Juremir Machado da Silva

Os melhores vão na frente

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Os melhores vão na frente Um momento de inesquecível alegria: David Coimbra em meus 50 anos | Foto: arquivo pessoal

Contei aqui, quando David Coimbra fez 60 anos, da nossa longa amizade e da minha admiração por ele. David partiu. Foi um dos jornalistas mais talentosos que conheci. Era criatividade pura. Em agosto de 1980, quando nos conhecemos, na Famecos, a Faculdade de Comunicação da PUCRS, ele riu da minha cabeça raspada por amigos como forma de comemorar minha aprovação no vestibular. Não contei o que ele me disse com o sorriso suave que seria a sua marca ao longo da vida:

– O que vão fazer contigo quando o sucesso te alcançar?

Eu não tinha a menor ideia do que poderia ser o sucesso e nem sabia a razão de alguém falar assim num primeiro encontro. Hoje, tenho: sucesso foi o que ele, David, alcançou como jornalista e ele usava essa palavra como se tivesse um encontro marcado com ela. Em nossa última conversa por telefone, ele destacou os nossos pontos em comum: quatro demissões, as dele no começo da carreira, as minhas muito bem distribuídas, duas no começo e duas recentemente. Falamos também de remédios. Ele andava tomando Pregabalina; eu, por causa de uma neuropatia, sequela possivelmente da covid-19, Gabapentina.

– Aos 60, compartilhamos analgésicos – ele definiu.


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Rimos das nossas conversas de sexagenários. Meu caso era nada perto do caso dele. Vez ou outra, ele mandava mensagens no WhatsApp com questões melancólicas. Numa delas dizia ter passado, depois de oito meses, um dia sem sentir qualquer dor. Em seguida, mostrava otimismo, dizia estar avançando. Eu ficava feliz e esperançoso por ele. Sentia que vencia sua grande luta, que chamava de “buraco”.

Nunca esqueci quando ele me levou a um hospital em Tramandaí. Éramos tão jovens. Eu não conseguia ficar em pé. Ele me amparou. Era a primeira crise de cálculo renal que tive na vida. Há muito, felizmente, que não me acontece. Sempre penso nisso com aquela sensação de que a vida pode ser muito irônica. A mensagem mais triste que David me enviou durante esse tempo de sofrimento pelo qual passou era uma terrível consulta: o que eu achava do suicídio? Fiquei devastado. Não sabia o que responder. Entendia a imensidão da sua dor. Disse-lhe que devia agarrar-se à vida pelo seu filho, pela sua família e por mais um texto que fosse, um dos seus maravilhosos textos.

Compartilhei oralmente a pergunta com um único amigo nosso, um veterano da Famecos, do bar do Maza e do T1 como nós, e passei dias me perguntando se poderia ter dado uma resposta melhor. David queria viver, amava a vida, mas se desesperava com o sofrimento. Nunca conheci um cara tão bom para contar histórias como ele. No T1, entre a PUCRS e a Assis Brasil – ele morava no IAPI, eu no Sarandi –, ele fazia uma história de futebol e de mulher, pois para ele eram coisas inseparáveis, durar o exato tempo do trajeto. O ápice acontecia na hora de descer. Até o fim ele me brindava com grande carinho: “Oi, irmão. Tudo de bom para ti em 2022”. Quando fui demitido do Correio do Povo, em janeiro deste ano, ele foi um dos primeiros a me consolar: “Já passei por estas. Se eu puder ajudar em algo, me diz, por favor”.

David Coimbra manteve o frescor dos seus textos de juventude. Tudo nos seus escritos era elegante e com humor. Não temia polêmicas. Era firme em seus posicionamentos, mas sem ódio nem amargura. Havia nele sempre algo do estudante provocativo dos tempos de faculdade. O gosto pelos bastidores da história foi uma das suas marcas mais fortes. Uma vez, no Maza, o bar da Bento Gonçalves frequentado pelos estudantes da PUCRS, onde fazíamos revoluções e suspirávamos por nossas belas colegas, ele me fez uma pergunta desconcertante:

– O que tu acha da Cleópatra?

Eu não achava coisa alguma. Ele sorriu e largou:

– Que mulher. Ah, aquele narizinho dela.

– Te agrada?

– Cachorra!

O termo ainda não era usado como seria depois. O politicamente correto não mandava no mundo. David foi o melhor cronista no seu registro desde Nelson Rodrigues. Uma vez, tomamos um porre num boteco da Assis Brasil, perto do viaduto do Obirici. Eu estava começando a beber e fiquei morto. Então, de repente, sem razão alguma, pura conversa de bêbado, começamos a falar sobre como seria o dia de nossas mortes. Tínhamos 18 anos e muita sede vida. Não pensamos em dia de chuva.

Sempre me pergunto: como conseguimos manter uma amizade tão forte apesar de nos vermos tão pouco. Culpa minha. Eu me escondo.

Meu amigo David deu muito à RBS, que soube retribuir. Bravo!

Quando ele publicou o seu primeiro livro, “Dexheimer, 800 noites de junho”, pediu que eu fizesse a orelha. Leio agora e me emociono.

Temos raras fotos juntos. Na que aparece neste texto ele me alegrou com sua presença no meu aniversário de 50 anos. No fundo, uma estranha timidez nos mantinha próximos e distantes, como se a longa estrada nos dispensasse de atalhos.

Guardarei para sempre esta mensagem que ele me enviou no dia dos seus 60 anos, depois que o cumprimentei pelo aniversário:

– Ah, falando em posicionamento político, esses dias tu te definiu no tuíter e escreveu pra mim. Eu sou aquele.

Eram 11h14. Estávamos em sintonia, com nossas diferenças e apesar da distância, desde 19h15 de um dia de agosto de 1980.

Os melhores vão na frente.

Eu não sei o que dizer.

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