Nossos Mortos

Prefiro que você não leia

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Prefiro que você não leia Foto: acervo de Contardo Calligaris

Era minha primeira supervisão com Contardo Calligaris e, embora não fosse exatamente uma principiante, eu estava um pouco nervosa. Para quem não é psi: a supervisão consiste em levar as questões que a escuta de um paciente nos suscita a um colega de mais percurso, que goze de nossa confiança. É parte importante da formação de um psicanalista, entendida essa como algo em constante andamento. Preparei cuidadosamente o caso de que iria tratar, levei tudo anotado. Quando abri minhas anotações para começar a falar, ele me disse: “Eu prefiro que você não leia”. 

A psicanálise pressupõe o inconsciente e a transferência como bases, aquilo que não sabemos nos comanda, é no laço com o analista que vamos desdobrá-lo e, com sorte, criar outras possibilidades, além daquelas que nos fazem sofrer. Mas, apesar de serem esses os fundamentos, se apropriar disso efetivamente, de modo que guie a nossa escuta clínica, na minha experiência, requer um significativo caminho. 

Com aquela indicação de que eu falasse do paciente, das questões que me problematizavam, sem ler o que havia redigido previamente, a princípio, me vi sem chão. E era para isso mesmo: escutar psicanaliticamente requer um deixar-se tomar no que não se sabe e naquele endereçamento estrangeiro que nos desnorteia. Isso também na supervisão. Com a escuta do Contardo, aprendi que, na psicanálise, se trata de algo a ser mantido sem concessões. 

E ele fazia isso de um modo muito seu, sem ares doutorais ou autoritários, que se transmitia nos seminários, nas supervisões, no seu jeito de tratar as questões que se apresentavam. Quando ele escreveu aquela pequena joia clínica, Cartas a um jovem terapeuta, reencontrei ali enunciados os princípios de uma experiência que vivera com ele. Aliás, que nós vivemos, na associação que fundamos com o espírito que ele nos transmitiu: que a psicanálise é uma experiência de palavra, que se faz através dos laços com os outros, em inserção na cidade e articulada com o espírito do seu tempo. 

É uma herança potente, que engata nosso desejo e nossa implicação, que nos desafia a decifrar e enfrentar as novas e muitas formas de sofrimento psíquico, bem como a ler as vicissitudes do laço social e tomar posição. Mesmo que não seja fácil dizer-lhe adeus. 


Lucy Linhares da Fontoura – Psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA)

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