Nossos Mortos

Caranga Elton

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Caranga Elton Elton Manganelli em cena de "De Tubarões, Bananas e Lacaios - a Novela do Cais"

O ser, o olhar, os gestos, pensamentos e palavras de Elton Manganelli esplendiam em arte, sentimento, inteligência e philia (o amor-amizade dos gregos). Ser amigo de Elton era grande privilégio; que alegria poder encontrá-lo e conversar na feira verde da José Bonifácio, nos cenários de arte de Porto Alegre e nas mobilizações que a gente consciente realiza e participa! Artista, amigo, cidadão, uma personalidade singular, cativante e instigante. Sua arte de bonecos era sem rival, pulsante em fantasia e poesia. Sua partida súbita e precoce declarou forte luto e ora se estende prolongada tristeza na comunidade. 

A exposição de Elton Manganelli na Microgaleria Arte Acessível do StudioClio, em outubro e novembro de 2006, foi como um sonho, e inaugurou nossa amizade; Elton voltou a expor na casa marrom da Cidade Baixa em 2011, no projeto Quadro Branco. Quando a AMACAIS foi realizar o video-escracho De Tubarões, Bananas e Lacaios – a Novela do Cais, com direção de Rafael Brum-Ferretti, denunciando em uma sátira a trama de erros e canalhices no projeto de revitalização do cais Mauá, o convite ao Elton foi o primeiro, e acolhido com imediato calor criativo e energia: vamos lá! 


Os bananas e as máscaras confeccionadas por Elton: João Volino (esq.), Francisco Marshall e Luan Hoffman.

Eu e João Volino Correa pedimos a ele que criasse e confeccionasse as máscaras para caracterizar os 3 grupos de personagens alegóricos: tubarões, os empreendedores inescrupulosos; bananas, os facilitadores igualmente inescrupulosos nos 3 poderes da administração pública; e lacaios, os amiguinhos da imprensa. Além desses, os caranguejos, ou seja, nós, cidadãos e cidadãs mobilizados por esta causa, que orgulhosamente pusemos a correr aqueles falcatruas. Isso foi em março de 2019. Além disso, o artista sem limites Elton Manganelli se dispôs a atuar como personagem, e fez um impagável tubarão. Passamos o dia na Travessa Sepúlveda, sem canseira, pois a alegria e o enlevo criativo eram contagiantes. Que momento!


Elton Manganelli atua como tubarão em figurino confeccionado por ele mesmo.

A vida de um artista é caminho de luz, e sua morte é um símbolo melancólico da condição humana, de nossa finitude e do valor que têm as verdades do coração e da mente inspirada, consagradas em grau máximo na Arte. Seguimos, pois, ainda enlevados e para sempre inspirados pela aura de Elton Manganelli, forever.


A máscaras de Manganelli vestem a caranguejada. Na cena: Simone Rasslan, Madalena Rasslan e Clau Paranhos.

Francisco Marshall, historiador e arqueólogo, professor do IFCH e do IA – UFRGS.

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