nossos mortos

Ivan Izquierdo – Cérebro e coração

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Ivan Izquierdo – Cérebro e coração Carlos Alexandre Netto com o Mestre num Parque ao sul de Londres, 1989 (arquivo pessoal)

Há quase 50 anos a promissora carreira de um jovem professor da Universidade de Córdoba foi radicalmente modificada pelo regime de exceção na Argentina. Decidido a mudar de país, Ivan Izquierdo ouviu o coração e sua esposa Ivone, e escolheu o Brasil para desenvolver seu incrível talento.

Depois de breve passagem pelo Sul, Izquierdo estabeleceu-se na Escola Paulista de Medicina, em São Paulo. Mas Porto Alegre novamente o atraiu e, para nossa felicidade, ele veio a se estabelecer no Departamento de Bioquímica da UFRGS em 1977. Revolucionou e mudou radicalmente o departamento, onde criou e dirigiu o Centro de Memória até sua aposentadoria, em 2003. No ano seguinte criou o Centro de Memória da PUCRS, onde permaneceu ativo até 2020.

Pensador seminal, com vislumbres geniais e enorme capacidade de trabalho, foi no Departamento de Bioquímica que Izquierdo passou a ser chamado de Mestre. Designação carinhosa para alguém que forma e inspira, que constrói valores e é respeitado pelo que faz e pelo que pensa. Tornou-se referência e modelo. Mestre Izquierdo formou e lapidou uma centena de cientistas, a maior parte deles hoje estabelecidos em instituições de ensino e pesquisa no país e no exterior. Usar a criatividade para entender a beleza do funcionamento do cérebro e contribuir para a ciência mundial foram as maiores lições do Mestre a seus orientados, sempre aprendizes. Sua obra inclui mais de 700 artigos em periódicos científicos e vários livros, que receberam cerca de 23 mil citações. Ele foi o cientista brasileiro e latino-americano mais citado durante muitos anos, recebeu dezenas de prêmios nacionais e internacionais e integrou Academias de Ciências em vários países.

Em 60 anos de dedicação ao estudo da neurobiologia da memória contribuiu para o entendimento das bases moleculares da formação e da evocação da memória, a complexa função cerebral que confere identidade e capacidade de adaptação aos indivíduos. Seus achados são empregados para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas para deficits cognitivos presentes em doenças do tipo demências, por exemplo.

Ávido leitor e admirador do conterrâneo Jorge Luiz Borges, Izquierdo também escreveu contos, ensaios e livros de divulgação científica. Em muitas conferências usava do personagem borgeano Funes, o Memorioso, para ilustrar sobre a importância da modulação da memória e da arte de esquecer. Arte que, aliás, dá título a um de seus livros. 

Izquierdo com alunas do grupo de pesquisa em evento festivo (1994)

Carismático, brilhante e generoso, Izquierdo também sabia ser divertido. Em 1989 eu fazia Pós-doutorado na Universidade de Londres e decidimos apresentar trabalhos num importante congresso científico em Berlim Oriental. Providenciamos os vistos de entrada (bastante caro para um estudante brasileiro no exterior), e eu estava excitado pela expectativa de encarar o controle da fronteira do capitalismo com o comunismo. Mas duas semanas antes da viagem caiu o Muro de Berlim. O Checkpoint Charlie estava então mantido, bem como algumas porções do Muro, para efeitos turísticos. Atravessamos caminhando a antiga fronteira tantas vezes retratada em filmes e notícias, compramos uns “fragmentos originais” do Muro e à noite no hotel ríamos na tentiva de aprender cirílico folheando a edição diária do Pravda que era distribuída.  

Izquierdo “sobre” o Muro de Berlim recém derrubado (1989)

Mestre Izquierdo nos deixou em 9 de fevereiro. Partiu sereno, cumpriu belíssima missão. Ficam seu enorme legado científico e pessoal para todos os que tiveram o cérebro e o coração tocados por suas palavras e exemplos. E infinitas memórias. 


Carlos Alexandre NettoProfessor do Departamento de Bioquímica e ex-Reitor da UFRGS. Foi orientado pelo Professor Izquierdo na Iniciação Científica, no Mestrado e no Doutorado.

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