Crônica

Na pele de mãe

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Na pele de mãe

Trabalho no mesmo ponto de táxi há mais de 30 anos. Uma eternidade. Nesse tempo todo, vi muito passageiro sumir (partir dessa pra melhor), muito passageiro nascer e crescer. 

Anos atrás, tínhamos uma senhora humilde que fazia faxina aqui no prédio ao lado. Como ela não tinha com quem deixar as crianças, trazia os pimpolhos pela mão. Eles ficavam perambulando pela portaria, brincando com os taxistas, vendo a mãe trabalhar. Ficamos amigos. Mais tarde, essa senhora arranjou trabalho melhor, mas continuou passando por aqui, pois mora nas imediações. 

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Ela sempre nos traz notícias das “crianças”, que foram crescendo e tornaram-se adultos bem-sucedidos. Ela tem um orgulho enorme de ter passado um exemplo de trabalho duro aos filhos, em especial a um deles, que seguiu a carreira militar. Sempre atualizando as novidades, “passou no colégio militar”, mais tarde “melhor nota nas Agulhas Negras”, esses tempos “aprovado pra piloto de caça”, ou coisas do tipo, como quem diz: olha só o meu garoto! Lindo de ver.

Hoje essa senhora pegou meu táxi. Aeroporto Salgado Filho, URGENTE! comprou uma passagem às pressas, uma fortuna. Voo direto pra Brasília. 

A mulher em pânico, transtornada, mal conseguindo falar. O filho, seu filho militar, o maior orgulho dela, patentes no peito, medalhas, respeitado, ganhando bem, o filho está “detido” na Capital do DF. 

O rapaz está entre os milhares de arruaceiros que invadiram e depredaram os prédios públicos! A foto estampada na internet! A mãe em prantos, aos soluços, correndo pro aeroporto. O filho levou gás de pimenta, bomba de efeito moral, chuva, cassetete na cabeça. Tem vídeo dele mandando o exército tomar no cu, os generais tomar no cu, Agulhas Negras tomar no cu, o filho fora de si, a mãe fora de si, toda uma loucura instaurada da noite pro dia na cabeça de todo mundo!

Tenho empatia zero por esses bolsonaristas delirantes, que achavam que mudariam o resultado da eleição invadindo Brasília. Zero. Mas vendo aquela mãe, com seu orgulho aos pedaços, correndo aeroporto adentro rumo ao futuro incerto de um filho que ela tanto ama… Bah. 

No universo íntimo de cada um, os danos podem ser tão incalculáveis quanto o rasgo em uma tela do Di Cavalcanti, os cacos de um vaso chinês. Não queria estar na pele daquela mãe.


Mauro Taxitramas Castro é escritor, taxista, autor da série de livros Taxitramas, atualmente em seu volume 5 (à venda nas livrarias, mas na mão dele é mais barato).

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