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Sobre o que não sabemos da pandemia

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Sobre o que não sabemos da pandemia Por Felipe Schroeder Franke* Em 2013, Jon Krakauer publicou suas considerações finais sobre o trágico desfecho da breve vida de Christopher McCandless. Krakauer narrara a aventura existencial do viajante McCandless em Into the wild (1996) – livro posteriormente adaptado para o cinema –, mas restavam questões em aberto acerca da morte do jovem protagonista. Não se sabia se ele teria morrido por intoxicação ou por inanição, mas havia também especulação sobre sua conduta: sua história era um ato de vitalidade ou exemplo de irresponsabilidade? Essas dúvidas angariaram fama e interesse ao belo trabalho de Krakauer e à fascinante história de McCandless. Assim, em 2013, após novos estudos e contribuições de outros autores e pesquisadores curiosos, Krakauer pôde finalmente concluir: McCandless morreu pela associação da desnutrição extrema ao consumo de sementes que, em indivíduos enfraquecidos, podem ser tóxicas. Foi uma combinação trágica, especialmente quando levamos em conta que o guia alimentar estudado e utilizado por McCandless em sua jornada ao Alasca não detinha essas informações sobre as sementes em que decidiu apostar sua sobrevivência. O aventureiro agira, afinal, baseado no conhecimento disponível, porém incompleto. McCandless morreu, portanto, por ignorância, e não por arrogância. Saber o que não se sabe Ser “ignorante” adquiriu ares de insulto na nossa cultura, mas o reconhecimento da ignorância é uma das habilidades fundamentais da ciência e da convivência em sociedade. É verdade que o conhecimento guia nossas ações, mas a consciência sobre os limites do nosso próprio conhecimento é tão ou mais fundamental: se o saber possibilita o fazer, a consciência do não-saber fundamenta aquilo que não temos (talvez ainda) condição de fazer. É em algum lugar neste espectro que nós nos encontramos perante a pandemia. Nestes seis meses de convivência global com esta nova cepa de coronavírus, bastante se descobriu; porém, para tudo que se sabe, cria-se a consciência de quão poucas certezas temos. Como diz Rahel Varnhagen: “Tudo o que sabemos diz respeito a algo que não sabemos.” Sabemos que indivíduos com comorbidades e idade avançada são mais suscetíveis à Covid-19, mas não sabemos em detalhes quais estas comorbidades são, ou principalmente se há outros fatores tão ou mais relevantes nesta elevação risco. Sabemos que o contato próximo entre indivíduos é muito perigoso, mas suspeitamos que o ar também seja veículo de contaminação. Sabemos que indivíduos que superaram a doença tendem a desenvolver algum tipo de imunidade, mas não sabemos qual o grau nem o tempo de duração desta imunidade. Sabemos que a imensa maioria dos indivíduos se recupera, mas há indícios de que uma parcela deles pode desenvolver sequelas importantes. A lista de saberes e não-saberes, enfim, é potencialmente infinita, e proporcionalmente angustiante. No entanto, embora os efeitos psicológicos, econômicos e sociais sejam imensos, o jornalismo e a divulgação científica podem exercer um papel construtivo e educativo ao aproximar o público do método científico. Isso envolve desmistificar a noção da ignorância. A ciência, sabemos, não raro é popularmente concebida como uma espécie de entidade metafísica detentora de um conhecimento diamantino, etéreo, completo e […]

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Por Felipe Schroeder Franke* Em 2013, Jon Krakauer publicou suas considerações finais sobre o trágico desfecho da breve vida de Christopher McCandless. Krakauer narrara a aventura existencial do viajante McCandless em Into the wild (1996) – livro posteriormente adaptado para o cinema –, mas restavam questões em aberto acerca da morte do jovem protagonista. Não se sabia se ele teria morrido por intoxicação ou por inanição, mas havia também especulação sobre sua conduta: sua história era um ato de vitalidade ou exemplo de irresponsabilidade? Essas dúvidas angariaram fama e interesse ao belo trabalho de Krakauer e à fascinante história de McCandless. Assim, em 2013, após novos estudos e contribuições de outros autores e pesquisadores curiosos, Krakauer pôde finalmente concluir: McCandless morreu pela associação da desnutrição extrema ao consumo de sementes que, em indivíduos enfraquecidos, podem ser tóxicas. Foi uma combinação trágica, especialmente quando levamos em conta que o guia alimentar estudado e utilizado por McCandless em sua jornada ao Alasca não detinha essas informações sobre as sementes em que decidiu apostar sua sobrevivência. O aventureiro agira, afinal, baseado no conhecimento disponível, porém incompleto. McCandless morreu, portanto, por ignorância, e não por arrogância. Saber o que não se sabe Ser “ignorante” adquiriu ares de insulto na nossa cultura, mas o reconhecimento da ignorância é uma das habilidades fundamentais da ciência e da convivência em sociedade. É verdade que o conhecimento guia nossas ações, mas a consciência sobre os limites do nosso próprio conhecimento é tão ou mais fundamental: se o saber possibilita o fazer, a consciência do não-saber fundamenta aquilo que não temos (talvez ainda) condição de fazer. É em algum lugar neste espectro que nós nos encontramos perante a pandemia. Nestes seis meses de convivência global com esta nova cepa de coronavírus, bastante se descobriu; porém, para tudo que se sabe, cria-se a consciência de quão poucas certezas temos. Como diz Rahel Varnhagen: “Tudo o que sabemos diz respeito a algo que não sabemos.” Sabemos que indivíduos com comorbidades e idade avançada são mais suscetíveis à Covid-19, mas não sabemos em detalhes quais estas comorbidades são, ou principalmente se há outros fatores tão ou mais relevantes nesta elevação risco. Sabemos que o contato próximo entre indivíduos é muito perigoso, mas suspeitamos que o ar também seja veículo de contaminação. Sabemos que indivíduos que superaram a doença tendem a desenvolver algum tipo de imunidade, mas não sabemos qual o grau nem o tempo de duração desta imunidade. Sabemos que a imensa maioria dos indivíduos se recupera, mas há indícios de que uma parcela deles pode desenvolver sequelas importantes. A lista de saberes e não-saberes, enfim, é potencialmente infinita, e proporcionalmente angustiante. No entanto, embora os efeitos psicológicos, econômicos e sociais sejam imensos, o jornalismo e a divulgação científica podem exercer um papel construtivo e educativo ao aproximar o público do método científico. Isso envolve desmistificar a noção da ignorância. A ciência, sabemos, não raro é popularmente concebida como uma espécie de entidade metafísica detentora de um conhecimento diamantino, etéreo, completo e […]

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