Crônica

Melhor que um sonho

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Melhor que um sonho

Publicar um livro é tornar nossas palavras públicas. Fiz isso pela primeira vez em julho de 2020, no olho do cu da pandemia, e entrei em crise. Eu sei, seu sei, a gente meio que já entendeu: EU SEMPRE ENTRO EM CRISE. É de mim, o que fazer? Porém, hoje eu abro um espaço de generosidade pra escritora estreante que fui. Cara, que tristeza, lançar o primeiro livro dentro de casa, sozinha, numa live de instagram, quando a gente achava todo dia que iria morrer. Olha, na época talvez eu negasse um pouco, mas foi muito, muito, muito deprimente, vazio e sem sentido. Pelo menos durante um bom tempo.

Mas é isso aí, lancei o primeiro livro e, ao contrário do que algumas pessoas pensaram, não parei de escrever. Também não vou exagerar e dizer o oposto, tô escrevendo mais do que nunca. Mentira. Escrevo quase sempre a mesma coisa, sobre os mesmos assuntos, com algumas alterações de opinião e humor – é que ando em crise até com o feminismo. Ou seja, minha rotina de escrita não entrou num estado de iluminação e nirvana, como eu esperava, após o lançamento do Aqui dentro.

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Continuei trabalhando duro, ou nem tanto. Lendo muito, isso com certeza mais que antes, e mais uma vez a Dalva cruzou o meu caminho e cá estamos nós, relatando mais um lançamento de livro. Desta vez a proeza me levou até São Paulo. É que a Jandaíra é uma editora paulistana e recebi o belo convite de primeiro lançar o Pela hora da morte lá. Não vou negar, foi legal. A Lizandra é quem quero ser daqui dez anos, a Zainne um amor e, como minha língua é grande, depois de tecer comentários um tantinho assim sinceros sobre São Paulo, quase apanhei da Esmeralda Ribeiro. Gente, repito: Esmeralda Ribeiro. Teria sido uma honra.

Mas ela é uma querida, não me bateu, como quase tudo que acontece em São Paulo, atrasou um pouco, muita gente não apareceu, e eu fiquei naquela sensação estranha que só aquela cidade me dá. Não é que tenha sido ruim, não! Foi muito bom. Mas um bom assim, assim, que não soube ficar muito feliz. Saímos da Livraria da Travessa pra um restaurante nordestino muito gostoso. Coisa que não tem nem no nordeste. Afinal, se você está em Pernambuco, come-se comida pernambucana. Se na Bahia, comida baiana. Se no Piauí… bom, você entendeu: só em Sampa é possível pedir acarajé, baião de dois e cajuína no mesmo cardápio. Dale!

Ainda bem, hoje em dia não preciso passar mais que quatro dias naquela capital. Voltei pra casa numa solidão tão grande que parecia ter vindo de um enterro. Não entendia aquilo. Me bateu medo, entrei em crise: Será que o lançamento do segundo livro vai ser pior que o primeiro? Porque assim, sozinha no meio da pandemia, é explicável ser triste, mas hoje não… A capa tá linda, o processo foi ótimo, o livro tá tinindo, por que não consigo ficar feliz? Passei a semana remoendo isso.

Enfim, lá pela quinta, sexta-feira percebi que não era o livro, era eu. Pouca gente sabe a bagunça que foi 2022 até agora pra mim. Na virada do ano avistei um tsunâmi e prendi a respiração. Na simbologia Junguiana água é emoção, imagine um tsunâmi. Agora soma toda a chuva que cai em Porto Alegre, o tamanho do Guaíba, o tanto que eu choro por um nada. Colega, foi emoção engolindo emoção, e se a água não tem o poder de te queimar por fora, ela te encharca por dentro.

Sábado pendurei minhas vísceras, músculos esqueléticos, nervos e coração ao sol para me livrar da umidade devoradora. Para deixar escorrer aquilo que não era meu. Para abrir caminho ao novo e espaço a mim mesma dentro de mim. Quando a gente não sabe e ninguém nunca nos ensinou, é difícil entender os limites de quem nós somos e onde está o outro. Domingo eu lançaria meu segundo livro em casa e nada de outro alguém poderia atrapalhar isso.

Acordei árida, espaçosa e calma. O dia tinha chegado. Eu estava enfim vazia, meses e meses, semana após semana, e o que há alguns dias parecia impossível acontecera: a última gota havia caído e me rachado ao meio. Levantei sem o peso da salobra água de tsunâmi, sem mofo de umidade esquecida, sem a pressão atmosférica de chuva precipitada. Fui ao varal, catei baço, intestinos, pulmões, coração. Fui colocando tudo no lugar e cobri a cicatriz com a fita da saia vermelha.

No espelho o sorriso veio sozinho. Nos abraços de quem chegava à Bamboletras minha aridez trocava poeira por sereno. A garoa do carinho sincero, sem promessas, sem cobranças, sem afrontas. O amor respeita os limites. O amor à palavra une as pessoas numa linguagem sem som. O silêncio estampado em cada foto é o retrato de uma alegria sem expectativa. O feliz momento presente que se sabe infinito pois ainda não é e nunca será preso ao passado ou ao futuro. O presente é o único tempo possível, por isso eterno.

O que é viver? Me perguntam. E a vida está aí, diante das mãos de quem se questiona. A vida sou eu, escrevendo sobre a vida que aconteceu e que nunca seria passível de registro, e portanto estou aqui a registrá-la, memoriá-la e refazendo-a em ficção, ouso dizer: é verdade. A vida é o todo que acontece, aconteceu antes de mim e continuará na minha certa ausência. A vida é toda a natureza que se expande e se esconde dos meus olhos. A única possibilidade que me cabe é participar desta existência.

Imaginei muitas realidades do dia do lançamento deste meu segundo livro. Enquanto revisava. Durante releituras. Nos momentos que flertava com a desistência e o cansaço vencia a confiança. Imaginei muita gente, imaginei uma mesa com grandes cronistas me acompanhando. Imaginei alguém lendo meu texto e as pessoas batendo palmas. Imaginei críticas, análises, elogios, cumprimentos. Imaginei afeto. Mas o lançamento foi melhor que um sonho. Na virada do ano avistei um tsunâmi e prendi a respiração. Voltei a respirar no último domingo.


Nathallia Protazio é escritora e farmacêutica.

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