Crônica

Prefiro meu nome na boca do sapo

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Prefiro meu nome na boca do sapo Quando acabou o primeiro turno das eleições de 2022, a primeira coisa que fiz foi colocar aquele mantra do Juliano Maderada, “tá na hora do Jair já ir embora”, no talo, um volume altíssimo, eu cantando aos gritos mais alto ainda, que era pra trazer as energias necessárias. Ok. No dia seguinte, minha vizinha, uma senhora que me ajuda inclusive cuidando do meu gato quando viajo, bateu aqui em casa pedindo pra falar comigo sobre um assunto um pouco chato, mas a ideia era me ajudar a ver as coisas como elas realmente são. Fiquei curiosa.  Publicidade Ela perguntou por que eu tava feliz com o segundo turno, o que eu pensava sobre o Bolsonaro; eu descambei o básico, ignorante, ladrão, genocida, desgraçado, preconceituoso, mau caráter, genocida, filho da puta, genocida, genocida, genocida, foram essas as palavras. Ela ouviu tudo pacientemente e depois começou a me dizer que isso não era correto. O grande problema é o Lula, me disse ela. O pai dela, que era um homem muito sábio, e agora já falecido, entendia tudo de política e alertou, lááá atrás, na primeira candidatura do Lula, que este homem era um mentiroso e muito bem articulado. Que ele vendia essa coisa de implantar o comunismo no Brasil, o que já seria um horror, pra enganar as pessoas de pouco conhecimento, pois na verdade ele sim é que é o genocida, e o que ele vai fazer é implantar o NAZISMO no Brasil. O pai dela era alemão da Alemanha, ela mesma nasceu na Alemanha e veio criança pro Brasil, então o pai sabia do que falava. Bolsonaro estava aí pra salvar nossa liberdade, ao que perguntei “Mas qual liberdade exatamente?” – ela respondeu a liberdade, a nossa liberdade, a liberdade que temos. E gesticulava e ficava nervosa. Perguntei como era essa coisa de implantar o nazismo, ela afirmou que Lula é o novo Hitler, perguntei se era o combo completo, matar judeu, preto, gay, deficiente, ela afirmou que EXATAMENTE isso, eu perguntei por quê, ela disse que porque o Lula é um louco, igualzinho ao Hitler, o pai dela já tinha analisado isso há muito tempo e era impressionante como o Lula tinha o poder de enganar as pessoas se fingindo de boa pessoa, que no início ele até poderia fazer algumas intervenções até que boas, mas tudo sempre pra nos enganar. Interessante. A loucura de fato é interessante. Nunca me aprofundei muito na psicologia, nunca me interessou muito, mas juro que queria ser um neurônio dela naquele momento, estar dentro da cabeça dela só pra entender qual sinapse rola ali dentro que resulta num troço desses, não era possível. Acho que seria uma experiência no mínimo psicodélica, eu lá na Terra plana chamando o Lula de Führer, bem loka rezando pro pneu e pedindo pra tomar cacetada de milico, já pensaste?  Talvez alguém pudesse me dizer pra não dar bola, que é só uma vizinha louca, mas uma boa parcela da população foi quebrar Brasília. Vi um vídeo […]

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Quando acabou o primeiro turno das eleições de 2022, a primeira coisa que fiz foi colocar aquele mantra do Juliano Maderada, “tá na hora do Jair já ir embora”, no talo, um volume altíssimo, eu cantando aos gritos mais alto ainda, que era pra trazer as energias necessárias. Ok. No dia seguinte, minha vizinha, uma senhora que me ajuda inclusive cuidando do meu gato quando viajo, bateu aqui em casa pedindo pra falar comigo sobre um assunto um pouco chato, mas a ideia era me ajudar a ver as coisas como elas realmente são. Fiquei curiosa.  Publicidade Ela perguntou por que eu tava feliz com o segundo turno, o que eu pensava sobre o Bolsonaro; eu descambei o básico, ignorante, ladrão, genocida, desgraçado, preconceituoso, mau caráter, genocida, filho da puta, genocida, genocida, genocida, foram essas as palavras. Ela ouviu tudo pacientemente e depois começou a me dizer que isso não era correto. O grande problema é o Lula, me disse ela. O pai dela, que era um homem muito sábio, e agora já falecido, entendia tudo de política e alertou, lááá atrás, na primeira candidatura do Lula, que este homem era um mentiroso e muito bem articulado. Que ele vendia essa coisa de implantar o comunismo no Brasil, o que já seria um horror, pra enganar as pessoas de pouco conhecimento, pois na verdade ele sim é que é o genocida, e o que ele vai fazer é implantar o NAZISMO no Brasil. O pai dela era alemão da Alemanha, ela mesma nasceu na Alemanha e veio criança pro Brasil, então o pai sabia do que falava. Bolsonaro estava aí pra salvar nossa liberdade, ao que perguntei “Mas qual liberdade exatamente?” – ela respondeu a liberdade, a nossa liberdade, a liberdade que temos. E gesticulava e ficava nervosa. Perguntei como era essa coisa de implantar o nazismo, ela afirmou que Lula é o novo Hitler, perguntei se era o combo completo, matar judeu, preto, gay, deficiente, ela afirmou que EXATAMENTE isso, eu perguntei por quê, ela disse que porque o Lula é um louco, igualzinho ao Hitler, o pai dela já tinha analisado isso há muito tempo e era impressionante como o Lula tinha o poder de enganar as pessoas se fingindo de boa pessoa, que no início ele até poderia fazer algumas intervenções até que boas, mas tudo sempre pra nos enganar. Interessante. A loucura de fato é interessante. Nunca me aprofundei muito na psicologia, nunca me interessou muito, mas juro que queria ser um neurônio dela naquele momento, estar dentro da cabeça dela só pra entender qual sinapse rola ali dentro que resulta num troço desses, não era possível. Acho que seria uma experiência no mínimo psicodélica, eu lá na Terra plana chamando o Lula de Führer, bem loka rezando pro pneu e pedindo pra tomar cacetada de milico, já pensaste?  Talvez alguém pudesse me dizer pra não dar bola, que é só uma vizinha louca, mas uma boa parcela da população foi quebrar Brasília. Vi um vídeo […]

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