Nossos Mortos

Velho coturno

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Velho coturno Contardo Calligaris com Octavio Souza. Foto: acervo pessoal

Contardo Calligaris me faz lembrar muitas coisas. Coisas que ele fez e coisas que compartilhamos. A trança de lembranças que escolhi trazer para relembrar começa em 2007 com sua coluna “Ajudar é difícil”, escrita um pouquinho antes do dia de seu aniversário.  Nela ele conta seu encontro com um cachorro manco às 2 horas de uma madrugada chuvosa. O cachorro insistia em aventurar-se a atravessar a Avenida Sapopemba, em frente ao terminal rodoviário. Por duas vezes quase morre atropelado, recuando no último minuto assustado pelos faróis. 

No abrigo de seu carro estacionado, Contardo se pergunta: “O que haveria do outro lado da avenida que o levava a tentar aquela travessia suicida?”.  Com presteza frente ao perigo que corria o animal, sai do carro em plena chuva e, ao fim de uma longa série de escaramuças, consegue distrair o cachorro de seu projeto, oferecendo-lhe a carne de dois espetinhos de churrasco que compra apressadamente de um vendedor ali perto. 

Nessa passagem encontramos o Contardo aflito e solidário com o destino dos desamparados que tão bem conhecemos das inúmeras colunas escritas a partir de caronas oferecidas a prostitutas em perigo, de longas conversas com pessoas em situação de mendicância, estigmatizadas por suas preferências eróticas ou em estado terminal.

Mas, na ocasião, foi sobre um outro aspecto que me detive e que trouxe para nossa conversa. Começamos a divagar sobre o que será que havia do outro lado da avenida que atraía o cachorro. Eu tinha acabado de ler um artigo sobre as primeiras travessias marítimas do homo sapiens na direção da Austrália, no qual os autores se interrogam sobre o que teria levado tantos homens a se associarem (pelas deduções dos autores a travessia só poderia ser fruto de um projeto coletivo) para embarcarem em jangadas primitivas e adentrarem o mar sem que pudessem discernir no horizonte nada que se impusesse como alvo da aventura. 

O estudo inclui a reconstituição das mudanças dos relevos geográficos da região ao longo das eras. Impossível, naquela altura, discernir qualquer meta na direção em que se lançaram. Qual desejo primordial leva o homem a buscar o “outro lado” sem poder enxergá-lo, sem qualquer tipo de indício que o possa encorajar? Isso fez nossa conversa derivar para seu espírito nômade e aventureiro, para sua fuga para a Inglaterra quando adolescente, para sua estada nos Estados Unidos ainda muito jovem e já independente, para suas sucessivas mudanças de lar e de país. Associativamente, lembramos de suas elaborações sobre a errância no seu livro sobre as psicoses, tecendo comparações entre a errância e o empuxo alteritário que herdamos dos nossos ancestrais. 

Poucos dias depois, viajei para São Paulo e lhe dei de presente de aniversário meu exemplar do belo livro sobre as origens da língua e da linguagem no qual o artigo sobre as travessias marítimas se encontra incluído. Esse cachorro ficou na minha lembrança por algum tempo e tenho certeza que na dele também. Três meses mais tarde, na coluna “Vida estética”, voltamos a encontrar Contardo ainda pensando nele ao observar, em apoio a considerações sobre o valor dos sentimentos estéticos, que “uma cena qualquer da vida contemplada da mesa de um bar, levanta questões: o que quer aquela mulher? Para onde está indo aquele cara? Qual será o futuro do cachorro que passa por aí?”

Nas nossas conversas posteriores, nosso cachorro manco teve de esperar muitos anos para retornar. Mas, por outro lado, vale dizer que havia sempre um cachorro presente nas nossas conversas. Por telefone, Contardo costumava sempre perguntar nominalmente por cada um da família, e nunca se esquecia de incluir nosso cachorrinho na lista. “E o Póli? Como vai?” 

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O tempo passa. Já durante a quarentena, conversávamos, via remota, Malu e ele, Thereza e eu. Malu falava sobre a teimosia de Contardo em não seguir algumas recomendações médicas. “Parece que ele sabe tudo!” A conversa era engraçada e, ao mesmo tempo, buscávamos convencê-lo a ser mais obediente. Lembrei então, para exemplificar o quanto ele sabia tudo, de um passeio que nós dois fizemos quando da última vez que estiveram em casa no Rio. 

Saíamos os dois do meu prédio para ir a algum lugar que agora não lembro. Na rua tomei uma direção, que Contardo logo corrigiu, me arrastando por um outro caminho. Obediente segui, mas ao cabo de um tempo lhe disse: “Está vendo? Esse caminho é mais longo, mas como você tem mais prática do que eu de caminhar por perto de casa aqui no Rio…” Ele riu na ocasião, rimos muito também no encontro pelo celular. 

Em uma outra conversa, logo depois, aproveitando a deixa do bate-papo anterior, lembrei do artigo sobre as travessias. O que será que traz a certeza de partir rumo ao desconhecido? Ele não se lembrava bem do livro e obviamente não tinha lido o artigo. Pergunta-se pelo livro. Eu lhe digo onde está, pois me lembrava de tê-lo visto em suas estantes. Procura e não acha. Impulsivamente encomenda o livro na Amazon ainda enquanto conversamos. Quer ler o artigo. Conversamos muito sobre homines e hominídeos, sobre a evolução da espécie humana. Era uma conversa muito gostosa por todos os motivos, dentre os quais descobrir, surpreso, que ele não sabia muito mais do que eu sobre o assunto. Rara ocasião, nossas ignorâncias ficavam equiparadas. Consultávamos o Google, os dois na busca de respostas para nossa curiosidade.

Agora a última vez que estivemos juntos pessoalmente. Final de fevereiro deste ano. Contardo já muito enfraquecido. Encontrei-o em casa, cercado pelo seu círculo familiar. Muito magro, a voz debilitada, dificuldade para se locomover. Lá pelas tantas, pergunta pelo livro. O da Amazon não achamos, sumido nas pilhas de livros encomendados. Mais tarde encontrei o exemplar que lhe havia dado mais ou menos no lugar que me lembrava. Lemos juntos minha dedicatória, que fazia menção ao cachorro, do qual eu, tomado pelo momento, não conseguia lembrar.  Ele lembra de pronto e reconta a história. Leio para ele trechos do artigo. Conversamos um pouco. O tempo passa, ele o mais das vezes silencioso, mas tranquilo. Volta em meia falamos sobre coisas que está pensando e que me conta um pouco. Principalmente sobre seu passado junto a seus pais, seu irmão, um tio. “Fico pensando sempre sobre essas histórias… às vezes não fazem sentido, mas queria continuar para ver se levam a algum lugar…” 

Passa o tempo. Pergunto sobre como se sente. Ele diz que se sente confortado, agradavelmente confortado. Se cala. Ouvimos as vozes de seus entes queridos que conversam na sala de jantar. Eu digo que ouvir essas vozes queridas é muito bom. Ele sorri. “Muito! Muito mesmo!” Mais um tempo e acrescenta. “Queria somente um pouco mais de clareza de raciocínio para poder continuar ainda algum tempo.” Minutos depois, Malu vem conversar conosco. Ele começa a cantar uma música. Perguntamos qual era essa música. “Vechio Scarpone.” Procura cantar para nós, traduzindo a letra com vagar, emocionado. Com voz embargada conta que essa música lhe lembra muito sua mãe, que cantava para ele.

Trago aqui uma tradução da letra da canção que Thereza fez com auxílio do tradutor automático:

Velho Coturno

Lá em cima em um sótão empoeirado,
entre mil coisas que não servem mais,
eu vi, melancólico e desapontado,
um querido amigo da juventude.
Algumas folhas de grama com lama seca
que entre as dobras permaneciam…
uma bota militar, velho coturno.
Quanto tempo passou, quantas recordações você me faz reviver.
Quantas canções no seu passo eu cantei que não mais esquecerei.
Sobre as dunas do deserto sem fim 
ao longo das margens acariciadas pelo mar
por dias e noites eu andei com você sem descansar.
Lá em cima entre os picos brancos
das neves eternas imaculadas pelo sol
Colhemos flores alpinas
Para dar a um amor distante
Velho coturno como um tempo longínquo
Com chuva ou sol talvez você pudesse
E se o destino quisesse, 
Caminhar de novo, velho coturno,
E fazer reviver a minha juventude


Octavio Souza, psicanalista, pesquisador da FIOCRUZ, autor de “Fantasia de Brasil” (Escuta, 1994)

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