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Sem data de reabertura, MARGS e Casa de Cultura Mario Quintana avaliam danos e recuperam seus espaços após enchente

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Sem data de reabertura, MARGS e Casa de Cultura Mario Quintana avaliam danos e recuperam seus espaços após enchente Recuperação de obras no MARGS. Foto: Divulgação MARGS

Quem percorre as ruas do Centro Histórico de Porto Alegre na primeira semana de junho ainda encontra sinais da inundação em calçadas, fachadas e canteiros marcados por diferentes tons da água que tomou a região em maio de 2024. Aos poucos, o silêncio dos dias de cheia dá lugar aos sons da movimentação habitual, com o sol ajudando a vislumbrar um pouco mais de vida nas ruas. Ainda assim, algum estranhamento persiste nas trocas de olhares e no vazio de espaços como a Praça da Alfândega, que protagonizou algumas das tantas imagens impactantes após a elevação do Guaíba.

Praça da Alfândega no dia 6 de junho. Foto: Ricardo Romanoff

Dos três prédios históricos que ocupam a praça, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) foi o que sofreu os efeitos mais dramáticos, narrados pelo diretor-curador da instituição. “Vou te contar um pouco de história, tem problema?”, pergunta Francisco Dalcol ao repórter, pedindo licença para relatar experiências ainda em elaboração – algo perceptível em outras entrevistas desta reportagem e nos diálogos com qualquer pessoa do estado nas últimas semanas.

As duas elevações do Guaíba no final de 2023 foram um prenúncio que mobilizou protocolos preventivos, como criar barreiras de contenção, movimentar obras e acompanhar alertas, conta o diretor do MARGS. As mesmas medidas começaram a ser tomadas nos últimos dias de abril. “Do dia 1º para 2 de maio, ficou evidente que estávamos entrando em um patamar maior do que o verificado no ano passado. Começamos a considerar a inundação do museu, sem saber se isso ia acontecer, e o possível rompimento do Muro do Mauá, colocado à prova naquele momento”, recorda Dalcol.

Na manhã de 3 de maio, uma equipe de aproximadamente 20 pessoas – formada por funcionários do museu e da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) e montadores parceiros do MARGS – rompeu a vedação que havia sido feita dias antes na reserva técnica, localizada em um antigo cofre no térreo, para iniciar a remoção de centenas de obras. Integrantes da força-tarefa recebiam as obras nos espaços expositivos, nos andares superiores. “Começamos a remover as pinturas maiores, algumas carregadas por três ou quatro pessoas, subindo pelas escadas do prédio, que é histórico e apresenta dificuldades para a movimentação”.

Ao longo daquela manhã, bueiros da rua Siqueira Campos começaram a transbordar e inundar a avenida Sepúlveda, no entorno do museu, e a luz da região foi desligada. Por segurança, parte da equipe atuando no MARGS foi dispensada. Um grupo reduzido seguiu movimentando obras sob luzes de emergência. À tarde, a água começou a entrar no prédio não só pelas laterais, mas também por frestas no chão e pelos ralos, rompendo vedações. “A água começou a vir com muita força, inclusive dentro da reserva técnica, indicando que foi acertado abri-la, porque ia virar um aquário”.

Na mesma tarde, a Brigada Militar começou a evacuar os curiosos que faziam registros da cheia na Praça da Alfândega e pedir para a equipe do museu abandonar o local. “Saímos com a água pelas canelas, dentro do museu, e entre o joelho e a cintura, do lado de fora. Tenho bem clara essas cenas. Coloquei o cadeado no museu e fui o último a sair”.

Marcas da inundação em fachada do MARGS. Foto: Ricardo Romanoff

Em meio ao manejo de centenas de obras, as mapotecas – móveis metálicos, com gavetas, impossíveis de remoção devido ao tamanho, que abrigavam gravuras, desenhos e fotografias –, foram colocadas sobre mesas da reserva técnica, a cerca de 1,5 metro do chão, com a expectativa de que a água não as alcançasse. No entanto, o nível da inundação no térreo do MARGS chegou a 2 metros.

“Nossa preocupação maior, nos dias seguintes, era que a água chegasse ao primeiro andar, nas pinacotecas, onde estavam as obras salvas. Fui quase diariamente ao museu, de bote, e tínhamos uma equipe pronta para uma segunda movimentação das obras para o segundo andar. Felizmente, isso não aconteceu, mas foram dias de agonia, com o térreo inundado e inacessível.”

Museu virou um grande laboratório

Recuperação de obras no MARGS. Foto: Divulgação MARGS

Na segunda metade do mês, após estudar protocolos de acesso ao espaço alagado e resgate dos materiais, a equipe conseguiu acessar o térreo e coletar centenas de obras das mapotecas. “Nas últimas semanas, o museu está operando como um grande laboratório de secagem e desumidificação dessas obras atingidas pela água ou expostas à umidade. Uma felicidade desse processo foi um procedimento que consistia em envolver as obras em papel de conservação e dentro de pastas e envelopes, o que ajudou a proteger os trabalhos”, diz Dalcol.

As peças atingidas pela água foram colocadas sobre papéis absorventes em diferentes salas do MARGS, e as demais foram separadas para evitar contaminação. Além de funcionários do museu e do governo estadual, participam da operação estudantes do curso de Conservação e Restauro, da Universidade Federal de Pelotas. As etapas posteriores envolvem desinfecção e restaurações.

Além das obras armazenadas nas mapotecas, também foram inundados setores administrativos do MARGS, com danos em mobiliários expositivos, equipamentos, molduras, documentos, catálogos, central de câmeras, sistema de alarme de incêndio, rede elétrica e parte das casas de máquinas de um sistema de climatização inaugurado em 2022, incluindo o equipamento destinado à reserva técnica. Órgãos do estado e da prefeitura estão vistoriando todo o andar térreo. O processo ainda não tem data de conclusão prevista. Enquanto isso, tampouco se sabe quando – e de que forma – o museu voltará a funcionar.

MARGS renova interesse em ocupar prédio vizinho

Prédio da Superintendência do Ministério da Saúde no RS. Foto: Ricardo Romanoff

“Vamos ter que repensar todo o museu internamente e acomodar as atividades do térreo em outros espaços. Já tínhamos duas reservas técnicas nas torres, talvez haja um prejuízo de espaço expositivo”, explica Dalcol. Na terça-feira, o diretor do museu manifestou a uma comitiva do Ministério da Cultura o interesse do MARGS em utilizar um prédio vizinho, na avenida Sepúlveda, número 53, hoje sede da Superintendência do Ministério da Saúde no RS – uma ideia já aventada por gestões anteriores do museu.

“Temos o entendimento de que aquele prédio histórico tem uma vocação cultural”, defende Dalcol, sugerindo a possibilidade de migrar a estrutura administrativa do MARGS para o edifício da Sepúlveda e utilizá-lo também para atividades educativas. “Hoje, não consigo ver nada funcionando no térreo do MARGS, a não ser um memorial para que a gente não esqueça do que aconteceu. Tudo indica que esses eventos vão se repetir”, completa.

Dalcol ressalta que, na enchente de 1941, o atual prédio do MARGS, que ainda não acolhia o museu, foi inundado: “Temos muito pouca informação sobre o que aconteceu lá dentro, inclusive se entrou água ou não no cofre. Não temos uma placa da enchente de 1941 como a do Mercado. Nos cabe transmitir às gerações posteriores o que aconteceu.”

Danos elétricos dificultam retomada de atividades da Casa de Cultura Mario Quintana

Limpeza na Casa de Cultura Mario Quintana. Foto: Ricardo Romanoff

Na Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), a retirada de obras e mobiliários do térreo começou no dia 3 de maio, quando o Guaíba começou a invadir a avenida Mauá. De acordo com a diretora da CCMQ, Germana Konrath, os espaços comerciais que ocupam a casa também foram alertados sobre a possibilidade de inundação – a Livraria Taverna foi um dos estabelecimentos que mais sofreram com a elevação das águas.

Ao longo das semanas seguintes, a equipe do espaço e a Sedac monitoraram a situação do alagamento. Nas últimas semanas, foram realizadas etapas de limpeza e drenagem, bem como orçamentos de danos já identificados e avaliações técnicas da rede elétrica e duas subestações por empresas de engenharia.

“A parte elétrica vai ser provavelmente nosso maior desafio. Todas as empresas informaram que não há condição alguma de religar a luz agora e que será preciso trocar peças importantes. O fornecimento dessas peças no Rio Grande do Sul está difícil por conta de depósitos que foram inundados e falta de estoques, já que o estado inteiro está fazendo pedidos. Não temos previsão de reabertura da casa, principalmente por essa questão de revisão elétrica. Não será antes de um mês e meio ou dois”, relata Konrath.

Enquanto as questões elétricas não são solucionadas, a Casa de Cultura avalia com a Sedac a possibilidade de realizar eventos na Travessa dos Cataventos, entre os dois lados do prédio, que possam reativar o espaço, ainda que as áreas internas estejam fechadas ou com o uso habitual limitado pelo desligamento da energia. “Momentos de crise também geram soluções impensadas. Vamos tentar realizar atividades efêmeras, para manter a casa viva, receber o público, nutrir esse espírito coletivo que temos em volta da casa, voltar a pagar cachês para artistas e técnicos e ajudar os espaços comerciais que ocupam a casa com alguma possibilidade de renda”, projeta a diretora da casa.

Leia também: Sem renda e com perdas materiais, profissionais da cultura apontam falta de perspectiva após enchentes no RS

“A cultura tem um papel de memória ativa, constrói narrativas de presente e futuro. Não foram poucas as manifestações artísticas apontando outras formas de viver e se relacionar, em um sentido colaborativo, de futuro ancestral e com reflexões sobre o Antropoceno. Há muita pesquisa nesse sentido que pode apontar caminhos, por vezes utópicos, mas também pragmáticos e profundos em suas análises e percepções antecipadas”, completa Konrath.

Com três salas de exibição na CCMQ, a Cinemateca Paulo Amorim teve que descartar poltronas e carpetes inundados. Devido aos problemas elétricos da casa, ainda não foi possível testar equipamentos de projeção e som. “O meu sentimento é de tristeza profunda”, desabafa a coordenadora e curadora do espaço, Mônica Kanitz, lembrando que as reformas na Sala Paulo Amorim haviam sido concluídas há pouco mais de um ano. Assim como o restante da Casa de Cultura, não há previsão de reabertura da cinemateca e os prejuízos seguem sendo contabilizados.

A secretária estadual da Cultura, Beatriz Araujo, destaca ações como a flexibilização de prazos e execução de 400 projetos financiados pelo sistema Pró-Cultura, a destinação de mais de R$ 31 milhões a 131 proponentes contemplados pela Lei Paulo Gustavo (LPG) e a construção de linhas de fomento para o setor cultural do RS.

“Em relação ao fomento, vamos promover a aplicação dos rendimentos da LPG e estamos buscando ampliar o alcance de recursos disponíveis no Fundo de Apoio à Cultura (FAC), por meio de parceria ainda em construção. Buscamos, ainda, viabilizar ações e estratégias de forma conjunta com o Ministério da Cultura, articulando e alinhando ações em uma ampla rede de parcerias públicas e privadas.” 

A secretária menciona ainda a atuação emergencial da Sedac em abrigos temporários e outras iniciativas, como a preparação de Zonas de Acolhimento Cultural para a população que necessite espaços para estudo ou trabalho.

Veja a situação em outros espaços

As instituições da Sedac abrigadas no prédio do Memorial do Rio Grande do Sul – além do próprio Memorial, o Arquivo Histórico e o Museu Antropológico do RS ocupam o prédio – não sofreram danos relacionados a acervos e aguardam avaliações e consertos da rede elétrica para retomar atividades, conta a diretora do Memorial, Sylvia Bojunga. Além de aportes do governo estadual, o prédio deve receber R$ 6,6 milhões já previstos pelo novo Plano de Aceleração do Crescimento do governo federal.

Já o Espaço Cultural Correios Porto Alegre, localizado no térreo do prédio ocupado pelo Memorial, informou que o acervo histórico da estatal foi afetado pela enchente e que os Correios estão providenciando a limpeza de objetos e recuperação do acervo. 

Em nota, o Farol Santander explica que somente o subsolo do prédio foi atingido, e que todos os itens em exibição no espaço foram levados a tempo para andares mais altos. A necessidade de reparos na rede elétrica, que foi preventivamente desligada, está sendo avaliada. No momento, o subsolo passa por drenagem e limpeza. As exposições em cartaz foram interrompidas por tempo indeterminado e as ações programadas para junho, adiadas.

A Pinacoteca Aldo Locatelli, localizada no térreo do Paço Municipal, ficou a salvo do avanço das águas. Já o porão, que acolhe obras e exposições, inundou e está em processo de limpeza. Antes do alagamento, uma equipe da prefeitura retirou obras que estavam no local. Permaneceram no espaço somente aquelas que não puderam ser removidas por conta do peso dos materiais: uma maquete em aço corten do Monumento aos Açorianos, de Carlos Tenius, três esculturas em bronze de Xico Stockinger e outras três em cimento de Vasco Prado. Técnico em cultura do município, Luiz Mariano Figueira afirma que será necessário limpar e realizar pequenos reparos nas peças, mas que as obras não sofreram danos graves.

Na rua dos Andradas, o Espaço Força e Luz passou quase todo o mês de maio com um alagamento de aproximadamente 50cm de altura, inundando o primeiro andar, poço do elevador e equipamentos. As chuvas atingiram o sexto andar do prédio, mas o Memorial Erico Verissimo não foi impactado, informa a administração do espaço, que pretende reabrir a instituição ao público no dia 17 de junho. Ao longo de dois meses, até 17 de agosto, o Força e Luz vai oferecer salas e auditórios gratuitamente à comunidade artística, com possibilidade de cobrança de ingressos.

Já o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa teve o andar térreo e o subsolo tomados pelas águas, mas o acervo ficou a salvo, informa a Sedac. Desde 20 de maio, a instituição passou por drenagem, limpeza e avaliações estruturais de impactos, entre outras medidas. O museu ainda terá intervenções na rede elétrica e avaliações de coleções para restabelecer seus serviços. A previsão inicial de reabertura é no mês de julho.

O Museu do Trabalho foi severamente inundado. As coleções dos consórcios de gravuras e fotos, assim como os itens da mostra dos 40 anos da banda Os Replicantes, que estava em cartaz, foram realocados a tempo de serem preservados. Não há previsão de reabertura.

“Ainda não temos a dimensão total dos danos. A Cia Ronald Radde, que atualmente ocupa o Teatro, perdeu cenários, figurinos, parte dos equipamentos de som e luz, carpetes e muitas poltronas. Na Sala de Dança, ocupada pela Cia Terpsí, as lâminas do revestimento do piso se soltaram, sobrando só o contrapiso de concreto. No Acervo de Máquinas, peças de madeira, como as bancadas de ourives e relojoeiro, os teares e a moenda ficaram deformadas. Nas oficinas de gravuras o estrago foi indescritível. Na Galeria, rachaduras na parede colocam em risco a estrutura do galpão”, relatou um post do museu. 

Em relação à Usina do Gasômetro, o secretário municipal de Obras e Infraestrutura, André Flores, informa que já foram observados danos em banheiros, aberturas de portas, quadro elétrico e paredes. Flores acredita que os protocolos de prevenção podem ser aperfeiçoados. Os contratos com as duas empresas que realizam a reforma do centro cultural foram suspensos no começo da enchente, mas ao longo desta semana, com a volta do fornecimento de água e luz ao prédio, foram retomados. A secretaria solicitou às empresas um cronograma para reparos necessários e continuidade das obras.

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