Memória

Primeiro tempo

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Primeiro tempo Foto: RDNE Stock project/Pexels

Finaleira dos anos 80 e eu saído da zona sul da cidade Porto Alegre, passo um período de adaptação residencial no bairro Menino Deus, morando com a minha mãe, meu irmão mais novo até aquele momento, e minha vó. Com seguidas visitas da minha tia, irmã da minha mãe, pra dar uma força nos afazeres domésticos, tendo em vista que minha mãe trabalhava dois turnos na antiga CRT. Ela nos acordava de manhã pra irmos pra escola que ficava a uma quadra de casa, e depois se ia pro batente. Minha vó ficava cuidando da casa. Com sessenta e poucos anos era uma ultra idosa na época. Muito diferente da terceira idade de hoje em dia. Meu pai, quando eu nasci, tinha quarenta e poucos e já era velho. Já tinha cinco filhos nas “paleta”, era funcionário federal e andava sempre de terno e gravata. No verão, uma calça social, sapato e uma camisa bem passada. Geralmente com uma camiseta de física (regata) branca por baixo. Lenço e dinheiro num clips nos bolsos traseiros da calça, um maço de cigarros no bolso da camisa, por vezes uma caixa de fósforos e um pente de osso, uma carteira daquelas largas, porta-cheque, executiva, debaixo do braço e laçada no punho. Mas voltando, meu irmão e eu íamos pra escola na parte da manhã, voltávamos pra casa pra almoçar, fazíamos os temas, e eu me enveredava pelas ruas e praças do Menino Deus. A pé ou de bicicleta. Iniciava a tarde indo na praça Israel – que ainda é do lado do apartamento onde morávamos, e atrás do colégio Presidente Roosevelt, onde estudávamos –, jogava uma bola ali, brincava um pouco com meu irmão, depois o levava pra casa, e desbravava todos os limites do bairro. Era um tempo onde boa parte das crianças e dos jovens eram de rua. Ou seja, brincavam e perambulavam pelas ruas. Era parte do status quo. Tinham os perigos de sempre, mas era assim. Muitos pais trabalhavam o dia inteiro e as crianças iam pra escola e depois pra rua. Ou da rua pra escola. A casa ou apartamento era pra se dormir, almoçar, quando muito um café da tarde, banho e cama. Às vezes nem ia pro café, porque incrivelmente a cidade tinha muitas árvores frutíferas, se pedia um gole d´água nos mercadinhos e bares, e quando a gente dava por conta tava filando um pão com leite na casa de alguém. Tinha o pessoal mais abastado que ia pros clubes ou tinha videogame, brinquedos de última geração, tinha o pessoal classe média e média-baixa que oscilavam entre momentos de vacas gordas e magras, e o pessoal menos abastado das periferias, que invariavelmente iam pros bairros com mais infraestrutura, seja pra acompanhar seus pais que trabalhavam por ali, seja pra estudar em algum colégio público, seja pra ficar perambulando pelas praças, em busca de emoções, passatempos, esportes coletivos, e por aí vai.

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