Pequenas ficções

Afogado

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Afogado

A voz do outro lado da linha provoca-lhe um salto. Depois do telefonema, ela corre, urgentemente. Como se algo ainda pudesse ser feito. Como se o inevitável pudesse ser evitado. Depois da morte, a única pressa é a do enterro. Talvez fosse pra isso que ela corresse, pra enterrar o guri. 

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A voz do outro lado da linha provoca-lhe um salto. Depois do telefonema, ela corre, urgentemente. Como se algo ainda pudesse ser feito. Como se o inevitável pudesse ser evitado. Depois da morte, a única pressa é a do enterro. Talvez fosse pra isso que ela corresse, pra enterrar o guri. 

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Fim de tarde, pôr do sol na prainha do Gasômetro. Muitos ninguéns e alguns alguéns celebram o anoitecer observando o colorido do céu. Alex é um dos ninguéns e lá está, refrescando-se com uma suculenta melancia e jogando conversa fora com outros amigos que, como ele, são ninguéns e têm a rua como lugar de sobrevida. Além de curtir o sol que se põe, ele espera que outro ninguém lhe traga o back baixado, que encomendou um pouco antes. 

Sabe fazer calor em Porto Alegre e, naquele dia, a cidade dava às outras lições de como fritar seus habitantes na atmosfera. Alex, mais adoçado que refrescado pela melancia, decide mergulhar no falso rio. Falso. Traiçoeiro. Dissimulado lago que se faz de rio. Foi a última decisão de Alex. 

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Ela se dirige ao IML, para onde levaram o corpo do menino. Deverá reconhecê-lo. Quando pensa nisso, ela o relembra, detalhadamente. Negro, esguio, cabelo preto, muito crespo, corte que permitia à carapinha vaidosa mostrar-se ao mundo, pele luzidia, olhos grandes, escuros, muito vivos, boca carnuda, sorriso branco de todos os dentes. 

17 anos. 

Como é que a morte não tem pena? 

Por que ela acha que sempre é seu tempo? 

A gente acha que é cedo, mas pra ela, sempre é tempo. 

É sempre em tempo.

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No prédio do Instituto Médico Legal, ela tenta acompanhar os passos rápidos do funcionário que a conduz até o cadáver, por um trajeto onde todos os seus sentidos experimentam a morte. Ao chegarem à sala, há um corpo sobre a mesa, coberto por um lençol muito branco. O homem puxa o lençol e lhe oferece o finado em reconhecimento. Faltava-lhe o viço e o gingado, mas não havia a menor dúvida. 

– É ele. 

O homem anota algo em uma prancheta, de modo burocrático, enquanto ela contempla o defunto e lamenta, sem chorar. 

– A senhora quer vesti-lo? – pergunta o atendente, que parece ter pressa. 

Vestir? Vestir um corpo inanimado, falecido? Vestir um morto que não lhe pertence? Ou deixar que o enterrem nu? 

Uns trocados, a funcionária da limpeza do necrotério se ocupa dessa tarefa e resolve o dilema, tão logo lhe tragam a roupa. 

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– Margarete? Traz uma roupa aí do abrigo, pra vestir o Alex pro velório, por favor. Já avisaram a família? Tá. Tô esperando. Hã? Vem de táxi, então. Pega o recibo.

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Vestiram Alex Ninguém com uma roupa que costumavam reservar para que os guris comparecessem às entrevistas de emprego. Camisa de botões, calça jeans em bom estado e um vistoso tênis pirateado, recolhido nas apreensões da SMIC e enviado para o abrigo com fins filantrópicos. Depois de vestido, a irmã ninguém do falecido apareceu, para autorizar o sepultamento, olhou o corpo e perguntou: 

– Ele vai ser enterrado com esse tênis?

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Hora do enterro, no Campo Santo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Cerimônia rápida, como convém à indigência. Alguns ninguéns que estavam com Alex na prainha do Gasômetro comparecem, para prestar-lhe a última homenagem. Não mais que uma dúzia de pessoas, entre familiares, amigos e as duas funcionárias do abrigo. Ao abrirem o caixão, ela percebe que a cabeça de Alex foi acomodada de lado, para que ele coubesse em um caixão menor que seu corpo. Os ninguéns puxam um Pai Nosso tão forte que parece dito com raiva. 

Pouco antes de fecharem o caixão, um dos ninguéns se aproxima e mexe insistentemente nas mãos postas de Alex. Apreensiva, ela faz menção de dizer ou fazer alguma coisa, mas outro ninguém a detém e explica, cochichando em seu ouvido. O homem entregou o baseado, que Alex comprou antes de morrer. 

Fecham o caixão. O afogado mergulha agora na terra, para nunca mais voltar.


O presente conto é livremente inspirado na perturbadora memória de um acontecimento real.


Dedy Ricardo é mulher, negra, mãe, filha, irmã, esposa, atriz e professora. Iniciou a carreira artística em 1994, por meio do Projeto de Descentralização da Cultura, que levava oficinas de artes para as periferias da cidade de Porto Alegre. Trabalhou como arte-educadora nos abrigos municipais Casa de Acolhimento, Casa de Passagem e Serviço de Acolhimento Noturno, em Porto Alegre. É licenciada em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e Mestra e doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi professora da rede pública municipal de São Leopoldo, onde desenvolveu o projeto Oficina de Teatro e Cultura Negra, no Núcleo de Educação das Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação. Atualmente, trabalha como professora do Departamento de Expressão e Movimento do Colégio de Aplicação da UFRGS, na área de Teatro.  É integrante do Coletivo Atinuké, que estuda o pensamento das mulheres negras. Atua, desde 2000, no grupo Usina do Trabalho do Ator, em Porto Alegre.

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