Carta da Editora

Exu mora ao lado

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Exu mora ao lado Foto: Gustavo Domingues/Riotur/Divulgação

Um colar pendurado na porta de entrada da casa virou alvo de reclamações por parte dos vizinhos. Não era um acessório qualquer. Era uma guia, item que faz parte da cultura de religiões de matriz africana.

Munida de fotos que mostravam que, nas portas de outros moradores do mesmo prédio, símbolos católicos eram exibidos na santa paz, a dona do fio de contas procurou a polícia para registrar a discriminação.

Aconteceu em Porto Alegre, a capital do Estado com mais centros dedicados a religiões afro no Brasil. O episódio é um dos 57 casos de intolerância religiosa reunidos pela Delegacia de Combate à Intolerância nos seus 16 meses de existência, segundo dados da Polícia Civil. Assim como esse, outros 21 casos envolveram vizinhos, relação que predomina nesse tipo de crime.

A titular da delegacia, Andrea Mattos, considera baixo o número de notificações que chegam à polícia, o que atribui à falta de conhecimento das pessoas do seu direito de exercer plenamente a liberdade religiosa. Ainda entra na conta o medo de represálias, presente também em situações de discriminação de outras naturezas, como raça, orientação sexual, nacionalidade e deficiência, todas atendidas pela mesma delegacia. “Ainda é um órgão novo, mas a demanda está crescendo. Questões relacionadas à cor são mais numerosas, disparado. Depois vem LGBT e, na sequência, as demais. Quando algum caso aparece na mídia, aumentam as denúncias”, comenta Mattos.

Há registros envolvendo diferentes religiões, como um episódio ocorrido no último Natal, quando fachadas de igrejas católicas foram atacadas com tinta vermelha. Mas, de acordo com a delegada, as religiões afro são as mais atacadas.

Da porta pra fora, desrespeito e ignorância. Da porta pra dentro, eu apostaria que boa parte dos agressores saracoteou em frente à TV quando a Grande Rio, escola campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, passou pela Sapucaí homenageando Exu, divindade que faz a ponte entre os humanos e orixás.

Foi justamente para combater a intolerância e celebrar a cultura afro que os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora levaram para a avenida o orixá mensageiro, equivocadamente associado ao diabo desde os primeiros contatos de missionários cristãos com o povo iorubá na África, conforme conta Reginaldo Prandi, no livro Mitologia dos orixás. Logo ele, o mais humano dos orixás. O mensageiro a quem coube ouvir do povo e das próprias divindades todos os dramas vividos, por menos importantes que aparentassem. Depois de escutar incontáveis histórias, Exu reuniu “todo o conhecimento necessário para o desvendamento dos mistérios sobre a origem e o governo do mundo dos homens e da natureza”, escreve Prandi.

Exu está sempre presente, sem ele não há comunicação com os outros orixás, como Iemanjá, tão adorada pelos gaúchos, em especial no mês de fevereiro. Mas o que persiste é o imaginário da figura má, provavelmente o grande responsável por ter levado os tais moradores intolerantes a se queixarem quando viram a guia na porta da vizinha, apontando o dedo para ela e disparando, em tom pejorativo, “sua macumbeira” – cena comum nos casos que chegam à polícia.

Para denunciar – Registros de discriminação de intolerância religiosa podem ser feitos em qualquer delegacia, inclusive a online. Os fatos são encaminhados à delegacia especializada, que funciona de segunda a sexta, na avenida Presidente Franklin Roosevelt, 981.

Dois minutos

É o tempo que leva para você nos ajudar respondendo um breve questionário sobre as lives que a redação vem produzindo nas últimas semanas. Mesmo que você não tenha assistido ainda, suas ideias são muito valiosas para nossas próximas produções. Aliás, as gravações estão reunidas aqui. As conversas são mediadas por mim na companhia de Juremir Machado e eventualmente outros colegas do Matinal. Já estiveram presentes autoridades como o prefeito Sebastião Melo, secretários municipais, vereadores, além de especialistas em temas como planejamento urbano e segurança pública e representantes de trabalhadores e movimentos sociais.


Marcela Donini é editora-chefe do Matinal Jornalismo.

Contato: [email protected]

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