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Macacos à solta: o vaivém da Porto Alegre pós-Golpe de 64

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Macacos à solta: o vaivém da Porto Alegre pós-Golpe de 64 Célio Marques Fernandes. Foto: Acervo CMPA
30º e 32º PrefeitoNome: Célio Marques FernandesPartido: Partido Social Democrático (PSD) / Aliança Renovadora Nacional (ARENA)Período que governou: 09/05/1964 a 13/04/1965; depois, 09/06/1965 a 31/03/196931º PrefeitoNome: Renato SouzaPartido: Partido Trabalhista Brasileiro (PTB)Período que governou: 13/04/1965 a 09/06/1965 Por Maurício Brum No início da tarde de 9 de novembro de 1964, um alvoroço tomou conta do centro de Porto Alegre: dois macacos apareceram soltos, um na Praça XV, o outro na Alfândega, para surpresa e diversão dos pedestres. A polícia logo se mobilizou e o prefeito, um atarantado Célio Marques Fernandes, foi às rádios para garantir que “os macacos não são nossos”, convidando que os repórteres visitassem o minizoológico da Redenção para verificar que o número de símios enjaulados ainda era o mesmo. Em meio à gargalhada da população, a polícia se mobilizou na “Operação Pega Macaco”: capturá-los não era apenas uma questão de saúde pública, mas também fundamental para manter o véu de normalidade com que a nascente ditadura tentava cobrir pelo Brasil. Um dos macacos, afinal, carregava no pescoço um cartaz “que o DOPS apreendeu por considerar subversivo e não permitiu que fosse fotografado”, relatou o Diário de Notícias na pitoresca matéria sobre o fato, intitulada “Símios misteriosos ‘assaltam’ o centro da capital gaúcha”. A presença dos macacos era um protesto político muito óbvio para quem passou por eles naquele dia: representavam os “gorilas”, termo usado para se referir pejorativamente aos militares do governo. E o cartaz apreendido não deixava dúvidas – “Eu disse: a vida vai baixar”, referência a uma frase do ditador Humberto de Alencar Castelo Branco, que assumiu a presidência após o Golpe prometendo acabar com a inflação, algo que ainda não conseguira concretizar. Em Porto Alegre, a piada do dia era que o pobre macaco havia sido levado por seus pares para ser interrogado no Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, local de detenção e tortura que ficava no atual Palácio da Polícia. O desespero de Célio Marques Fernandes em afirmar que o município nada tinha a ver com os macacos era justificado: ele era o prefeito encarregado desde que o próprio Golpe havia cassado o mandato de Sereno Chaise, do PTB, eleito democraticamente no fim de 1963 e derrubado junto com muitos outros companheiros de partido na sequência da queda de João Goulart em Brasília. O então vereador Marques Fernandes herdou o cargo como presidente da Câmara Municipal, uma posição que de início se provaria tênue, mas logo seria consolidada: ele viria a se tornar o primeiro dos prefeitos da ARENA, o partido de sustentação do regime, que governaram a Capital nos 18 anos entre a implementação do bipartidarismo no Brasil, em 1965, e a primeira transferência do cargo após a recriação de outras siglas, em 1983. Renato Souza, prefeito breve e a contragosto Renato Souza. Foto: Acervo CMPA O mandato de Marques Fernandes começou mambembe. Não só a legitimidade de sua presença no Paço era questionável, mas, como se tratava de um cargo herdado pontualmente por sua condição de líder da […]

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