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Seminário Cinema Negro na Escola debate educação e audiovisual com olhar antirracista

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Seminário Cinema Negro na Escola debate educação e audiovisual com olhar antirracista Renato Novaes em cena de "O Dia em que Te Conheci". Foto: Ronaldo Dimer

Com foco em professores do ensino básico das redes públicas estadual e municipal, o 4° Seminário de Educação e Cinema: Cinema Negro na Escola será realizado de 4 a 6 de abril na Cinemateca Capitólio. O projeto é promovido pelo Programa de Alfabetização Audiovisual, que completa 16 anos de atividades em 2024.

Os encontros – com inscrições esgotadas – reúnem educadores, pesquisadores e cineastas em três mesas temáticas que debatem o cinema negro brasileiro e práticas antirracistas no ambiente escolar.

“Do ponto de vista da educação, representa um amadurecimento dos currículos, à medida que se amplia o espaço da arte diante de tendências mais tecnicistas. De outro lado – na verdade, numa linha contínua –, os cinemas têm um público incrível que dificilmente vê o cinema brasileiro e o cinema negro brasileiro, embora isso venha mudando nos últimos anos, sobretudo com longas”, reflete Maria Angélica dos Santos, coordenadora do Programa de Alfabetização Audiovisual, fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Porto Alegre – por meio da Cinemateca Capitólio e da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa – e a Faculdade de Educação (Faced) da UFRGS – relembre a matéria sobre a iniciativa.

“Essa produção funciona com uma linguagem sensível, contribuindo para o cumprimento da legislação [lei 10.639/2003] que determina o estudo da cultura afro-brasileira e a construção de uma educação antirracista”, completa a coordenadora do programa. Pela primeira vez, o seminário será realizado de forma presencial, viabilizado pela parceria entre a Faced/UFRGS e a prefeitura e por recursos do Ministério da Educação através de emenda parlamentar da deputada estadual Laura Sito (PT).

O professor de História e Filosofia Marco Prates é um dos educadores que participa do seminário compartilhando suas experiências com o Cinema Negro na Escola.“A educação antirracista contribui não apenas para a conscientização, mas sobretudo para a cultura dessa consciência, com a valorização e o reconhecimento da história e da cultura africana e afro-brasileira. O aluno compreende as formas de violência – preconceito e discriminação – e como isso contribui para desigualdades e injustiças ao longo da história do país. É preciso educar e conscientizar para desnaturalizar as desigualdades e promover a justiça social”, afirma Prates, que leciona na escola municipal Campos do Cristal, localizada no bairro Vila Nova, em Porto Alegre.

Outra participante da mesa “Experiências com o Cinema Negro na Escola” é a historiadora Laura Galli, que destaca o papel da iniciativa na ampliação do repertório dos docentes. “O mérito central do projeto é apresentar aos professores um repertório variado de filmes realizados por pessoas negras ou que representam essas pessoas em diferentes contextos – não só violentos, mas também positivos e afirmativos –, além de proporcionar trocas entre os professores sobre suas práticas pedagógicas”, ressalta Galli, que participou da concepção e produção da primeira edição do projeto, em 2020.

Educação antirracista enfrenta resistência para sair do papel, aponta estudo

A lei 10.639/2003 prevê a inclusão da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino, por meio de conteúdos e abordagens de questões como a história do continente africano e de seus povos e as contribuições culturais, sociais, econômicas e políticas da população negra no Brasil. Em 2023, ano em que a legislação completou duas décadas em vigor, o Geledés – Instituto da Mulher Negra e o Instituto Alana divulgaram um estudo sobre a implementação da lei, a partir das respostas de 1.187 secretarias municipais de Educação do país.

Apenas 5% das secretariais de Educação respondentes afirmam ter implementado uma área técnica dedicada a questões étnico-raciais, e somente 8% informam que há orçamento específico dedicado ao tema. O acompanhamento de indicadores considerando a raça dos estudantes também é baixo em todo o país, sobretudo na região Sul (22%).

Em relação ao ensino de história e cultura africana e afro-brasileira, a inserção é de 58% nas creches, 68% nas pré-escolas e 86% no ensino fundamental, conforme as informações fornecidas pelas secretariais municipais. A pesquisa, contudo, não obteve dados suficientes para analisar o ensino médio, pois apenas 2% das prefeituras forneceram respostas sobre essa etapa do ensino.

Ainda segundo o estudo, a diversidade cultural é citada por 60% dos gestores como aspecto mais importante a ser desenvolvido, enquanto temas relacionados a construções de privilégios históricos e letramento racial são mencionados por 3% das secretarias. As conclusões do Geledés e Instituto Alana apontam um cenário crítico para implementação da lei, que revela “baixa institucionalização e alta resistência dos implementadores das políticas públicas”.

“Os resultados da pesquisa apontam que os temas considerados importantes de serem trabalhados (como conteúdos sobre diversidade, cultura alimentar, vestimentas, entre outros) dizem respeito a discussões relevantes, porém podem ser identificados como mais confortáveis, em detrimento de tópicos como hierarquização de povos e saberes, espaços de poder e tomadas de decisão”, conclui a pesquisa – disponível aqui.

Programação inclui debates e sessões de “O Dia que Te Conheci”

A primeira mesa do seminário (4/4, às 19h) tem o tema “Histórias Negras no Cinema Brasileiro” e recebe o cineasta Jorge Furtado – diretor de filmes como O Dia em que Dorival Encarou a Guarda (1986) e da série Mister Brau (2015-2018) –, o pesquisador Noel dos Santos Carvalho (Unicamp) – autor do livro Cinema Negro Brasileiro (2022) – e o ator e diretor Renato Novaes –que protagoniza o filme que será exibido no encerramento do seminário. A mediação é do crítico de cinema Marcus Mello.

Na sexta-feira (5/4, às 14h), a mesa “Experiências com o Cinema Negro na Escola” – dedicada a relatos sobre edições anteriores do projeto e a implementação de uma educação antirracista no ambiente escolar –, reúne os professores Cláudia Gaya, Laura Galli, Marco Prates e Victor Leite.

Também na sexta-feira, às 19h, o debate “Cinema, Negritude e Escola” tem como convidados o coordenador-geral de formação e inovação audiovisual da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura, Rodrigo Antônio, a coordenadora-geral de educação integral e tempo integral do Ministério da Educação, Raquel Franzin, a professora Daniela Siqueira (UFMS) e a atriz Dedy Ricardo, com mediação da professora Gladis Kaercher (UFRGS).

No sábado (6/4, às 10h), o encerramento terá sessão exclusiva para inscritos do longa-metragem O Dia que Te Conheci (2023), de André Novais Oliveira, seguida de bate-papo com o ator Renato Novaes e o professor do curso de Antropologia da UFRGS Vitor Queiroz, que é vice-coordenador do Programa de Alfabetização Audiovisual.

No mesmo dia, às 19h, a Cinemateca Capitólio exibe novamente O Dia que Te Conheci, dessa vez em sessão aberta ao público, com ingressos a 10 reais. O longa de Oliveira, diretor de Temporada (2018) e Ela Volta na Quinta (2015), recebeu em 2023 o prêmio especial do júri e de melhor atriz (Grace Passô) do Festival do Rio e o prêmio da crítica da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O Dia que Te Conheci é uma produção da mineira Filmes de Plástico, que também assina Marte Um, de Gabriel Martins, vencedor do 50º Festival de Cinema de Gramado nas categorias de melhor longa pelo júri popular, roteiro, trilha musical e prêmio especial.

4° Seminário de Educação e Cinema: Cinema Negro na Escola (inscrições esgotadas)
Quando: 4 a 6 de abril de 2024
Onde: Cinemateca Capitólio (rua Demétrio Ribeiro, 1085 — Centro Histórico – Porto Alegre)

Sessão de “O Dia que Te Conheci”, de André Novais Oliveira
Quando: 6 de abril de 2024
Horário: 19h
Onde: Cinemateca Capitólio (rua Demétrio Ribeiro, 1085 — Centro Histórico – Porto Alegre)
Ingressos: 10 reais

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