Cartas

Um ano entre Parênteses

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Um ano entre Parênteses

Sebastião saiu de casa bem cedo naquela segunda-feira e avisou a esposa que iria voltar tarde da agência. Pilhas de envelopes, com as peças gráficas dos clientes impressas, acumulavam-se na expedição, à espera do motoboy. Outras tantas, destinadas aos clientes de fora, já embaladas para o envio por Sedex. Dezenas de emails trancados nas caixas de saída dos computadores. Mensagens de WhatsApp não enviadas. Era o décimo oitavo dia da Conet-22, o vírus digital.

A TV na recepção da agência, conectada nos canais locais, e o rádio, eram as únicas fontes de informação. Sebastião ficava a maior parte do tempo ali com a secretária, instruindo as entregas, combinando tudo por telefone. As notícias eram transmitidas com atraso: a polícia de Nova York conseguiu localizar o escritório do hacker que invadiu os backbones, impedindo o funcionamento dos endereços de IP. A decodificação dos sinais de satélite também foi parcialmente atacada. Repórteres das principais redes de comunicação correram até a Ponte do Brooklyn. Amrit Schulaiv dirigia a sua picape Nissan SUV em rota de fuga. Policiais vindos do Brooklyn e de Manhattan fizeram uma barreira com as viaturas sobre a ponte. Encurralado, Amrit parou a picape e saiu, balançando com a mão um pequeno HD. Antes que os agentes pudessem detê-lo, subiu na amurada, entre os cabos de aço, e se atirou no Rio East. 

O fato chegou para Sebastião quase uma hora depois. Os códigos de liberação do núcleo das redes, contidos no HD com Amrit, foram perdidos. As maiores empresas de tecnologia se uniram para buscar uma solução. O sistema econômico mundial entrou em colapso. Os correios e os serviços de logística em entregas, contratados por telefone, faturavam alto. Em todos os lugares, as pessoas agora se encontravam para falar, pessoalmente, tudo aquilo que antes conversavam pela internet.

Desolado, Sebastião dispensou todos os funcionários. Não fazia mais sentido ter qualquer esperança, por enquanto. Antes de sair, colocou na pasta alguns envelopes com layouts inacabados. Ao chegar em casa, sua filha pequena veio correndo e lhe deu um abraço, meio chorosa: – Papai, preferia o outro vírus, porque antes você ficava aqui com a gente.

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Flávio Wild – Designer e fotógrafo

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