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South Summit e a “primavera de inovação nos pampas”

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South Summit e a “primavera de inovação nos pampas” Edição do South Summit em Porto Alegre recebeu 20 mil pessoas (Foto: Ramiro Sanchez/ Agência Preview/Divulgação)

Em entrevista ao Matinal, Eduardo Lorea, que trabalhou na instalação do evento em Porto Alegre, avalia edição 

O nome parece feito sob medida. Mas a verdade é que o “south” em South Summit se refere ao Sul da Europa, onde nasceu o importante evento de negócios e inovação que movimentou o Centro de Porto Alegre na semana passada. Pela primeira vez realizado fora da Europa, a iniciativa que nasceu na Espanha reuniu, em três dias, um público de 20 mil pessoas de 50 países diferentes que circulou por armazéns reformados do Cais, além de 7,5 mil empresas, 2,5 mil startups, 450 investidores. Foram atraídos fundos que somam mais de 65 bilhões de dólares e promovidos 40 mil contatos.

Para quem ficou de fora esses números podem soar abstratos. Teve até quem fez piada nas redes sociais dizendo que se “tratava de uma Expointer de startups”. A ilustração, apesar de equivocada, é didática: diferente do tradicional evento do agronegócio, onde são concretizadas vendas, “o South Summit não é uma feira, mas uma plataforma de negócios de inovação aberta, um método que surgiu há cerca de 15 anos”, explica Eduardo Lorea. “Em vez de desenvolver novos produtos utilizando equipes e recursos próprios, empresas buscam no mercado soluções para seus problemas”. Ou seja, o South Summit conecta grandes companhias, startups e investidores.

Lorea é fundador da Numerik, consultoria de inovação criada em Madrid que apoiou a instalação do South Summit Brazil em Porto Alegre. Ele conversou com o Matinal na segunda-feira, ainda sob o impacto de uma realização que, na sua visão, foi extremamente exitosa. Gaúcho de Pelotas, ele fez a ponte entre a fundadora do South Summit, María Benjumea, e o governo do Estado, ainda na época comandado por Eduardo Leite. 

Depois de estudar diferentes eventos que pudessem atrair capital para o Rio Grande do Sul, a Numerik escolheu o South Summit por ser um evento de inovação com foco em gerar negócios. “Existem muitos eventos de estímulo à inovação, mas não é disso que precisávamos. Precisávamos colocar Porto Alegre no mapa internacional de novo, mostrar que se pode fazer negócios no Sul do Brasil, e não só em São Paulo”, diz. A Espanha é um dos três países que mais investe no Brasil, junto de EUA e China, destaca Lorea, e dos três, afirma, é o que mais tem laços culturais e sociais com o RS.

A seguir, leia mais trechos da entrevista.

Queria começar esclarecendo o que significam esses números finais do evento, como os contatos realizados e o montante de recursos em fundos.

Os 40 mil contatos foram realizados pelo app interno da plataforma. Ao comprar uma entrada (que variava de 100 a 5 mil reais), a pessoa preenche seus dados e é estimulada a falar com outras, para buscar as soluções de que precisa. Foram 40 mil pessoas que se adicionaram. Sobre os fundos: como se trata de um evento de negócios, um dos maiores esforços foi atrair fundos de investimentos. Porque a principal carência por aqui é capital. Tem grandes empresas, startups legais, mas com dificuldade de acesso a capital. Foram atraídos 89 fundos, dos quais 20 internacionais, e esse montante de 65 bilhões de dólares é a soma dos valores disponíveis nesses fundos para negócios na América Latina.

O que mais pesou para o South Summit escolher Porto Alegre e confirmar a segunda edição para 2023?

O South Summit quis a gente porque notaram uma primavera de inovação nos pampas. O que está acontecendo agora em Porto Alegre não é qualquer coisa, a cidade e o Estado vivem os melhores anos da economia da inovação, com iniciativas como o Instituto Caldeira e o Pacto Alegre, além de os governos estadual e municipal estarem ligados neste assunto. O South Summit percebeu isso. María Benjumea não queria vir só por dinheiro. Ela fez uma filtragem boa, estava interessada em saber se éramos um polo de inovação.

E o evento superou as expectativas.

Superou todas as expectativas. Número de fundos, público, relevância. E só foi desse jeito porque houve engajamento de todos, governos, empresas, universidades. Com uma segunda edição reforça-se o objetivo de colocar Porto Alegre de volta ao mapa global de grandes eventos. A cidade já esteve nessa rota, especialmente com o Fórum Social Mundial, mas está fora faz uns belos anos. Teve uma figuração durante a Copa de 2014 e mais nada. Não é um centro de inovação reconhecido internacionalmente.

O tema da diversidade esteve presente na programação. Como você avalia o evento sob essa perspectiva?

De todos os speakers, 30% foram mulheres, tivemos alguns destaques do movimento negro, como Lisiane Lemos (gerente de diversidade do Google), Celso Athayde, Nina Silva. Obviamente, em relação à diversidade racial, o evento reflete a realidade do ecossistema de inovação, que tem baixa representatividade negra. 

A participação de mulheres entre os palestrantes também me surpreendeu. Não é pouco, considerando que somos mais da metade da população no Brasil?

Estamos falando do mercado de startups, fundos, investidores, grandes empresas. Nessas posições, as representatividades feminina e negra ainda são muito pequenas. Fizemos um esforço forte para ter representatividade feminina, acredito que tivemos uma proporção superior à representatividade natural do setor, mas seguramente temos que seguir trabalhando nisso.

Outra temática muito forte no evento foi o ESG (sigla em inglês para Ambiente, Social e Governança). O South Summit é um evento de inovação aberta. Se não tiver agenda, ele se foca na produtividade, na eficiência econômica. É fundamental que a pauta da inovação não seja só econômica, mas de benefício social, preservação do planeta, inclusão social num sentido ativo, de fazer negócios que promovam os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, adotados pelas Nações Unidas). Esse foi talvez um dos temas mais quentes, que mais se discutiu e com o maior volume de speakers. 

Registro aéreo no segundo dia de South Summit (Foto: Jefferson Bernardes/Agência Preview/Divulgação)

Pela tua experiência com o mercado internacional, o quanto a atual gestão federal, que não prioriza essas questões, atrapalha na imagem do Brasil lá fora? 

A questão da imagem internacional foi um desafio pra atrair o SS. Fomos questionados sobre “esse governo que vocês têm lá?”. Corrupção, instabilidade institucional, tudo isso foram desafios. O Brasil realmente tem imagem internacional debilitada, sobretudo nos últimos seis anos. Tem sido visto como um país que vinha avançando nas pautas sociais, com melhora na economia, e depois teve problemas sérios. E ainda notícias negativas da pandemia, desmatamento… Não é só sobre ser “mais verde” e “mais social”. O Brasil perde negócios por isso tudo. O estrangeiro vê como um lugar arriscado pra se meter. Felizmente conseguimos enfrentar esse assunto e mostrar que existe muita gente no Brasil trabalhando na linha oposta, muitos destaques em ESG, com líderes de projeção internacional. Tomara que nossa imagem volte a nos ajudar.

Que valor o South Summit deixa para o espaço do Cais e seu entorno?

Ficam dois legados. O primeiro bem concreto: três galpões tiveram seus telhados restaurados e podem ser utilizados pra outros eventos. O segundo e mais importante: o quanto as pessoas estavam encantadas de estar lá no Cais do Porto. Quem é de Porto Alegre adorou viver aquele astral, e quem é de fora ficou absolutamente encantado porque não considerava Porto Alegre como uma cidade turística. O Cais mostrou que ele é isso, é um lugar que deveríamos recuperar pra que pudéssemos utilizá-lo. Felizmente tem esse projeto de utilização do Cais. Talvez a gente possa vir a responder  melhor a pergunta se Porto Alegre é uma cidade turística no futuro se a gente passar a utilizar o Cais, como fazem todas cidades no mundo que tem um cais desses. Curioso que, pra fazer uma experiência legal ali, o evento utilizou coisas que Porto Alegre já tem. O Cisne Branco, por exemplo, era a “zona business” do evento, ficou atracado ali e foi sensacional. O Catamarã foi utilizado pra dar uma volta no por do sol. Ou seja, coisas que já estão lá, nada de especial.

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