Colunistas | Juremir Machado da Silva | Matinal

Papo reto e outras conversas

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Papo reto e outras conversas

De entrada de jogo o cara mandou uma, como se dizia na época da minha avó e do narrador Sílvio Luiz, lá onde o vento encosta o cisco, a coruja faz o ninho e o jacaré foge de lobisomem (essa é nova):

– Que que tá pegando?

– Temos um gap.


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Furor na casa amarela. O diagnóstico caiu como uma bomba. Um ar de perplexidade tomou conta das caras de pasmo ou de deslumbramento. Um ignorante chegou a falar “que porcaria é essa?”, mas foi calado.

– Que podemos fazer?

– Um business plan.


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– Bah.

Ouviu-se um alarido. Dir-se-ia (se a mesóclise não soasse anacrônica) que se tentava absorver o impacto da coisa solenemente.

– Temos de avaliar a situação por um assessment.

Aí o bicho pegou. Silêncio na geral. A galera enfiou a cabeça na carapaça e saiu de fininho. Só podia ser grave. Alguns já se perguntavam como se tinha chegado ao fundo de poço tão rapidamente.

– Tem saída? – arriscou um velhinho que parecia nada ter a perder.

– Depende da affordability.

Ouviu-se claramente alguém dizer “ferrou”. Passou-se do burburinho ao silêncio temeroso. Cada um avaliava os riscos que corria, especialmente os que haviam menosprezado certas metas. Já se dava por evidente que, depois dessas palavras, não se poderia continuar na mesma toada, adeus aos velhos e doces hábitos, barra pesada, enfim, o parquinho ardia em chamas e não havia água por perto.

– Tem também a questão da compliance, né?

Alívio em algumas fissionais. Enfim, haviam entendido alguma coisa. O “né” surtiu o efeito de um poderoso calmante. Distendeu o ambiente. Alguns semblantes passaram do amarelo para o bege. Havia esperança de um mundo melhor. O cometa parecia ter mudado de rota.

– Claro que tem uma alteração no core.

– No core?

O alívio fora passageiro. Ficaram todos congelados, como se a boneca tivesse gritado “batatinha frita, um, dois, três” e parado. Não passava uma agulha na espessura das respirações. E essa? O que seria? Os mais atilados faziam cara de paisagem. Os mais afoitos exibiam suas estampas de velório. Via-se que algumas pessoas sonhavam com a cama quentinha ou algo que se traduzisse em segurança. Então o cara disse:

– Esse gap pode ser fatal.

As palavras têm peso. Evidente que as consultas ao Google eram feitas com impressionante rapidez, o que se percebia na iluminação súbita dos olhos dos que conseguiam olhar o celular sem dar muito na vista. O problema é que alguns ficavam com os olhos mais turvos ao consultar a tradução dos termos citados com tanta naturalidade.

– O principal é a affordability.

A sala dividiu-se: metade respirou; metade voltou ao celular.

– Caraca!

Outros disseram uma palavra menos publicável numa mídia de família.

*

Tempos sombrios

Primeiro me tiraram a voz,
Depois me cortaram os dedos,
Então fiquei a olhar mundo
Com meu olhar mais fundo
Por trás das lentes grossas.
Se minha voz já não fala,
Meu silêncio ainda cala
Na solidão do milharal.

(do meu livro Quase (toda) poesia: Sulina, 2022)

*

Leitura obrigatória

Na revista Parêntese, o múltiplo Luciano Alabarse em todas as suas dimensões entrevistado pelo também múltiplo Luís Augusto Fischer:

*

Frase do Noites, o iluminista em tempos de energia cara:

No apagar das luzes, que já vacilam, o obscuro Jair Bolsonaro deixará uma enorme conta para cada brasileiro pagar. Só tem um jeito de diminuir o prejuízo: desligar da tomada. Na hora da urna.

*

Tambor Tribal

“Desengano brasileiro”: sobre um herói esquecido da luta pela Independência:

https://www.youtube.com/watch?v=38zJ_ixVB8s
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