$ 3 mil

A base eleitoral do Novo talvez seja a mais marcada por aspectos socioeconômicos na preferência do voto para vereador, estando concentrada nos arredores do Bela Vista, que tem renda média de R$ 4.659,52, e do Moinhos de Vento, onde a renda média é de R$ 3.998,07, ambas entre as mais altas de Porto Alegre. Em valores corrigidos, o rendimento indicado no Censo de 2010 equivaleria hoje a R$ 8.232,40 e R$ 7.063,76, respectivamente. A região também coincide com os bairros com maior predominância de pessoas brancas da Capital. No Moinhos, a população negra é de apenas 2,56%, a segunda área mais branca entre as capitais brasileiras, atrás apenas do centro de Florianópolis, conforme dados do IBGE

“A região da Avenida Goethe é um reduto da juventude de direita desde as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Isso mostra o enraizamento de um processo da política nacional que teve um desdobramento municipal, como vimos no resultado das eleições proporcionais deste ano”, explica Amanda Machado, doutora em Ciência Política pela UFRGS.

Se considerados os resultados nominais, Felipe Camozzato (Novo) foi o vencedor em 11 bairros, tendo a maior vantagem no Bela Vista, com 10,3% dos votos, e liderou em todos os bairros do entorno – Auxiliadora, Boa Vista, Higienópolis, Moinhos de Vento, Montserrat, Petrópolis, Rio Branco, Três Figueiras, Independência, e ainda Pedra Redonda, na Zona Sul. A votação do partido foi bastante concentrada em Camozzato: terceiro mais votado no ranking geral, com 14.279 votos, ele garantiu quase sozinho o quociente mínimo de 17.660 votos no partido e ajudou Mariana Pimentel, com pouco mais de 3 mil votos, a também confirmar uma vaga na Câmara.

Conforme Lameira, os puxadores de votos são uma característica comum em legendas ideológicas, como o Novo e o PSOL. “É uma estratégia que costuma ser usada por esses partidos: apostar em lideranças que inspiram ideias e representam correntes ideológicas que têm condições de concentrar uma grande votação”, explica.


MDB conquistou cadeiras com votos pulverizados

Apesar de ter preferência em 11 territórios, com a boa votação de Camozzato, o Novo tem menos vereadores em sua bancada do que o MDB, que liderou na eleição proporcional em apenas três bairros e não tem parlamentares entre os mais votados, mas garantiu três vagas na Câmara. O partido do prefeito eleito lançou 54 candidatos – uma das maiores nominatas, junto com PDT, PP e PSDB, que também lançaram 54 – enquanto o Novo teve apenas 14 concorrentes. Além disso, o MDB foi o que mais concentrou votos na legenda: 8.338.

“Diferentemente de partidos que atraem o voto ideológico, o MDB é uma das siglas de centro-direita que não contaram com um nome expressivo. Por isso, teve de apostar na tática de colocar o maior número possível de concorrentes. Ao pulverizar as candidaturas, o pingadinho de votos conseguido por cada um permitiu alcançar o quociente eleitoral”, explica Lameira.

Os bairros onde o MDB foi campeão foram: Sarandi, Serraria e Guarujá. Nesses locais, a votação mais expressiva foi a do Professor Vitorino, que concentrou 57% dos votos da Serraria, mas seus 1.907 votos no total não foram suficientes para conseguir uma cadeira no Plenário.

Já Comandante Nádia, do DEM, foi a quarta mais votada nominalmente, com pouco mais de 11 mil votos, mas seu partido não conseguiu ultrapassar a barreira do quociente eleitoral para garantir outra vaga, ficando somente com a vereadora reeleita na nova composição do Legislativo Municipal. O partido apresentou 22 candidaturas, que angariaram 24 mil votos.

Enquanto isso, o PTB, que, a exemplo do MDB, não teve um candidato entre os mais votados mas contou com um grande número de candidaturas, assegurou três assentos no Plenário, compondo uma das maiores bancadas da nova legislatura. O partido se destacou nos bairros Mário Quintana e Costa e Silva, mais ao norte da Capital, e Ponta Grossa e Pitinga, que ficam mais ao sul. Nesses quatro bairros, a legenda obteve mais votos para vereador do que todas as demais.


Metodologia levou em conta votos válidos

Os resultados por bairro nesta eleição ajudam a entender o peso do quociente na composição do Legislativo, especialmente pelo exemplo dos partidos Novo e DEM, que, apesar de terem candidatos entre os preferidos, ficaram com menos vagas do que MDB e PTB, que não tiveram um nome de destaque, mas construíram bancadas maiores. 

Foram considerados no cálculo dos mapas apenas os 635.768 votos válidos para vereador em 2020, mesmo critério usado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para estipular o quociente eleitoral, que é a soma de votos que um partido precisa alcançar no conjunto de seus candidatos para garantir uma ou mais cadeiras no Plenário. Com os 55.135 votos em branco e 33.606 votos nulos, o total absoluto foi de 724.509 votos para vereador.

Em parceria com Afonte Jornalismo de Dados, o Grupo Matinal Jornalismo apresentou dados da Câmara de Vereadores de Porto Alegre durante a cobertura das Eleições 2020. Nesta semana, apresentamos a geografia do voto para vereador na Capital, com apoio do Pindograma, site de jornalismo de dados. 

*Texto e mapas produzidos com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do ObservaPOA.

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