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Sobre o que não sabemos da pandemia

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Sobre o que não sabemos da pandemia

Em 2013, Jon Krakauer publicou suas considerações finais sobre o trágico desfecho da breve vida de Christopher McCandless. Krakauer narrara a aventura existencial do viajante McCandless em Into the wild (1996) – livro posteriormente adaptado para o cinema –, mas restavam questões em aberto acerca da morte do jovem protagonista. Não se sabia se ele teria morrido por intoxicação ou por inanição, mas havia também especulação sobre sua conduta: sua história era um ato de vitalidade ou exemplo de irresponsabilidade?

Essas dúvidas angariaram fama e interesse ao belo trabalho de Krakauer e à fascinante história de McCandless. Assim, em 2013, após novos estudos e contribuições de outros autores e pesquisadores curiosos, Krakauer pôde finalmente concluir: McCandless morreu pela associação da desnutrição extrema ao consumo de sementes que, em indivíduos enfraquecidos, podem ser tóxicas.

Foi uma combinação trágica, especialmente quando levamos em conta que o guia alimentar estudado e utilizado por McCandless em sua jornada ao Alasca não detinha essas informações sobre as sementes em que decidiu apostar sua sobrevivência. O aventureiro agira, afinal, baseado no conhecimento disponível, porém incompleto. McCandless morreu, portanto, por ignorância, e não por arrogância.

Saber o que não se sabe

Ser “ignorante” adquiriu ares de insulto na nossa cultura, mas o reconhecimento da ignorância é uma das habilidades fundamentais da ciência e da convivência em sociedade. É verdade que o conhecimento guia nossas ações, mas a consciência sobre os limites do nosso próprio conhecimento é tão ou mais fundamental: se o saber possibilita o fazer, a consciência do não-saber fundamenta aquilo que não temos (talvez ainda) condição de fazer.

É em algum lugar neste espectro que nós nos encontramos perante a pandemia. Nestes seis meses de convivência global com esta nova cepa de coronavírus, bastante se descobriu; porém, para tudo que se sabe, cria-se a consciência de quão poucas certezas temos. Como diz Rahel Varnhagen: “Tudo o que sabemos diz respeito a algo que não sabemos.”

Sabemos que indivíduos com comorbidades e idade avançada são mais suscetíveis à Covid-19, mas não sabemos em detalhes quais estas comorbidades são, ou principalmente se há outros fatores tão ou mais relevantes nesta elevação risco. Sabemos que o contato próximo entre indivíduos é muito perigoso, mas suspeitamos que o ar também seja veículo de contaminação. Sabemos que indivíduos que superaram a doença tendem a desenvolver algum tipo de imunidade, mas não sabemos qual o grau nem o tempo de duração desta imunidade. Sabemos que a imensa maioria dos indivíduos se recupera, mas há indícios de que uma parcela deles pode desenvolver sequelas importantes.

A lista de saberes e não-saberes, enfim, é potencialmente infinita, e proporcionalmente angustiante. No entanto, embora os efeitos psicológicos, econômicos e sociais sejam imensos, o jornalismo e a divulgação científica podem exercer um papel construtivo e educativo ao aproximar o público do método científico.

Isso envolve desmistificar a noção da ignorância. A ciência, sabemos, não raro é popularmente concebida como uma espécie de entidade metafísica detentora de um conhecimento diamantino, etéreo, completo e infalível – uma entidade, enfim, extremamente arrogante.

A vida real e empírica é bem diferente. Por mais que a ciência esteja relacionada, em sua etimologia latina, a uma condição de saber, ela está muito mais ancorada no reconhecimento e no respeito àquilo que não se sabe. Assim, evidenciar e aceitar o que não se sabe é um passo necessário à construção de qualquer tipo de conhecimento.

Esse processo, que não é fácil nem indolor, pode ser graficamente representado pelo Efeito Dunning-Kruger. Este gráfico associa nossa confiança individual ao grau de conhecimento e sabedoria, e mostra como, após um pico de empolgação inicial no Monte da Estupidez, rapidamente damo-nos conta da nossa ignorância, imersos em um longo Vale do Desespero, de onde apenas conseguimos vislumbrar, a distância, a gradual Iluminação.

Isso é válido em qualquer situação, mas talvez seja especialmente relevante em uma urgência sanitária como a pandemia. Ao emergirem dos primeiros casos na China, alguns cientistas suspeitaram estar diante de algo novo. Porém, à medida que o vírus avançava por países e continentes, houve quem minimizasse o fenômeno, julgando estar diante de um patógeno igual a outros. Se o excesso de zelo pode ser paralisador, o desprezo às incógnitas tende a ser ainda mais devastador.

A pandemia ainda é um fenômeno recente

Embora as perdas e os desgastes envolvidos na pandemia sejam altos, vale notar que, do ponto de vista sanitário e científico, a situação ainda é muito recente. Embora já conhecêssemos outras cepas do coronavírus, seis meses não representam uma abundância temporal para solucionar todos os desafios impostos por uma nova doença.

É natural que tenhamos muito mais dúvidas do que respostas. Assim, redobra-se o valor da consciência acerca de nossa ignorância, evitando que nossa ansiedade se transmute em arrogância, e poderemos caminhar com mais segurança a partir do que já sabemos que sabemos.

Boa parte do que já se sabe sobre a Covid-19 foi sintetizado em um ótimo artigo de revisão publicado no dia 10 de julho no Journal of the American Medical Association. Ali, foram reunidas as melhores evidências acerca de patofisiologia, transmissão, diagnóstico e tratamento sobre a Covid-19, o que orienta e fornece subsídios sólidos para a atuação de médicas e médicos em todo o mundo.

Além deste artigo, que é destinado a pesquisadores e profissionais da saúde, o JAMA também publicou, em sua seção orientada a pacientes e público em geral, um excelente material intitulado O que é a Covid-19? O material é em inglês, mas representa uma boa síntese do (pouco) que já sabemos sobre a doença.

Não sabemos muito, mas sabemos coisas importantes e, sobretudo, muito úteis. De todos estes materiais, sobressai-se a importância das medidas não-farmacológicas: evitar aglomerações, usar máscara, sair de casa somente para o necessário ou inadiável, praticar higiene intensiva. Embora isso possa parecer pouco perante um vírus, é o que há de mais forte e claro em termos de evidência para reduzir os danos da pandemia – pelo menos por enquanto.

Se você chegou até aqui e está no Rio Grande do Sul (como nós do Matinal estamos), vale ter esses dados em mente. Neste momento, estamos entrando no momento mais grave da pandemia no nosso Estado. De acordo com um estudo recente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a estimativa é que atinjamos o pico no final de agosto. Mais do que nunca, convém admitir nossas limitações, apostar no que sabemos e proceder com prudência e cautela.

*Felipe é jornalista e estudante de Medicina na UFRGS

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