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Kino Beat: o “Caminho de Transformação” de Denilson Baniwa

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Kino Beat: o “Caminho de Transformação” de Denilson Baniwa Denilson Baniwa. Foto: Adrian Ikematsu

O 7º Festival Kino Beat inaugura neste sábado (27/11) a primeira exposição individual de Denilson Baniwa em Porto Alegre. Natural da aldeia Darí, em Barcelos (AM), e radicado em Niterói (RJ), o artista indígena apresenta trabalhos no muro do Goethe-Institut, nas Salas Negras do MARGS e no Jardim Lutzenberger da Casa de Cultura Mario Quintana, convidando o público ao percurso que intitula a mostra INÍPO: Caminho de Transformação.

Ilustração: Kino Beat

“O trabalho tem esse caráter de falar sobre deslocamentos, é um chamamento para andar comigo. Vamos transitar pela cidade descobrindo coisas que talvez a não vejamos normalmente”, conta Baniwa. O traçado que une os espaços da exposição remete ao mito originário da Canoa-Serpente de Transformação, que segundo a cosmogonia de povos indígenas da Amazônia seria responsável pela criação dos primeiros ancestrais humanos e pelo estabelecimento de povos às margens do Rio Negro.

“Se eu fosse contar a história da cobra-canoa como é contada no Rio Negro, talvez o público não entendesse, porque há muitas particularidades do mundo indígena. Precisaria de um dicionário. Mas quando transformo isso num trabalho, e o público se envolve, faz mais sentido essa tradução”, explica o artista, ressaltando o entendimento de sua atuação como tradutor e da arte como linguagem que aproxima o universo indígena da sociedade não indígena.

No muro do Goethe-Institut, o artista apresenta Muyeréusáwa Rúka, um mural com desenhos que remetem a petróglifos e à mitologia e espaços sagrados dos Baniwa – conjunto de povos da língua aruak que vivem na região das fronteiras entre Brasil, Colômbia e Venezuela. À noite, iluminada por luz negra, a pintura de cores fluorescentes ganha aparência tridimensional.

No Centro Histórico, Denilson Baniwa ocupará as Salas Negras do MARGS com oito gravuras digitais que compõem a série Aquela Gente que se Transforma em Bicho – três delas inéditas, produzidas para a exposição. O título do trabalho alude ao entendimento de povos indígenas da Amazônia sobre a intercambialidade entre sujeitos de diferentes espécies.

Baniwa também exibe os vídeos Ty Ty – Memórias de Beija-Flor e Floresta – Casa Derrubada (A Última Maloca do Fim do Mundo), que refletem sobre memórias da floresta, a presença de indígenas em contextos urbanos e o extermínio das populações originárias. “Muita gente no Brasil desconhece o indígena, ou conhece pouquíssimo, muitas vezes, por um lado do exotismo, que talvez nem exista mais, porque a colonização transformou essas vidas”, observa o artista.

No quinto andar da Casa de Cultura Mario Quintana, Baniwa exibe o lambe-lambe Repovoamento de uma Cidade Floresta, apresentando figuras de animais e de um pajé que se misturam às plantas do Jardim Lutzenberger. A exposição ainda inclui o filtro de Instagram Yawareté, que brinca com a ideia de transformação de humanos em outros animais trazendo a imagem de uma onça, elemento recorrente da poética de Baniwa, como máscara digital – o filtro pode ser acessado nos destaques do perfil de Instagram do festival.

“Esse modo de se transformar e viver com outros mundos, o trânsito entre mundo físico e metafisico, é uma das coisas que eu sei traduzir pouco em toda sua dimensão”, comenta Baniwa, trazendo à tona o jogo entre real e virtual como forma acessível de abordar aspectos do estar no mundo dos povos amazônicos. “Apesar de serem diferentes suportes, gosto de pensar neles como um único método, compondo um mesmo sentido de acrescentar camadas e contar histórias. A ideia é sobrepor camadas na cidade, usando o que funciona melhor em cada lugar”, completa o artista.

Denilson Baniwa. Foto: Adrian Ikematsu

Curador do Kino Beat, Gabriel Cevallos aponta a relação da produção artística de Baniwa com a proposta do evento: “A possibilidade de encontros e alianças entre mundos, a busca por uma comunicação interdependente, as traduções e escutas das vozes de animais, vegetais, minerais e de outros reinos já classificados pela ciência ou fabulados pela arte, são alguns dos pontos que confluem a exposição dentro da programação” – leia a matéria sobre o Congresso Therolinguista: A(na)rqueologias da Terra, que integra o festival.

Obras no MARGS estarão cobertas, em luto, até 3 dezembro

Os trabalhos de Baniwa expostos no MARGS estarão cobertos por panos negros, até 3 de dezembro, em luto pelo artista macuxi Jaider Esbell (1979-2021), encontrado morto em uma pousada no litoral norte de São Paulo no dia 2 de novembro. “Fiquei muito chateado com a insensibilidade de algumas pessoas. Ele tinha falecido numa terça-feira, e na quarta eu já recebia mensagens do tipo: ‘O Jaider faleceu, mas a gente precisa de alguém que esteja no nosso evento. Você pode ocupar esse lugar?”, recorda o artista.

O incômodo da situação levou Baniwa a escrever um texto com reflexões sobre o tratamento dedicado aos artistas indígenas no mundo das artes: “Foi menos uma carta-homenagem e mais um desabafo do tanto que a gente estava se sentindo assediado por algumas pessoas que só veem na gente uma possibilidade de lucro ou de qualquer outra coisa”.

No texto, Baniwa aponta que “Jaider chegou a esse lugar e o que para os brancos é considerado sucesso (ou a melhor fase de sua carreira, como li em matérias de jornais), para nós dois esse fake-sucesso-branco, foi dia a dia tornando-se um peso. Infelizmente ficou pesado demais para ele, mas poderia ter sido para qualquer um de nós artistas indígenas”.

“A cobrança de respostas para salvar a arte, a pressão por não falhar em nossa caminhada ou com nossos parentes indígenas, a ininterrupta fome de quem nos vê como uma novidade devorável no mercado, tudo isso que é considerável sucesso e o auge da carreira é um muro que nos cerca e nos tira do que é mais importante: uma vida saudável”, segue Baniwa.

“Cuidemos da memória de Jaider Esbell. E principalmente, cuidemos para que seja mais leve o caminhar, o nosso e de outras pessoas. Pois entendendo que se o sucesso e topo a que tanto lutamos, tem como resultado a tragédia, sinto que preciso pensar ainda mais sobre que tipo de arte indígena eu tenho que construir. E se a recepção que o mundo da arte ocidental nos deu, levou um de nós ao grave fim, preciso pensar ainda mais em que tipo de relação quero manter com a arte ocidental”, conclui Baniwa – leia a íntegra do texto aqui.

Por telefone, Baniwa conta que segue refletindo sobre a perda do amigo. “Estou nesse processo de entender como reagir à partida do Jaider. Sei que não podemos parar, mas ainda tento entender como dar esses passos com cuidado”, conta o artista.

Nascido em 1984, Baniwa viveu até os 20 anos no noroeste do Amazonas, até se mudar para Manaus. Trabalhou na Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira e estudou Ciência da Computação na Universidade do Estado do Amazonas. Mudou-se para Niterói (RJ) em 2013, ano em que fundou com a jornalista Renata Tupinambá e o comunicador Anápuáka Muniz Tupinambá Hãhãhãe a Rádio Yandê, considerada a primeira rádio indígena do Brasil. Vivendo no Sudeste, formou-se em Publicidade pela PUC-Rio.

Baniwa realizou sua primeira exposição individual em 2011, no Centro Universitário Plínio Leite, em Niterói. Seguiram-se outras mostras, como Djá Guatá Porã, Rio de Janeiro Indígena, no Museu de Arte do Rio, em 2017, e Terra Brasilis: O Agro Não É Pop!, na Galeria de Arte da Universidade Federal Fluminense, em 2018.

No mesmo ano, sem estar entre os artistas convidados da 33ª Bienal de São Paulo, realizou a performance Pajé-Onça Hackeando a 33ª Bienal de Artes de São Paulo, na qual refletia sobre a exibição de imagens e objetos da cultura indígena por artistas não indígenas. No ano seguinte, Baniwa venceu o Prêmio Pipa na categoria Pipa Online.

No dia 30 de novembro, Baniwa participa de uma live do Kino Beat, na qual falará sobre seus trabalhos, as transformações do território brasileiro e a presença indígena nas cidades.

INÍPO: Caminho de Transformação, de Denilson Baniwa

Goethe-Institut Porto Alegre

Diariamente no muro de entrada do instituto
Rua 24 de Outubro, 112 – Independência
27/11/2021 a 28/02/2022

MARGS | Salas Negras 
De terça a domingo, das 10h às 19h (último acesso 18h30)
Praça da Alfândega, s/n – Centro Histórico
27/11/2021 a 9/01/2022 (obras em luto até 3/12, e descobertas a partir de 4/12)

Casa de Cultura Mario Quintana | Jardim Lutzenberger    
De segunda-feira a sábado, das 9h às 18h30
Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico
27/11/2021 a 9/01/2022

Relembre a entrevista com a escritora Julie Dorrico sobre a literatura indígena contemporânea.

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