Literatura, Reportagens

Natalia Borges Polesso narra colapso do planeta e das relações em “A Extinção das Abelhas”

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Natalia Borges Polesso narra colapso do planeta e das relações em “A Extinção das Abelhas” Natalia Borges Polesso. Foto: Bruno Kriger

Anunciado com pompa em Davos, na Suíça, o colapsômetro monitora índices de diferentes regiões do planeta, fundamentais para conter as transformações do clima, e prevê sanções a países que ultrapassarem certos limites. No Brasil, a crise global se reflete na insegurança alimentar da população e no cotidiano de bairros vigiados por empresas público-privadas. Em meio às ruínas desse contexto, vínculos afetivos entre mulheres compõem o que resta do tecido social narrado em A Extinção das Abelhas, que a escritora Natalia Borges Polesso lança hoje, às 19h, em live da Companhia das Letras.

“Foi o livro em que me demorei mais tempo. Comecei com anotações, perguntas e fragmentos em um caderno lá em 2016. Até chegar à ideia de colapso, que creio ser o cerne da narrativa (e não só o colapso ecológico, mas o das instituições, o das relações, do entendimento de mundo etc.), foram algumas versões abandonadas. Acho que o livro tomou forma ali por 2018”, conta a escritora – leia a entrevista a seguir.

Capa de “A Extinção das Abelhas”

Na primeira parte de A Extinção das Abelhas, por meio de duas linhas temporais, conhecemos a história da protagonista, Regina, e suas relações: a mãe que desapareceu, o pai falecido, o casal de mulheres – Eugênia e Denise – que a adota, a irmã adotiva Aline, a ex-namorada Paula, a gata Paranoia e ainda Dona Eugênia, uma senhora em situação de vulnerabilidade acolhida por Regina. Acompanhamos também as performances eróticas de Regina como camgirl, atuação que ela encontra para enfrentar suas dificuldades financeiras. São capítulos curtos nos quais a última palavra de cada um é também o título do texto seguinte, conferindo ritmo à narrativa, que começa falando de vínculos que se rompem:

As pessoas vão embora, e isso é uma realidade. Sua mãe vai embora, seu pai vai embora, sua namorada chata vai embora, sua melhor amiga-irmã vai embora, as pessoas que cuidaram de você desde pequena e que você reluta em chamar de família de um jeito ou de outro vão embora, seus vizinhos vão embora. Você vai embora. Tudo some. Ora dessas morre.

Ainda na primeira seção, a narradora aborda a extinção das abelhas – um dos fatores monitorados pelo colapsômetro – e as consequências desse processo na produção de alimentos:

Avisaram que isso aconteceria, a gente ficou com medo, por causa da polinização, da vegetação, de toda a cadeia alimentar, mas o governo, a Agrotech, toda aquela cambada disse que estava tudo “sob controle”, que havia “outros meios” e que a função da tecnologia era “superar a natureza” e que já estava em fase de implementação uma nova técnica de polinização. Sim, essas foram as declarações. Vai saber. Se estão fazendo, não tá chegando pra todo mundo. O que chega é podre de veneno. E o que não tem veneno é só podre ou caro. Não tem mais semente também.

Ao contexto em que uma xícara de café, agora artigo de luxo, desperta a nostalgia de tempos menos terríveis, soma-se um cotidiano em que a segurança pública faliu e a população LGBTQIA+ é perseguida de forma escancarada, moldando os contornos de uma distopia não muito distante do tempo atual. “Como a gente lida com as relações em um mundo em colapso? Como tivemos que repensar nossas amizades ou convívio familiar depois das eleições de 2018? Como conviver com quem apoia a morte? Essas são perguntas que me atormentam, porque é um exercício diário de desconfiança”, reflete Polesso.

Na segunda parte de A Extinção das Abelhas, a autora reúne fragmentos em que o colapso do planeta ganha descrições ainda mais concretas e reflexões que se confundem com a voz da narradora.

Quero me juntar àqueles que já se organizaram para resistir ao fim do mundo. Mas eu não os encontro mais. É tarde. Queria me juntar aos que sempre gritaram, mas eu não os encontro mais. É tarde. Talvez estejam em um lugar secreto, longe de tudo o que acontece aqui. Como eu faço para chegar lá? Como eu faço? Para quem eu pergunto? Tu sabe?

A colagem de textos curtos deságua no brevíssimo capítulo “Vão” e na última parte de A Extinção das Abelhas, segundo romance de Natalia Borges Polesso – o primeiro é Controle (2019). Nascida em Bento Gonçalves, a escritora também publicou Recortes para Álbum de Fotografia sem Gente (2013), Coração à Corda (2015), Amora (2015) – vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Conto – e Pé Atrás (2018). Nascida em Bento Gonçalves em 1981 e doutora em teoria da literatura pela PUCRS, Polesso atualmente cursa um pós-doutorado na UCS.

Leia a entrevista.

Natalia, como foi o processo de escrita do livro?

Diferente de todos os outros que já escrevi, mas isso é também porque cada um tem a sua peculiaridade. Este foi o livro em que me demorei mais tempo. Comecei com anotações, perguntas e fragmentos em um caderno lá em 2016. Até chegar à ideia de colapso, que creio ser o cerne da narrativa (e não só o colapso ecológico, mas o das instituições, o das relações, do entendimento de mundo etc.), foram algumas versões abandonadas. Acho que o livro tomou forma ali por 2018. Regina já estava lá, no entanto, e a partir dela foram surgindo outras personagens e suas relações, algumas permaneceram outras não. Eu já sabia que queria escrever sobre um mundo em ruínas, só não tinha decidido como. Depois vieram algumas leituras preliminares feitas por amigos e amigas escritoras e algum material de apoio para pensar nas costuras dos capítulos e mesmo nos narradores e narradoras. Esse foi um livro com muita reescrita e reorganização. Apesar de ser um livro sombrio, eu não queria escrever algo que se movesse apenas nesta direção, queria que houvesse algum tipo de redenção, ainda que mínima, algum encontro, algum alento. Terminei o livro em 2020, antes da pandemia, e durante o processo de edição na Companhia das Letras, decidi inserir menções à pandemia de Covid-19, porque afinal, o livro tem mesmo acontecimentos pelos quais passamos nos últimos anos, e pensei que este que vivemos agora era importante demais para ficar de fora.

Natalia Borges Polesso. Foto: Bruno Kriger

A Extinção das Abelhas explora diferentes dimensões das relações entre mulheres: do vínculo entre mãe e filha às relações amorosas, de amizade e de articulações para sobreviver a distintas camadas de brutalidade. Poderia nos falar um pouco sobre essas abordagens?

Sim, isso mesmo. A Extinção das Abelhas é um livro centrado nestas relações e como vão criando tensões, se desgastando, e também se construindo, de modo saudável ou não. Como a gente lida com as relações em um mundo em colapso? Como tivemos que repensar nossas amizades ou convívio familiar depois das eleições de 2018? Como conviver com quem apoia a morte? Essas são perguntas que me atormentam, porque é um exercício diário de desconfiança. A questão não aparece assim tão diretamente no livro, mas eu acho que esse exercício de desconfiança sim está a todo momento ativo em algum nível nas personagens. Nenhuma relação é estável. A relação de Regina com a mãe é meio platônica, e a de Guadalupe com Regina é inexistente até certo momento. A estrutura familiar é algo que queria explorar, e a família que aparece ali não é a tradicional, mas um pouco é. Temos um casal de lésbicas, que tem uma filha e que, de certo modo “adota Regina”, é a família que ela tem, depois da morte do pai. A relação de Regina com Dona Norma é uma tentativa salvacionista e desastrosa de querer resolver um problema social de modo particular, sem se dar conta do que isso acarreta. E assim, tudo vai ruindo e ao mesmo tempo sendo compreendido enquanto colapsa… mas há alguma esperança de reconstrução de caminhos no fim. As mulheres que se encontram mais para o final se encontram em situações extremas e é isso que lhes garante certa união e movimento, é mais por uma junção de ideias do que de sangue, parentesco ou mesmo de proximidade.

Em dado momento, a protagonista explora a atuação como camgirl. Como foi a pesquisa em torno desse universo?

Eu não queria que Regina fizesse isso em redes sociais, porque ela não gosta de redes sociais, ela diz isso em algum momento. Queria uma coisa meio improvisada, que emulasse um pouco esses cursos e mentorias que se vê por aí, mas de um jeito um pouco tosco. Pesquisei alguns sites, devo ter algo anotado em algum caderno. Lembro de uma matéria que anunciava “5 dicas para ganhar dinheiro com strip virtual” e eu imaginava que a Regina chegaria em algo assim. O e-mail que Regina recebe é quase igual à descrição que havia em um dos sites pesquisados, e o depoimento que ela lê é quase igual a um dos depoimentos que li de pessoas que começaram a trabalhar com isso. Recentemente ouvi o podcast do Chico Felitti sobre pessoas que se exibem na internet e fiquei sabendo do site Only Fans, pena não saber enquanto escrevia.

A primeira parte do livro apresenta uma costura da narrativa por meio de títulos. Poderia nos contar um pouco sobre essa construção?

Eu não queria uma narrativa linear na primeira parte, mas queria que leitores e leitoras embarcassem no pensamento da Regina, a narradora, mas que também tivessem uma sensação de continuidade, de ritmo e acho que a ideia dos títulos como sendo a última palavra do capítulo cumprem a função rítmica. Não é nada novo. Bem-executado, cria uma atmosfera única, mesmo havendo duas linhas temporais não lineares. Porque a história em si, a pessoa vai montando como um quebra cabeça cujas partes se encaixam de um modo não esperado. (Ao menos eu tentei que fosse assim hahahaha se consegui, já não sei.)

Também chamam atenção no formato do livro os textos curtos da segunda parte.

Isso tem a ver com como pensei as narradoras e narradores do livro. Na primeira parte temos Regina e um narrador meio distante em terceira pessoa para a linha temporal de Guadalupe, que o leitor deve notar pelo estranhamento. Na segunda parte, eu queria que o narrador fosse de fato o colapso, por isso o que fiz foi um capítulo de colagens, com algumas intervenções narrativas para dar uma espécie de unidade, de voz, que por vezes até se confunde com a de Regina, que está vivendo o próprio colapso. Depois todas caem por um “Vão” e quem vai narrar a última parte é uma espécie de voz reestruturante, um anticolapso.

O livro apresenta um contexto de catástrofe planetária monitorada por um “colapsômetro”. Gostaria que você comentasse essa abordagem e o seu interesse por temáticas relacionadas às mudanças climáticas e às relações entre humanos e outras espécies.

Esses assuntos se tornaram questões de interesse literário para mim a partir de 2016. Talvez até antes, mas que só em 2016 foi que eu comecei a elaborar para tentar narrativas. Tanto é que textos esparsos que tenho publicado em revistas e tal tocam nesses assuntos. O Brasil tem aprovado veneno, foram em torno de 500 novos registros de pesticidas nos últimos anos, vivemos diariamente com notícias catastróficas sobre insetos, animais, comida, clima, o escandaloso ministério de Ricardo Salles, é demais… e fica cada vez mais óbvio que não é uma perspectiva que avalia dados econômicos grosseiros que vai nos ajudar, fica claro que a geração de emprego e produção para consumo é um sistema que gera cada vez mais miséria. É mentira que gera riqueza. É angustiante. Precisamos aprender modos novos de nos relacionarmos com a terra, com outras espécies e principalmente com nós mesmos no planeta. Não sou eu quem digo isso, os povos indígenas, por exemplo, vêm falando sobre isso de maneira incessante há … bem há mais de 500 anos. E isso é mesmo apenas um exemplo.

Por fim, indo do global para o local, o livro apresenta um país marcado por crises ambientais, inundado em agrotóxicos, com a segurança pública falida e pessoas LGBTQIA+ sendo perseguidas. Nos conta um pouco sobre a construção dessa ambientação.

Não fica muito difícil perceber, não é? É só olhar ao redor. No livro mesmo há a ideia de que aquele colapso ali narrado, vivido pelas personagens, é na verdade constantemente vivido. Uma hora chega a nossa vez. É angustiante essa sensação, mas o Brasil tem me adoecido a esse ponto. Ao ponto de estar sempre atenta (e tentando ser forte, nem sempre é possível), esperando a nossa vez de colapsar por alguma razão. Enquanto isso, é bom pensar estratégias de sobrevivência, é bom ouvir o que diz quem já passou pelo fim do mundo.

A live de lançamento de A Extinção das Abelhas será realizada nesta quinta (15/7), às 19h, reunindo Natalia Borges Polesso, o escritor Léo Tavares e a livreira Nanni Rios.

Outros dois lançamentos recentes da Companhia das Letras abordam fins: em chave poética, no livro Risque Esta Palavra, de Ana Martins Marques, e na prosa distópica de O Deus das Avencas, de Daniel Galera. Clique nos links para ler as entrevistas com os autores.

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