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Recomendo: Folhas de Outono

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Recomendo: Folhas de Outono Foto: Mubi/Divulgação

As folhas de Outono tornam-se secas e morrem nos pés das árvores. Nessa estação do ano, a natureza indica seu modo de lidar com a vida e a morte, deixando para a próxima estação a incumbência de encontrar alguma saída desse imbricamento. Nesse sentido, esse período do ano poderia ser utilizado como suporte metafórico à solidão humana? Como se no imbricamento, vida e morte, restasse uma “sombra inapreensível”? Uma “sombra” que recobriria um laço social?

No filme Folhas de Outono (2023), do diretor finlandês Aki Kaurismakï, essas questões são apresentadas a partir de uma história simples, que envolvem a solidão dos personagens no laço social e uma tentativa singular amorosa de saída ao imbricamento vida e morte. 

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Embora não seja um tema inovador no cinema, a maneira minimalista e silenciosa dos diálogos com closes fechados em espaços reduzidos é inovadora e instigante. Cabe ao espectador a decisão de entrar nesses espaços, sem a garantia de respostas óbvias. Nas mãos de Kaurismakï, a fineza do humor procura encontrar bordas tanto na “sombra inapreensível” da solidão no laço social, quanto na tentativa singular amorosa.

A história entre Ansa (Alma Poystï) e Holappa (Jussi Vatanen) se passa em meados de 2023. Eles se conhecem ao acaso num bar Karaokê. Ela é recém despedida de um supermercado, e ele tenta conciliar trabalho e alcoolismo. O cotidiano desses trabalhadores implica na luta diária pela sobrevivência: desemprego, contas a pagar, subempregos. Como esperançar sem sucumbir ao “Outono”? De que maneira a tentativa amorosa poderia fazer algum “furo” nessa “estação”?  

Entre acasos e encontros, Ansa e Holappa saem pela primeira vez. De modo contido nas palavras, ele a convida para irem ao cinema; ela devolve com um milimétrico sorriso. Assistem Os mortos não morrem, de Jim Jarmuch. Na tela, o que assistem, como num espelho, é a tentativa de não apenas sobreviver, mas a de viver. Os momentos silenciosos entre eles são preenchidos ao som de músicas de Tchaikovsky, Gardel e canções finlandesas. 

Na saída do cinema, em frente a alguns cartazes de filmes dos anos de 1960, eles conversam brevemente. Aliás, apenas sabemos que o filme se passa nos dias atuais, porque os personagens ouvem pelo rádio – ligados por fios na tomada – as notícias da guerra entre Rússia e Ucrânia. Se não fosse por esse detalhe, a história poderia ser contextualizada nos anos de 1980, por exemplo. 

Desse modo, a “voz” que sai do rádio, anunciando os vestígios de uma guerra, também anuncia o retorno de outros “Outonos” no cotidiano do laço social: a precariedade das condições de vida dos trabalhadores e as tentativas singulares de amar. 

Assim, o filme consegue fornecer alguns contornos narrativos, como se fossem bordas  a conter possíveis transbordamentos de “sombras inapreensíveis”; de maneira precisa,  sem rodeios e, sobretudo, com pinceladas finas de humor. 


Leonardo Beni Tkacz é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA), mestre em psicologia pela USP, autor de artigos psicanalíticos.

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