Ensaios Fotográficos

Fins e mundos por vir

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Fins e mundos por vir Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia. Foto: Ricardo Romanoff

Em abril de 2011, viajei à Ucrânia com o amigo Nik Neves para conhecer a terra natal do meu avô materno, já falecido, que nasceu em Kiev. Durante os preparativos, o Nik – cujas ilustrações também narraram essa história – sugeriu que visitássemos a Zona de Exclusão de Chernobyl, localizada a pouco mais de 130 km ao norte da capital ucraniana. Um destino insólito que incorporamos em nosso roteiro.

Após alguns dias em Kiev, pegamos um ônibus de turismo que partia da praça Maidan, no centro da cidade, em um grupo de aproximadamente 20 pessoas de diversos países. Logo no começo do trajeto, o guia civil (havia outro, militar) contava sua principal lembrança da tragédia, então prestes a completar 25 anos: o boato de que beber vodca protegeria o organismo da radiação oriunda da explosão de 26 de abril de 1986 – uma sugestão de “tratamento precoce” que hoje, no 16º mês pandemia de Covid-19, já não soa tão anedótica.

Após duas horas de viagem escutando relatos e orientações dos guias, em paralelo à exibição de um documentário sobre o acidente na tv do ônibus, chegamos ao ponto de controle de Dytiatky. Poucos minutos depois, iniciamos o percurso pela Zona de Exclusão, em localidades como Pripyat, maior cidade da região. O tour passava por locais como uma escola infantil, um prédio público, um clube esportivo, um parque de diversões e um espaço do qual podia se ver mais de perto a usina, no qual se recomendava a permanência por apenas 15 minutos devido aos níveis mais elevados de radiação – monitorada constantemente por contadores Geiger.

Segundo os guias e a pesquisa que fizemos à época, a exposição à radiação em uma visita de poucas horas seria segura. Corroborando os relatos de relativa segurança, os guias contavam que, nas imediações da usina, alguns anos após o acidente, uma parcela pequena da população local retornou aos lares que haviam sido deixados para trás na evacuação em massa de 1986. A propósito das questões de segurança da viagem, um perigo mais palpável era justamente o abandono das construções, sem qualquer manutenção desde o desastre. A possibilidade de um piso ceder ou um teto ruir era um dos fatores que exigia um controle mais rígido dos lugares visitados.

Em alguns desses espaços, especialmente na escola infantil, cabia suspeitar de alguma intervenção recente – dos próprios visitantes, talvez – para compor cenários mais dramáticos. Um exemplo dessas possíveis cascatas fotográficas eram bonecas de plástico, algumas bastante asseadas para 25 anos de poeira acumulada, dispostas em salas de aula como se tivessem sido largadas repentinamente pelas crianças que lá brincavam e estudavam até o acidente. As prováveis encenações, justiça seja feita, eram poucas e discretas. O que chamava mais atenção era o abandono geral de ruas e edificações: vegetações sem corte, paredes descascadas e uma infinidade de prédios residenciais com janelas abertas e quebradas. Apesar de tudo isso, o clima era sereno e silencioso, interrompido apenas por sons de pássaros e de obras do governo.

O itinerário pelas proximidades da usina de Chernobyl transcorreu com essa sensação de estar visitando um lugar muito tranquilo e, por conta das restrições de deslocamento, sem grandes surpresas. De fato, uma percepção bastante curiosa, dado o contexto catastrófico. Meu estranhamento maior surgiria após a visita, à medida que o ônibus se aproximava de Kiev e o fluxo de carros e pessoas nas ruas aumentava gradualmente. O contraste em relação às cidades-fantasmas me provocou um embrulho no estômago. Aos poucos, fui elaborando que aquela sensação tinha a ver com a constatação in loco de como nós, humanos, podemos desaparecer coletivamente, enquanto aquilo que chamamos de natureza encontra suas formas de resistir em meio às nossas ruínas.

Mundos, medos e fins

Anos mais tarde, em 2015, li Há mundo por vir? – Ensaio sobre os medos e os fins (Instituto Socioambiental, 2014), da filósofa Déborah Danowski e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que me levou de volta às reflexões da viagem a Chernobyl. Na página 27, os autores comentam: “A ideia de que nossa espécie é de aparição recente no planeta, que a história tal como a conhecemos (agricultura, cidades, escrita) é mais recente ainda, e que o modo de vida industrial, baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, iniciou-se menos de um segundo atrás, na contagem do relógio evolutivo do Homo sapiens, parece apontar para a conclusão de que a humanidade ela própria é uma catástrofe, um evento súbito e devastador na história do planeta, e que desaparecerá muito mais rapidamente que as mudanças que terá suscitado no regime termodinâmico e no equilíbrio biológico da Terra”.

Mais adiante, na página 105, Castro e Danowski observam que “para muitos povos ameríndios, que nunca parecem ter imaginado que o mundo fosse durar para sempre, nem que seu presente etnográfico pudesse de fato tornar-se eterno, menos ainda ir-se transformando em um futuro crescentemente glorioso, a destruição do mundo é cada vez mais vista como algo iminente. Na verdade, ela é algo que já começou”. Na página 138, os autores completam: “para os povos nativos das Américas, o fim do mundo já aconteceu, cinco séculos atrás. O primeiro sinal do fim foi dado no dia 12 de outubro de 1492, para sermos exatos”.

Além de análises sobre o Antropoceno e as noções de quem somos esses “nós” que habitamos o planeta, Danowski e Castro comentam representações de fim do mundo em livros e filmes, com destaque para a comparação entre as narrativas de Melancolia, do dinamarquês Lars Von Trier, e O cavalo de Turim, do húngaro Béla Tarr, ambas lançadas em 2011. Curiosamente, numa leitura atual, chamam atenção as poucas menções a epidemias, como já pontuou a própria Déborah Danowski nesta excelente entrevista à agência Pública.

Cito um tanto extensamente Há mundo por vir? porque o livro me traduziu aquela sensação confusa do retorno de Chernobyl – ambas as experiências, o embrulho no estômago em Kiev e a leitura em Porto Alegre, somando-se às lembranças daquela viagem. Nunca imaginei que entre 2020 e 2021 uma pandemia acrescentaria novas camadas a essas reflexões, com embrulhos mais fortes e frequentes, acompanhados de outras sensações e sentimentos experimentados por todos que temos um mínimo de empatia e senso de coletividade.

Na falta de uma perspectiva mais ensolarada para encerrar essa costura de memórias e imagens, que os embrulhos no estômago nos inquietem com a indagação de quais mundos por vir conseguimos imaginar.

Praça Maidan, em Kiev, Ucrânia


Ponto de controle em Dytiatky, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Usina de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Zona de Exclusão de Chernobyl, Ucrânia


Ricardo Romanoff é editor e repórter da página Roger Lerina no Grupo Matinal Jornalismo. Formado em Jornalismo (PUCRS) com especializações em Fotografia (EFTI, Madri, Espanha) e Estudos em Tradução (PUCRS), também atua como tradutor freelancer.

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