Diálogos Matinais

Abandonada pelo poder público, Restinga é potência realizada pela sua gente

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Abandonada pelo poder público, Restinga é potência realizada pela sua gente

Ao longo da minha atuação, que vem desde a adolescência, sempre circulando com práticas sociais, esportivas, religiosas e artísticas-culturais, vejo que a Restinga é um local que parece único no Brasil. Desde o início da história do bairro, na década 1960, a criatividade e a organização das pessoas marcam a ação social por aqui.

Apesar da luta, ainda não são direitos para todos a moradia, o saneamento básico, a água, o asfalto, a escola com cultura e arte, o lazer e a recreação. Sem contar aquilo que é central: a geração de renda e trabalho, como conquista para o povo.

Mas quero ficar no aspecto da riqueza. A Restinga é pioneira em várias organizações de base comunitária e cultura viva, que são um caminho central para promover cidadania e gerar economia e novas iniciativas de pensar arte, meios de produção e formas de interação social. Aqui as pessoas são as promotoras de arte e cultura.

Nos quase 50 anos que tenho de vivência no bairro, eu pude acompanhar o interesse crescente das pessoas pelo audiovisual. Mas a grande riqueza do bairro são a dança e as artes cênicas, como aparecem já nas primeiras histórias sobre a região, em 1989. Em um dos exemplares da série de cadernos que contam a história de cada bairro da cidade, realizados pela Secretaria da Cultura quando lá esteve Luiz Pilla Vares, encontramos a frase impactante “o Carnaval é o teatro de asfalto”, em matéria acompanhada de fotos de crianças que hoje são pessoas de referência da cultura restinguense, como Renan Leandro, do Ubando Grupo. As crianças brincando numa praça da Vila Restinga Nova, aqui perto de minha casa, são mais um exemplo da riqueza do bairro.

As múltiplas linguagens – música, artes visuais e artes cênicas – na cultura popular, em algum momento histórico, quando havia uma condição social e política no município de Porto Alegre para isso, foram pensadas e organizadas numa comissão única e multidisciplinar de cultura, incomum para época nas periferias. Tal comissão teve vigência por um longo período, articulando e fomentando diversas manifestações locais. Na Restinga, houve um momento em que sentavam-se junto o samba, o tradicionalismo, as artes visuais, o audiovisual, aqueles que queriam produzir e realizavam trocas, internacionais inclusive. As relações artísticas ampliaram-se, escreveram-se coisas, atividades eram feitas nas praças, nas vilas, nas escolas, nas feiras, nas esquinas, nas diversas vilas que compõem esse aglomerado chamado Restinga.

É dessa riqueza que nascem as manifestações, formas e jeito de fazer arte e cultura. Sem o reconhecimento do Estado, sem uma estrutura, as pessoas se articularam em grupos, coletivos e associações que depois, próximo do século 21, se tornaram uma realidade um pouco mais concreta, embora informal, devido a várias questões da burocracia. 

Como exemplo vivo da riqueza cultural na periferia hoje, podemos sublinhar o Slam Tinga e a Batalha Cecores. Foi a grande iniciativa dos últimos 20 anos, pelo sentido que trouxe de identidade, entretenimento, autonomia na produção e criatividade voltada para a juventude negra de Porto Alegre. Outra iniciativa semelhante é o coletivo Bronx, organizador de uma festa para jovens na maioria negros, unindo visualidade e música. Nesse sentido, se entende a Restinga como uma grande experiência centro-bairro da cidade. Aqui se pensam as diversas dimensões da cultura brasileira, incluindo a contribuição dos imigrantes africanos, e a dimensão étnica de pessoas que produzem coletivamente. Tudo sendo construído por parte da sociedade civil, quase sem a presença do Estado, que ficou na contramão do direito das pessoas.

A potencialidade da Restinga como região pouco assistida pelo Estado se dá pela manifestação espontânea e construída por parte da juventude negra. A política pública tem ficado em descompasso perante a realidade dinâmica que esses aglomerados de jovens e a população constrói. Por isso, um olhar bem direcionado aos diferentes meios e modos de pensar, ver e fazer cultura na periferia é um investimento importantíssimo. E eu falo de uma maneira mais alargada em organizações, em coletivos, em pessoas e ideias, em potencializar negócios, considerando estar no extremo-sul de Porto Alegre. A Restinga é um universo extremamente complexo pois há cada vez mais uma necessidade de auto-sustento desse aglomerado, desses jovens cada vez mais chamados para outros setores, não voltados à cultura.

Andre de Jesus Ator teatral, radialista e educador social. Formado na Escola de Teatro Popular Terreira da Tribo. Dedica-se ao teatro de rua há 20 anos. Participou de diversas montagens e festivais de teatro nacionais e internacionais com o grupo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Morador da Restinga há 43 anos (foto: Fernanda Chemale)

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