Reportagem

Canoas tem histórico de descaso com o meio ambiente em favor da economia

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Canoas tem histórico de descaso com o meio ambiente em favor da economia Foto: Mapa mostra área verde de quase 100 hectares que dará lugar a loja da Havan e outros empreendimentos Créditos: Rafael Pereira

Cidade da região metropolitana quer entregar última área verde remanescente no centro para a construção civil, que já abocanhou outras localidades antes preservadas

Por Júlia Ozorio, Nicole Goulart, Rafael Pereira, Eduarda Stefenon e Valentina Bressan*
Edição de Naira Hofmeister

LEIA TAMBÉM A PARTE 1 E PARTE 2 DESTA REPORTAGEM

A terraplanagem da última área verde de grandes proporções no centro de Canoas onde se instalará uma loja da Havan não é a única ocasião em que lagostins são ameaçados por empreendimentos na cidade, tampouco tem exclusividade de revelar o descaso do poder público com o meio ambiente . Esses animais não foram incluídos no Plano de Biodiversidade do Município, lançado em 2016 para indicar espécies e características ambientais da região, embora desde 2011, a Secretaria do Meio Ambiente de Canoas já soubesse da existência de lagostins no município.

A administração municipal descobriu que os crustáceos eram parte da fauna local depois que a Associação dos Amigos do Parque Residencial Igara (Assapri) tentou barrar um loteamento em uma área rica em biodiversidade apelidada de “fazendinha” pelos moradores do bairro. Havia mata no local, nascentes com Áreas de Preservação Permanente (APPs) e uma colônia de lagostins de água doce. Apesar da mobilização local, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente resolveu dar continuidade à obra.

A licença prévia da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) para o empreendimento foi concedida a partir do acordo de que a mata nativa seria preservada e de que espécies imunes à corte fossem isoladas. 

Porém, assim como no caso da Havan, as drenagens feitas para a instalação dos empreendimentos prejudicaram os lagostins e outros animais que se beneficiam ou necessitam das áreas úmidas para sobreviver. 

Além disso, foi autorizada a colocação de brita dentro da mata, formando um caminho para que a água escoasse “disciplinadamente”, conforme ironizou o então presidente da associação, Cleomar Guaragni Cezar, no site da Assapri. “Na popular linguagem gaúcha, o que fizeram foi uma barbaridade. Um atentado contra o meio ambiente. Falta de bom senso e desprezo com a vida”, reclamou.

Segundo o especialista em crustáceos e pós-doutorando em Biologia Animal, Felipe Bezerra, o que está acontecendo agora com a instalação da loja Havan em Canoas e que aconteceu em 2011 na Igara são situações comuns em toda a região metropolitana de Porto Alegre. Isso ocorre pois a localidade é rica em ambientes úmidos, como banhados, riachos e arroios, porém, nem sempre as prefeituras e empresários estão dispostos a preservá-los.

Vitória de ambientalistas não é levada a sério

Mesmo em casos em que há decisão favorecendo a preservação do meio ambiente, não há garantia de que o poder público vá cumprir com o prometido. É o que aconteceu com a Fazenda Guajuviras, um espaço de 558 hectares rico em biodiversidade, com um lago de grandes proporções, plantas e animais nativos em Canoas.

Desde 1988, órgãos estaduais pretendiam destruir a área para a construção de um distrito industrial — ação que foi impedida pela mobilização de moradores, entidades sindicais e lideranças ambientais. Em 2001, foi aprovada lei que define a região como Parque Ambiental Fazenda Guajuviras, demandando que a prefeitura realizasse um Plano de Manejo Ambiental para o local, de modo que a área pudesse atender a população e preservar a biodiversidade.

Esse deveria ser o início de um grande projeto que transformasse o local em uma referência em lazer e educação ambiental para os canoenses, destinando parte da região a um parque natural, enquanto o restante seria uma área empresarial. Porém, o plano não saiu do papel. 

O espaço recebeu investimentos pontuais e ainda não pode ser desfrutado pela população, ficando sujeito à degradação. Em contrapartida, na parcela destinada ao desenvolvimento econômico, grandes empreendimentos já foram instalados, como o Parque Canoas de Inovação (PCI), que abriga empresas de automação e tecnologia, e a Penitenciária Estadual de Canoas (Pecan).

Segundo o ex-secretário do Meio Ambiente da cidade, Celso Baronio, o município já não possui áreas de expansão. “Temos que entender que a lógica da Região Metropolitana é desenvolvimentista, as questões ambientais passam sempre do ponto de vista secundário. A correlação desenvolvimentista, não só do ponto de vista empresarial, quanto do ponto de vista político, se sobrepõe às questões ambientais de uma forma muito forte. E aí, fica uma luta, né? Só que é uma luta muito pequena. E a sociedade não tem muita clareza. Então, é difícil a gente conseguir ambientação”, argumenta.

A reportagem solicitou um posicionamento para a Prefeitura de Canoas sobre os casos. Alegando motivos de agenda, o prefeito Jairo Jorge (PSD) não compareceu às entrevistas marcadas. A assessoria de imprensa da prefeitura tampouco respondeu às perguntas enviadas por e-mail.

* Reportagem produzida para a disciplina de Ciberjornalismo III do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ministrada por Marcelo Träsel.

Leia mais

PARTE 1 – Instalação da Havan em Canoas abre caminho para o fim da última grande área verde no centro da cidade


PARTE 2 – História da Havan mostra desrespeito ao meio ambiente e à legislação local

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