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Carne doce de pequi

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Carne doce de pequi Salma Jô. Foto: Macloys Aquino

Fruto da região do Cerrado, popular no estado de Goiás, um pequi protagoniza a capa de Interior, quarto disco da banda Carne Doce. “É uma referência muito clichê para nós, goianos. Ainda assim, muitos aqui nunca viram o interior do fruto. Essa origem geográfica e a própria fisiologia do pequi cortado ao meio também nos interessava e nos remetia à nossa música: radial, em camadas, com sabor e espinhos, prazer e dor…”, conta a vocalista Salma Jô – confira a entrevista a seguir.

Capa de "Interior". Foto: Rogério Watanabe
Capa de “Interior”. Foto: Rogério Watanabe

O novo álbum do grupo de Goiânia – formado por Aderson Maia (baixo), Fred Valle (bateria e percussões), João Victor (guitarra, sintetizador e programações), Macloys Aquino (guitarra e voz) e Salma – revela uma sonoridade mais contemplativa, especialmente se comparamos o disco ao trabalho anterior da banda, Tônus (2018).

A banda Carne Doce. Foto: Jaime Silveira
A banda Carne Doce. Foto: Jaime Silveira

O clima de Interior ganha evidência desde os primeiros segundos da faixa de abertura, Temporal, com uma introdução que pega o ouvinte pela mão e parece convidar a uma viagem por paisagens crepusculares. Amanhã quando vier o temporal/ Vai nos livrar do mal/ E de toda vida toda, toda, toda, canta Salma, com uma entonação que aos poucos soa como um cântico etéreo: Todo o som e cor e cheiro/ E gosto e todo ser/ Que desaparecer amanhã.

Por coincidência, esse anúncio profético de dissolução veio à tona em janeiro, semanas antes do início da pandemia do coronavírus, com o lançamento do clipe da música, editado a partir de imagens do documentário Paulistas (2017), de Daniel Nolasco. O longa se passa na comunidade que dá nome ao filme, no município goiano de Catalão, e narra as transformações da região, a partir dos anos 1990, com a construção de uma barragem e da expansão da monocultura de soja.

Depois do crepúsculo de Temporal – e do baile noturno de seu clipe –, as músicas de Interior apresentam ambiências mais ensolaradas a partir da faixa-título, a segunda do álbum. Em Hater, terceira canção do álbum, detratores virtuais são abordados de forma ironicamente carinhosa: É meu covarde predileto/ Meu hater de estimação/ Que me adora pelo inverso/ Me odeia com adoração.

Uma novidade de Interior é a estreia do guitarrista Macloys Aquino nos vocais da Carne Doce, na dançante Garoto, quarta faixa do disco. Destaque também para a voz de Salma ao longo das 12 faixas do álbum. “Eu gritava bastante [nos discos anteriores], e meu timbre era mais agudo, ardido e áspero. Hoje estou cantando de forma mais suave e com mais dinâmica”, conta a vocalista.

Salma Jô. Foto: Macloys Aquino
Salma Jô. Foto: Macloys Aquino

Essa suavidade se mostra especialmente em faixas como Saudade, Passarin e A Partida. Sem perder a ternura, Interior também fala de mitos virtuais (Fake), pesadelos e vertigens (Sonho), derrotas e vitórias (De Graça), em um álbum marcado por uma construção imagética sofisticada nos três clipes já lançados ao longo de 2020 – assunto que abre o papo com Salma Jô.

Gostaria de começar pelo lançamento mais recente de Interior, o clipe de Hater, que se apropria de imagens de desenho animado. Como surgiu a ideia do vídeo?

Nalgum momento pensei que a letra combinava com um desenho desses de rivais eternos, tipo Papa-Léguas e Coyote, Tom e Jerry. Mas contratar uma animação está fora das nossas condições agora. Busquei animações que já haviam caído em domínio público e cheguei nesse desenho da Looney Tunes, de 1943, de um gato e um canário que deram origem a Piu-Piu e Frajola. Coincidiu que a história tem ainda vários momentos que se encaixaram muito bem à música. A reedição do Ricardo Alvez – editor do clipe de Temporal  – fez parecer que o desenho foi mesmo criado para a música.

Seguindo o fio condutor audiovisual, nos conta um pouco sobre a estética do clipe de A Caçada.

Também foi resultado de poucos recursos, produzido durante a pandemia. Estou sempre salvando imagens que me interessam. Depois, quando precisamos criar alguma coisa – um ensaio, um vídeo para promover alguma música nas nossas redes –, revejo nessas imagens o que combina e reinterpretamos. Esse uso de espelho em ensaio de retrato tem em abundância por aí, e achei que tinha tudo a ver com o sentido de A Caçada. Fizemos uns vídeos assim, e depois o Gabriel Martins editou, adicionando imagens de livre atribuição.

Voltando no tempo até janeiro, vocês lançaram o clipe de Temporal, feito a partir das imagens do documentário Paulistas. Nos conta um pouco sobre essa música, que abre o disco, e sobre como vocês aproveitaram parte das cenas do filme.

Novamente por uma necessidade de economia surgiu a ideia mais simples. Temporal tem um tema ambiental e nós sabemos que várias obras do cinema goiano retratam esse nosso ambiente, que já é naturalmente um ambiente de transição, de urbanização, de industrialização do campo, de êxodo. É o caso de Paulistas, que retrata justamente isso através do retrato de uma família de Catalão, município de Goiás. Entramos em contato com o diretor, Daniel Nolasco, e ele foi super atencioso, nos deu acesso a todo o material do filme. As imagens da festa nos emocionaram muito, contrastamos essas imagens de abundância, de vida, de cultura, com as imagens de casas abandonadas da região. O Ricardo Alvez também fez a edição deste clipe. 

Poucas semanas após o lançamento do clipe, um “temporal” global acabou, de fato, acontecendo. Como a pandemia impactou os planos de vocês?

A gente planejava lançar o álbum em abril, lançamos em setembro. Estamos bastante preocupados com a falta de shows, que eram a nossa principal fonte de renda e sustento. E sentimos nossa ansiedade explodir. Mas parece que praticamente todo mundo que trabalha no meio está assim, não há muito o que fazer, por enquanto.

Para os gaúchos que nunca comeram um pequi, qual é o sabor desse fruto e qual a ideia por trás da capa do álbum?

É mais como um legume, tem uma polpa gordurosa e um pouco amarga. A gente cozinha, e ele fica com textura que lembra abóbora, macia, firme. A gente pega com a mão mesmo e rói essa polpa. Se morder mais forte, você chega numa camada cheia de espinhos bem finininhos que, se pegam na língua ou nos lábios, pode ser um problema. Tem que tirar com uma pinça ou até mesmo ir a um hospital. O pequi é típico do Cerrado e é uma referência muito clichê para nós, goianos. Ainda assim, muitos aqui nunca viram o interior do fruto. Essa origem geográfica e a própria fisiologia do pequi cortado ao meio também nos interessava e nos remetia à nossa música: radial, em camadas, com sabor e espinhos, prazer e dor…

Em entrevistas recentes vocês comentaram que percebem uma sonoridade mais solar em Interior. Era algo que vocês já buscavam antes de gravar ou foi mais o resultado do processo?

Não planejamos, foi realmente um resultado espontâneo. E acho que isso teve a ver com uma certa serenidade nossa, um domínio de saber fazer o que fazemos, e também com a presença do Fred Valle, que trouxe mais ritmos e mais dinâmica para banda.

A faixa Garoto traz a estreia do Macloys nos vocais da banda. Nos conta um pouco sobre essa novidade do disco.

O Mac já havia sido vocalista na banda dele anterior ao Carne Doce, a Meursault e a Máquina de Escrever, mas nunca ficou confortável na posição de cantor. Quando fiz Garoto, achei que ela precisava do dueto. Chegamos a cogitar chamar um cantor de Goiânia, mas resolvemos aproveitar esse encontro óbvio (porque somos casados), mas que ainda não havia acontecido no Carne Doce.

Falando nas vozes de Interior, você já comentou que nota diferenças nos seus timbres, comparados aos de álbuns anteriores. Como você percebe essa mudança?

Eu aprendi aos poucos a cantar. Aprendi no palco, no show, e no início eu sentia uma necessidade de ser explosiva. Isso tinha a ver com o meu amadorismo, mas também com o meu humor e minha energia, e estava de acordo com os lugares onde a gente mais tocava: inferninhos barulhentos. Eu gritava bastante, e meu timbre era mais agudo, ardido e áspero. Hoje estou cantando de forma mais suave e com mais dinâmica. Pelo envelhecimento natural, mas também pela experiência de cantar, o meu timbre também está mais grave e mais aveludado.

Por fim, faixas como Fake e De Graça, com versos como “Um mito heroico virtual” e “Queridos amigos, fudeu”, permitem uma leitura vinculada ao atual momento político e ambiental do país – com o incêndio na Chapada dos Veadeiros como um entre tantos exemplos. Como você está vendo esse contexto? Você acredita que Interior, ainda de que de forma indireta, responde em alguma medida a essa história recente? 

Não vincularia o incêndio na Chapada ao atual governo, o problema pode ter se agravado no governo Bolsonaro, mas crimes ambientais como esses acontecem todos os anos. São resultado de um modelo de exploração e de política que domina Goiás e boa parte do interior do Brasil desde sempre. Essa sempre foi a nossa realidade e nossa cultura, e nosso aculturamento está totalmente ligado a isso. O filme que usamos para o clipe de Temporal, por exemplo, é um retrato disso.

Não acho que o Interior responda a nada, e não tivemos essa pretensão. Eu sempre fiz mais retratos do que crítica social, mas esse ainda parece ser um momento muito complicado para dar respostas. É um momento de descrença generalizada nas instituições, no jornalismo, na política, na ciência, nas formas tradicionais de estabelecer a verdade.

Fake é a cara do nosso presidente, sim. Uma figura que parece ser justo o sintoma dessa descrença, que vence justamente por não demonstrar a competência, a autoridade, a inteligência que o cargo pede, que prova sua autenticidade e verdade (que demonstra que não é um “político”) na forma desavergonhada em que se assume ignorante, corrupto ou cínico. Essa aparente contradição está na letra.

Mas é uma contradição que tem a ver também com a arquitetura das redes sociais, o que tem sido apontado há um bom tempo também, no sentido de que o ambiente das redes é horizontal, acessível e hiperinformativo, e por essas mesmas características é também uma ótima ferramenta para dividir, fragmentar, gerar um ambiente muito próprio ao ódio e à mentira. Nesse cenário, muitas “respostas” são ou parecem ser mais uma performance, um aceno de afinidade e de fidelização com o próprio grupo, do que resultado de alguma reflexão genuína… e isso gera mais descrença. Tentei retratar um pouco disso tudo.

Escute Interior:

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