nossos mortos

Festa para o Coojornal

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Festa para o Coojornal Foto: Luiz Eduardo Robinson ACHUTTI

A recente morte de Sérgio Ricardo, aos 88 anos, ensejou a lembrança de um gesto seu há quarenta anos, inesquecível para quem viveu aquele momento. Falo de um show histórico ocorrido em 1981 no Teatro Araújo Vianna em favor da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, que editava o Coojornal, mensário que teve grande destaque na época, lido e apreciado em todo o país por sua coragem de tratar de temas proibidos naquele período, final de ditadura militar. O jornal vinha mal das pernas pela pressão exercida pelo comandante do 3º Exército, Antônio Bandeira, o maior representante da linha-dura do Exército – como chamavam os fascistas fardados de então. Motivo: a publicação de documentos secretos de ações de repressão à guerrilha e da execução do capitão Carlos Lamarca ocorridas dez anos antes.

Parêntese: os documentos confidenciais do Exército continuam até hoje inacessíveis ao público e aos pesquisadores.

Quatro jornalistas foram processados e presos – eu entre eles -, o que afastou anunciantes do jornal e clientes da Cooperativa. O Coojornal entrou em crise, perdeu gente, caiu de qualidade e, consequentemente, os assinantes se afastaram. Pensamos em aproveitar a respeitabilidade que o Coojornal ainda conservava e realizar uma ampla atividade que rendesse algum dinheiro mas, principalmente, atraísse de volta a atenção do público. A campanha chamou-se “Tô com a Macaca” e seu ponto culminante seria um ciclo de debates e o show artístico.

João Bosco e Sérgio Ricardo prontificaram-se a tocar de graça, só pela passagem e o hotel.

Conta o fotógrafo Luiz Eduardo Achutti: 

Recebi a missão de buscar no aeroporto, com a Brasília amarela da minha mãe, nada mais nada menos do que dois grandes, pela ordem de idade Sérgio Ricardo e João Bosco. Antes de mais nada importante dizer que eu já sabia muito bem quem era o comunista Sérgio Ricardo, incluindo o evento de quebrar no palco e fazer o violão voar sobre as bestas feras que o vaiavam. Como se ele já soubesse muito antes o que disse o Cazuza – “as fãs de hoje serão as torturadoras de amanhã”. João Bosco eu já escutava direto no toca-discos usado que eu comprei em 3 vezes na Tape Som com o primeiro dinheiro/mês que recebi na Coojornal. Tenho-o até hoje funcionando e tocando João Bosco, entre outros. Também guardo a nota fiscal e as promissórias da loja. 

Acho que era meio da tarde, levei-os ao hotel no centro da cidade próximo a rua Duque de Caxias e marcamos hora para eu voltar e levá-los ao auditório Araújo Vianna no final da tarde. Conversamos no caminho. O João Bosco sentou na frente da Brasília amarela da minha supermãe. Fim de tarde fui busca-los e o João perguntou sobre um lugar para tomar uma cachacinha. Recém os tinha levado para comprar um conhaque no Skindô, na Duque. 

Achutti encarregou-se do João e eu fui buscar o Sérgio Ricardo no meu Corcel amarelo 72 naquele hotel na descida da Marechal Floriano, onde morou o Mario Quintana depois de ser enxotado do Majestic. Já era fã do cara e me impressionaram sua simplicidade, sua gentileza e seu bom humor. No caminho, aquecimento em outro boteco, uns becks inocentes dentro do carro, ele falando que a Anistia foi uma sacanagem e dizendo: o jornal de vocês não pode fechar, deem um jeito. (No final do ano seguinte, a cooperativa e o Coojornal fecharam, sem choro, nem vela.) Lembro de ter perguntado uma coisa que me intrigava: por que ele havia decidido morar no morro do Vidigal, algo considerado meio barra pesada, na época. Ele: porque gosto de lá, me dou bem com as pessoas da comunidade e a vista é magnífica – algo mais ou menos assim.

Creio que foi o Giba-Giba, que era muito próximo de nós, quem arregimentou as tropas daqui: Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves, Hique Gomez, Zezinho Athanásio (depois, Joe Euthanasia), Vitor Ramil, Galileu Arruda, Talo Pereyra, Cao Trein, mais alguns músicos. O show foi fantástico, terminou passado da meia-noite.

Da esquerda para a direita, nos bastidores do Araújo Vianna: Giba-Giba, Zezinho Athanazio (que depois passou a se apresentar como Joe Eutanázia), um encoberto que não sabemos quem é, a moça também não; bem acima, o jovem Vitor Ramil, mais um que não identificamos, o João Bosco, e os demais igualmente sem identificação. (Foto: Achutti)

Nelson Coelho de Castro, Leo Ferlauto, Cai Trein, Bebeto Alves, Zezinho Athanazio, Galileu Arruda, Aloísio Veras e Paulino Soares. O baterista Juá Ferreira agachado. (Nos bastidores do Araújo Vianna) Foto: Achutti

João Bosco desfilou suas clássicas e o repertório de “Papel Maché”, que iria lançar. Sérgio  Ricardo cantou “Zelão”, “Calabouço”, “Esse Mundo é Meu”, “Te Entrega, Corisco”, “Vou Renovar”. Não recordo se cantou “Beto Bom de Bola”, que foi o estopim do gesto extremado no Festival da Record, quanto, em meio às vaias, declarou “Vocês venceram”, quebrou o violão e jogou na plateia (“Violada no palco” foi manchete do jornal “Notícias Populares”). 

Depois, fomos pra uma churrascada na casa do Osmar Trindade, presidente da cooperativa, na subida da Estrada dos Alpes. Valho-me da memória do Achutti:

Antes caminhamos eu e o João Bosco, para ele conhecer o terreno, a casa, o pátio. Nessa caminhada ele me contou sobre o próximo disco e o show de lançamento. Descreveu como seria o palco, com figuras de papel machê feitos pela Angela, mulher dele, artista plástica. Contou e perguntou o que eu achava da ideia. Lembro mais nitidamente até hoje disso do que muita outra coisa na vida. Lembro que eu fiquei pensando sobre o que eu achava da ideia, ao mesmo tempo pensando que um supercara perguntava para um carinha fotógrafo de Porto Alegre a opinião sobre o próximo show dele. Nem sei o que respondi, sei que naquele momento eu aprendi que o cara para ser super não precisa ser besta, esnobe, “fazido”. Se eu já não sabia completamente, terminei de saber que todas as pessoas são iguais. Também aprendi a fazer a seleção dos meus ídolos, sim, por que não dizer, e até dos que seriam meus amigos dali para frente. Do alto dos meus 61 anos tenho muitos amigos legais, incluindo o João Bosco, mesmo que eu nunca tenha dito isso para ele em palavras.

João era falante, brincalhão, Sérgio Ricardo mais ouvia do que falava, mas esbanjava simpatia. A Lenora Vargas, mulher do Trindade, cantou algumas músicas. São os fiapos de memória que ficaram. Bueno, bebedeira geral, deixei o Sérgio Ricardo no hotel pelas 3 ou 4 da manhã, não sei como – impressionante como a gente cometia loucuras –, e não lembro de tê-lo levado ao aeroporto no dia seguinte. Ficou a imagem de um sujeito calmo, tranquilo, que foi capaz de um gesto de solidariedade a um grupo que procurava sobreviver na tempestade da repressão e do estrangulamento. 

Quem não o conhecia e leu as notícias sobre sua morte (dia 23 de julho) nos jornais e blogs, ficou com a impressão de que Sérgio Ricardo não passou de um maluco que cometeu um ato tresloucado, a tal “violada no palco”, bem de acordo com a espetaculosidade superficial dos dias de hoje. Mas sua contribuição para a cultura brasileira é gigantesca, tanto pela obra musical originada na Bossa Nova, quando pelos filmes que realizou e as trilhas sonoras que compôs para os filmes de Glauber Rocha, sem falar de sua militância em defesa dos direitos humanos. Sua história pode ser encontrada no livro Quem quebrou meu violão (editora Record, 1991), mostrando os mecanismos de cancelamento – para usar uma palavra da moda – contra um grande e singular artista brasileiro.  

Sérgio Ricardo (Foto: Daniel de Andrade)

O NUPECC (Núcleo de Pesquisa em Ciência da Comunicação – PUCRS) disponibiliza o  acervo do Coojornal digitalizado e você pode acessar aqui o material disponível.


Rafael Guimaraens. Jornalista, editor da Libretos, autor de “Tragédia na rua da Praia” (Libretos, 2005). Entre outros livros, escreveu também “Coojornal – Um jornal de jornalistas sob o regime militar” (Libretos, 2011).

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