Nossos Mortos

Como vou deixar você se eu te amo

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Como vou deixar você se eu te amo Mateus, Luis Vagner e Padeiro: clip Simbora Ya Ya (2019)

Histórias de paixões são sempre enigmáticas pelo teor e conteúdo. Quem está de fora sempre acha que somos “bestas apaixonadas” ou “cegos de paixão”, mas o que muita gente não imagina é que paixão de verdade poucas pessoas, no mundo, já sentiram.

Certa feita uma cartomante me parou na volta da Prefeitura Velha, pegou minha mão, olhou minha linha da vida e disse que na vida teria três paixões e muitos amores. Das paixões, uma seria na adolescência, que foi determinante pra que mudasse meu caminho, outra na vida adulta que mudaria meu jeito de pensar e, por fim, uma que seguiria comigo até o fim da minha jornada.

Vivi duas paixões avassaladoras até aqui, a segunda quase que me impede de viver a terceira (hahahaha), mas mesmo assim fui munido de amor pelos braços que passei. 

Retribuí o amor e o carinho, pois acredito nesse sentimento e, por mais estranho que possa parecer, não procurei pelas paixões como procurei pelo amor.

Foi na mesa de um bar que tomei a decisão de não sofrer mais pela paixão, mesmo sabendo que aquele gesto iria corroer minhas entranhas por muito tempo.

Numa noite qualquer, um amigo entrou na Lancheria do Parque e me viu sentado segurando um copo de cerveja. Sobre a mesa repousava um velho walkman, um isqueiro e um maço de cigarros. As lágrimas que escorriam dos meus olhos não eram pela decisão tomada, mas pela música que embalava aquela linda tarde de segunda feira.

Meu amigo se aproximou e disse: “Tu curte sofrer por amor, hein!”

No meu walkman, numa fita com algumas músicas que me conduziam a um labirinto de possibilidades, Paulo Diniz cantava “Como”, enquanto eu pensava como essa letra poder fazer tanto sentido dentro do meu peito arremetendo minha vida.

“Como vou deixar você se eu te amo?”

Essa frase mexeu comigo de uma maneira que até hoje ainda não sei explicar, talvez ela seja a representação mais possível da paixão que sentia naquele momento.

Nunca tive a resposta, simplesmente aconteceu e um dia estava livre daquele sentimento.

E foi assim que minha vida seguiu procurando amores, esperando encontrar a minha última paixão que a cigana havia visto nas linhas da minha mão.

Há quem diga que minha última paixão é a literatura e se isso for verdade, o que duvido, a paixão é fundamental pra que a chama da vida nunca se apague. Sendo assim, sigo olhando para os lados, torcendo pra esbarrar com ela andando pela rua num dia triste como hoje.

Foi nesse contexto que o Luís Vagner Guitarreiro entrou na minha vida. Foi ele quem escreveu a frase mais emblemática e filosófica que a paixão poderia escutar: “Como vou deixar você se eu te amo?”

Tive o privilégio de escutá-lo, de saber pra quem ele havia escrito a música. Tive a honra de conviver com ele num período tão triste da sua própria vida. Logo o Guitarreiro, que era um sujeito tão generoso com sua arte, tão evoluído espiritualmente.

Ouvi muitos conselhos do homem que criou ritmos, fez composições com todos ao seu redor e criou as raízes do reggae no Brasil. Tive a sorte de presenciar sua magia diante dos seus iguais. Pude sentir o amor que emanava da sua alegria e do seu sorriso que a todos encantava. 

Um mestre na simpatia, reverenciado por uma classe artística inteira, amigo dos amigos. 

Ontem passei horas vendo o único clipe desse artista que, mesmo com cinquenta anos de carreira, foi ignorado muitas vezes pela mídia. Um artista tão grande quanto sua obra, quanto as paixões que sentiu na vida. 

Luis Vagner, sarará como eu, amou e foi amado. Amou sua etnia, amou sua gente. Foi uma das maiores expressões artística da negritude nesse Estado, uma referência e um sopro de lucidez no preconceito das peles mais claras. Seu jeito único de tocar um instrumento lhe rendeu o título de Guitarreiro. 

Representou o Rio Grande do Sul pelo mundo afora, construiu sua obra e deixou um legado que será lembrado por gerações. Mas e o que o Rio Grande do Sul fez por ele? 

Ser negro por aqui é um ato revolucionário. Luís Vagner foi genial dentro e fora da sua musicalidade. Um sujeito capaz de agregar estilos, de se apaixonar pelo mundo sem esperar nada em troca. Um sujeito que nunca esqueceu suas raízes e sempre enalteceu sua origem, mesmo com todo o racismo que existe nessa terra. Entre paixões e preconceitos, entre guerras e paz, pretos e pretas acordaram atônitos e ainda se perguntam:

Como vou deixar você se eu te amo.


Antonio Padeiro – escritor e documentarista.

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