Diálogos Matinais

Na luta pela comunidade do Morro da Cruz

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Na luta pela comunidade do Morro da Cruz Quando eu nasci, 58 anos atrás, o Morro da Cruz era horrível em relação à infraestrutura. Me lembro das ruas todas sem luz, sem calçamento, sem água e com esgoto correndo a céu aberto. Nem coleta de lixo tinha. Nós éramos crianças, nem nos dávamos conta. As mulheres lavam roupa numa sanga.  Cresci aqui, mas nunca me conformei com essas injustiças. Desde cedo me chamava atenção a miséria, a pobreza e a desigualdade social. Por isso, sempre participei de ações para buscar melhorias como saneamento básico, acesso a saúde e escolas, conserto de buracos nas ruas, a luz, o lixo… A gente sempre lutou e reivindicou tudo. Só que agora está pior. A prefeitura nos abandonou. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que a gente se mobilizava e conseguia as coisas. Comecei novinha na militância. Mais tarde ia nas reuniões do Orçamento Participativo, e até hoje lembro de todos os nossos vizinhos comparecerem para pedirmos asfalto para a rua. Um marco da mobilização da comunidade foi a luta pelo Posto da Vila Vargas, por volta de 2007, 2008. Eles fecharam o posto, e a gente reagiu. Saiu tudo na imprensa. Juntamos um povo aqui do Morro e fomos até a Câmara de Vereadores. Conseguimos a reabertura. Foi uma grande vitória. Havia espaço para a discussão e reivindicação. Mas hoje a nossa periferia está muito jogada. Vou dar um exemplo concreto: os CAR, que representavam as prefeituras descentralizadas. A atual gestão simplesmente acabou com eles. Agora, é preciso ligar para um telefone, passar o número do protocolo, uma confusão.  Outro problema: nossos jovens. Nas periferias, não tem nada destinado a eles. Nada. Eles saem da escola e não têm o que fazer. Não tem turno integral, lugar onde jogar bola, uma quadra decente, iluminada, espaço onde brincar, nada. Além disso, aqui em cima só tem escolas de ensino fundamental. E isso provoca outro grande problema: a “geração nem nem”, jovens que nem estudam nem trabalham.  Nosso olhar, o olhar da ONG Coletivo Autônomo Morro da Cruz, é totalmente voltado para a comunidade. Nosso principal projeto é o Projeto Integração. Basicamente são oficinas no contraturno da escola para crianças em vulnerabilidade social. Só que é muito mais do que isso. É cuidado, carinho. Temos uma equipe com psicólogos, nutricionista, pedagoga, e pediatra. Atualmente temos 52 alunos, o que é pouco. Qual é a população do morro? Ninguém sabe ao certo. Quarenta mil pessoas? Menos um pouco? Não importa. Sabemos que é pouco, mas é importante o nosso trabalho. Porque além das aulas e todo o cuidado com as crianças, nos preocupamos em conhecer e ajudar as famílias. Durante a pandemia, doamos ranchos mensalmente. Fizemos uma parceria com a Moeda do Bem, uma start up de inovação social, para ajudar na arrecadação. Além das famílias das crianças atendidas pela ONG, também ajudamos outros moradores da comunidade. Chegamos a cerca de 2 mil cestas básicas distribuídas.  Todo mundo foi atingido nesta pandemia. Aqueles que tinham um pouquinho, que eram autônomos, perderam […]

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Quando eu nasci, 58 anos atrás, o Morro da Cruz era horrível em relação à infraestrutura. Me lembro das ruas todas sem luz, sem calçamento, sem água e com esgoto correndo a céu aberto. Nem coleta de lixo tinha. Nós éramos crianças, nem nos dávamos conta. As mulheres lavam roupa numa sanga.  Cresci aqui, mas nunca me conformei com essas injustiças. Desde cedo me chamava atenção a miséria, a pobreza e a desigualdade social. Por isso, sempre participei de ações para buscar melhorias como saneamento básico, acesso a saúde e escolas, conserto de buracos nas ruas, a luz, o lixo… A gente sempre lutou e reivindicou tudo. Só que agora está pior. A prefeitura nos abandonou. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que a gente se mobilizava e conseguia as coisas. Comecei novinha na militância. Mais tarde ia nas reuniões do Orçamento Participativo, e até hoje lembro de todos os nossos vizinhos comparecerem para pedirmos asfalto para a rua. Um marco da mobilização da comunidade foi a luta pelo Posto da Vila Vargas, por volta de 2007, 2008. Eles fecharam o posto, e a gente reagiu. Saiu tudo na imprensa. Juntamos um povo aqui do Morro e fomos até a Câmara de Vereadores. Conseguimos a reabertura. Foi uma grande vitória. Havia espaço para a discussão e reivindicação. Mas hoje a nossa periferia está muito jogada. Vou dar um exemplo concreto: os CAR, que representavam as prefeituras descentralizadas. A atual gestão simplesmente acabou com eles. Agora, é preciso ligar para um telefone, passar o número do protocolo, uma confusão.  Outro problema: nossos jovens. Nas periferias, não tem nada destinado a eles. Nada. Eles saem da escola e não têm o que fazer. Não tem turno integral, lugar onde jogar bola, uma quadra decente, iluminada, espaço onde brincar, nada. Além disso, aqui em cima só tem escolas de ensino fundamental. E isso provoca outro grande problema: a “geração nem nem”, jovens que nem estudam nem trabalham.  Nosso olhar, o olhar da ONG Coletivo Autônomo Morro da Cruz, é totalmente voltado para a comunidade. Nosso principal projeto é o Projeto Integração. Basicamente são oficinas no contraturno da escola para crianças em vulnerabilidade social. Só que é muito mais do que isso. É cuidado, carinho. Temos uma equipe com psicólogos, nutricionista, pedagoga, e pediatra. Atualmente temos 52 alunos, o que é pouco. Qual é a população do morro? Ninguém sabe ao certo. Quarenta mil pessoas? Menos um pouco? Não importa. Sabemos que é pouco, mas é importante o nosso trabalho. Porque além das aulas e todo o cuidado com as crianças, nos preocupamos em conhecer e ajudar as famílias. Durante a pandemia, doamos ranchos mensalmente. Fizemos uma parceria com a Moeda do Bem, uma start up de inovação social, para ajudar na arrecadação. Além das famílias das crianças atendidas pela ONG, também ajudamos outros moradores da comunidade. Chegamos a cerca de 2 mil cestas básicas distribuídas.  Todo mundo foi atingido nesta pandemia. Aqueles que tinham um pouquinho, que eram autônomos, perderam […]

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