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Deborah Colker dança a cura do corpo e da alma

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Deborah Colker dança a cura do corpo e da alma Deborah Colker. Foto: Leo Aversa/Divulgação

Deborah Colker dedicou seu tempo, nos últimos anos, a buscar uma cura. No caso, uma solução para a doença genética que seu neto tem, a epidermólise bolhosa. Dessa angústia pessoal nasceu o novo trabalho da Cia. Deborah Colker, um espetáculo que vai muito além do aspecto autobiográfico. Cura trata de ciência, fé, da luta para superar e aceitar nossos limites, do enfrentamento da discriminação e do preconceito. A dramaturgia é do rabino Nilton Bonder e a trilha original é de Carlinhos Brown.

O espetáculo estreou em 6 de outubro de 2021, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, e passou por nove cidades, com um total de 48 apresentações, e um público total de 50 mil pessoas. Já a turnê 2022 iniciou com temporada no Teatro Casa Grande, também no Rio, e chega nesta fim de semana a Porto Alegre. Cura terá duas apresentações no Teatro do Sesi: na sexta-feira (18/3), às 21h30min, e no domingo (20/3), às 19h.

A coreógrafa concebeu o projeto em 2017, mas foi no ano seguinte, com a morte de Stephen Hawking, que encontrou o conceito. Embora acometido por uma doença degenerativa, a ELA (esclerose lateral amiotrófica), o cientista britânico viveu até os 76 anos e se tornou um dos nomes mais importantes da história da física. Deborah percebeu que há outras formas de cura além das que a medicina possibilita.

Leo Aversa/Divulgação

A estreia aconteceria em Londres, em 2020, mas a pandemia não permitiu. O adiamento deu ao espetáculo mais um ano de pesquisas, transformações e reflexões.

– A pandemia me fez ter certeza de que não era apenas da doença física que eu queria falar. A cura que eu quero não se dá com vacina – afirma Colker.

Há dores mostradas no palco, mas há esperança no final. Ela diz que procurou preservar a alegria necessária à vida. Um ingrediente para isso foi a semana que passou em Moçambique durante a preparação, quando conheceu pessoas que não perdiam a vontade de viver, apesar das muitas dificuldades.

 – Fui procurar a cura e encontrei a alegria.

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Deborah incorporou ao espetáculo referências das três religiões monoteístas e elementos de culturas africanas, indígenas e orientais. Logo no início, conta-se a história de Obaluaê, orixá das doenças e das curas.

– A ponte entre fé e ciência me ajudou muito. Fui experimentar o invisível, a sabedoria do invisível – diz.

Em uma cerimônia realizada quando da morte do seu pai, Deborah conheceu o rabino Nilton Bonder, autor de “A alma imoral” e muitos outros livros. Ao planejar Cura, decidiu convidá-lo para desenvolver a dramaturgia. Dentre tantas contribuições, ele ressaltou que “pedir é curar”, ideia que gerou uma cena. Também apontou que “a grande cura é a morte”, o que motivou uma coreografia com dois bailarinos dançando ao som de You Want It Darker, de Leonard Cohen.

– O espetáculo apresenta todos os recursos imunitários e humanitários em aliança pela cura. A ciência, a fé, a solidariedade e a ancestralidade são o coquetel de cura do que não tem cura. Concebido antes desta pandemia, o título não é um “conceito”, mas um grito! – afirma Bonder.

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Carlinhos Brown foi convidado, inicialmente, para compor apenas o tema de Obaluê. Acabou criando praticamente toda a trilha, inclusive a canção inicial, dos versos “Traga meu sorriso para dentro” e “Sou mais forte do que a minha dor”.

– A música veio na minha cabeça logo depois da primeira conversa com a Deborah. Eu pensei: “Isso é um chamado, não é uma trilha normal”. É um trabalho muito mais profundo do que “Carlinhos está fazendo uma trilha” – diz o músico.

Brown canta em português, ioruba e até em aramaico. Os 14 bailarinos também cantam, em hebraico e em línguas africanas. É algo que acontece pela primeira vez nos 29 anos de história da companhia.

Na entrevista exclusiva a seguir, a carioca Deborah Colker comenta sobre o conceito, a concepção e as referências da coreografia Cura, explica como foi trabalhar com Carlinhos Brown e Nilton Bonder e revela seu próximo projeto: dirigir na Escócia uma ópera sobre Federico García Lorca.

Leo Aversa/Divulgação

Cura talvez seja o espetáculo mais belo e maduro de sua carreira. A origem desse trabalho, porém, está na confrontação com a dor. Conte um pouco sobre a gênese dessa coreografia, por favor.

A ideia de que uma criança, uma pessoa, a vida não tem cura se tornou algo impossível para mim. Era impossível conviver com isso. Então, eu tinha que encontrar a cura do que não tem cura. Percebi que a cura tinha que existir de qualquer maneira. Se ela não existe no plano físico, existe no plano emocional, no plano intelectual, no plano espiritual. Existem muitas maneiras de curar. Aproximar-se da dor do outro é curar, pedir é curar, amar é curar, visitar é curar. Alegria é cura. Esse espetáculo então afirma a existência da cura. Faz uma ponte entre a fé e a ciência. Eu fui buscar em culturas, religiões, textos, canções e poemas. Esse espetáculo tem protagonistas importantes para mim. Um deles é meu neto, Theo, uma criança, um guerreiro, que conta a história para a sua avó de um orixá da doença e da cura: Obaluaê, esse menino que nasce rejeitado e é adotado, traz ao mundo a doença e a cura. Através da raiva e da vingança, ele traz a doença, e, através da transformação dessas feridas em pipoca, ele traz a saúde e a cura. Tão bonita essa ideia da doença e da cura juntas, no mesmo lugar, lutando.

Stephen Hawking, o cientista. Foi dado a ele um diagnóstico de três, quatro anos de vida. Ele vive mais 50, encontrando a cura do que não tem cura. Ele tem uma vida iluminada, transgressora, de descobertas, de afirmações fundamentais para o nosso mundo. Jesus, que traz a ideia do amor para a nossa civilização. Ele cura através do amor. E Leonard Cohen, o poeta da dor, da vida e da morte. Ele entende que a morte faz parte da vida, que é uma estratégia da vida.

Entre a concepção e a estreia de Cura, surgiu a pandemia e a divisão político-ideológica no país acirrou-se. De que maneira o contexto geral contemporâneo afetou sua criação artística?

Não tem como negar a aproximação com a pandemia, que nos surpreendeu especialmente pelo tempo de sua duração e no estrago que vez nas vidas das pessoas, das perdas, das dores. Meu espetáculo fala sobre se aproximar da dor do outro. Mas o meu Cura é uma busca profunda em vários lugares, um diálogo com algo que se torna impossível. A gente sabe cada vez mais que esse coronavírus tem cura, existe a vacina. A gente sabe que a ignorância, a violência, a crueldade não têm cura. O público que assiste ao espetáculo passou por isso tudo, por essa travessia de dor e incertezas. Eu fico muito feliz em perceber que cada público faz o seu espetáculo Cura, apresentado, cantado e dançado por mim com tanta sinceridade, tão em carne viva, tão à flor da pele. Mas o público faz essa conexão com o que está sendo vivido neste momento.

O que você pensou em destacar mais na performance dos bailarinos em Cura, do ponto de vista de coreografia e presença cênica?

Cada caminho que eu busquei nessa cura do que não tem cura no mundo mítico, da fé, dos orixás, foi uma busca de movimentação visceral, intuitiva, orgânica. Depois, eu tinha que encontrar a dança desse curativo, de curar a pele, o corpo e também a alma. Tem ainda o momento científico: como trazer o DNA, a terapia genética? As projeções de palavras, letras e textos me ajudaram também nisso. A busca do momento da doença foi muito difícil. Como dançar a imobilidade, o descontrole, a perda dos movimentos? Como dançar algo que torna seu corpo e seu movimento totalmente fora da direção? Isso é muito importante no meu espetáculo. Não existe nada tão terrível quanto a ignorância, a discriminação. Todo mundo é único, tem que ter um lugar neste mundo. Todo mundo precisa de um abraço, de aproximação, de compreensão, de respeito.

Foi uma busca muito difícil. Que espaço é o desse corpo machucado? É um espaço horizontal, como o que a gente tem na vida? Por isso eu fui buscar essas rampas, o espaço do desequilíbrio. Tem também a construção desse muro, que traz o direito de pedir. Começa o caminho e a travessia da fé de que existe algo grande, que você nunca vai desistir. Você compreende, aceita, abraça, mas quer continuar a lutar, a gritar. Há o silêncio dos salmos, a transcendência, os milagres. Foram todos mergulhos em buscar uma movimentação que traduzisse essas ideias e construísse um corpo que adoece e cura, grita e silencia, pensa e sente. Fui trazendo essas duplicidades o tempo inteiro.

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Há em Cura uma presença notável de referências a várias religiões, mas em particular a manifestações de culto e de arte ligadas a matrizes afro-brasileiras e do Oriente Médio. Comente sobre esse aspecto do trabalho, por favor.

Quando eu convidei o Nilton Bonder para trabalhar comigo, sabia que, além de ser rabino, ele é um pensador e escritor com uma cultura aberta incrível e um grande contador de histórias. E eu queria histórias de cura, histórias ancestrais, queria falar sobre a humanidade, não tinha uma localização. Queria saber onde está essa busca pela cura e fui cada vez mais verificando que está em todas as culturas, em todas as religiões. A gente canta, dança, pede por cura. Eu fui nos índios, nos africanos, no candomblé, nos budistas, nos sufistas, nos judeus, nos árabes, em Jesus e o mundo católico. O que é mais bonito é ver como elas se encontram, se encostam e multiplicam uma à outra.

Trazer os salmos, o pedido por cura que o rei Davi escreve e pede a Deus, foi tão potente, intenso. Para mim foi muito bonito encontrar os negros e os judeus, um encontro antigo. As matrizes africanas, as histórias, os orixás, os cantos… Foi também trazer as riquezas que coexistem neste nosso país incrível, essas sabedorias e naturezas de pensamento.

Como a dramaturgia de Nilton Bonder influenciou suas decisões coreográficas e cênicas?

O Bonder falava que eu parecia uma guerreira científica. Quando comecei esse trabalho, eu sabia que precisava aceitar, ter paciência. Quantas vezes eu subia no alto do morro, quantos caminhos tortuosos peguei em busca da cura e não encontrei. Eu sempre falava pra ele que não ia desistir nunca. Em um dado momento, falei para o Bonder: “Esse espetáculo não tem que se chamar Cura, tem que se chamar Guerra”. Porque é a guerra contra a doença dentro de cada um, contra as células, os vírus, as mutações. Depois eu fui vendo que não, que eu precisava dos silêncios, de encontrar outros planos, aceitar também. Então, acho que o Bonder foi me ajudando a fazer o que eu precisava, não desistir de nada. Ele trouxe a palavra CRISPR (Conjunto de Repetições Palindrômicas Curtas Regularmente Interespaçadas, em português, e se refere a uma região do genoma das bactérias caracterizada pela presença de sequências de DNA curtas e repetidas) e, em determinado momento, o espetáculo iria terminar com essa palavra projetada. Esse caminho com o Bonder foi muito importante.

Comente a respeito da cenografia e do figurino, por favor, que são determinantes no impacto visual de Cura.

Os espaços criados para o Cura são carregados de significado. Eles são necessários para mim, como a tela de projeção, em que a história começa a ser contada do neto para a avó. Depois vêm os obaluaês, que, na verdade, são entidades que cobrem essas feridas, que dançam a força dos ventos. Iansã, a rainha dos ventos, faz essas tiras de palha deles dançarem e voarem, transformando as feridas deles em pipoca. Essas entidades que se expõem e se escondem, esse orixá que é um guerreiro e menino dourado escondido por essas palhas.

Tem as rampas, que eu utilizo de diversas maneiras: como uma tela de projeção, quando elas estão na vertical; também girando-as, para me ajudar a contar a história científica do DNA e da célula; depois elas se transformam no espaço da imobilidade, do descontrole, do desconforto. Depois tem esse muro que vai sendo construído e conecta a terra e o céu, que pede por ajuda, pela fé, ao mesmo tempo em que depois a gente vai desconstruí-lo, a gente vai brincar com ele quando faz a dança do infinito da alegria. Os espaços são todos interativos, as roupas são todas em carne viva. Já o Obaluaê não: precisávamos esconder esse super-herói para mostrá-lo depois dourado, porque esse menino escondido se expõe ao sol.

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A trilha sonora de Carlinhos Brown também contribui para o resultado artístico de Cura. Como foi a parceria com o músico?

Carlinhos é uma cachoeira criativa, um gênio de sonoridades. Ele traz orquestração, melodia, ritmo. Ele é muito intuitivo, visceral e corajoso. Ele e os bailarinos cantam em hebraico, em português, em dialetos africanos. A gente foi fazendo essa viagem de pessoas únicas, indivíduos, mas ao mesmo tempo de povos, culturas, grupos que se encontram para celebrar, para se aproximar da dor, para pedir. Carlinhos soube buscar essa sonoridade múltipla da cura, da doença e até do silêncio. Quem iria trazer esses ritmos e tambores que vão sacudir a terra pedindo por cura?  

Quais são seus próximos projetos?

Eu estou neste exato momento no aeroporto indo para Glasgow, na Escócia, para dirigir uma ópera em que já estou trabalhando há um ano e meio. É um desafio supernovo, nunca dirigi uma ópera, de um compositor argentino que mora em Boston. A ópera é sobre Federico García Lorca (1898 – 1936, poeta e dramaturgo espanhol), então tem uma levada flamenca que é incrível. Também estou começando o trabalho novo da companhia. Ainda não tem nome, mas estou trabalhando com A Sagração da Primavera, música do Stravinsky (1882 – 1971, compositor russo). O trabalho sucede Cão sem Plumas e Cura e pergunta: que homem é este? Que planeta é este? Que vida é esta? Que criação é esta que a gente faz parte? Enfim, eu sigo nesse assunto.

Leo Aversa/Divulgação
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