Crônica, José Falero

Sweet Child O’ Mine: última parte

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Sweet Child O’ Mine: última parte Receio haver a possibilidade de eu ter cometido uma injustiça na semana passada. Fiz questão de narrar como me senti excluído e menosprezado pelos roqueiros que o Maickel conheceu no terceiro ano da oficina de música ministrada no falecido Centro Cultural da Lomba do Pinheiro, mas não empreendi qualquer esforço para por o leitor a par de duas coisas que certamente teriam acrescentado profundidade ao caso. Tudo o que posso dizer, em autodefesa, é que tais coisas talvez não viessem ao caso naquele momento. Bom, agora, vêm. Eis aqui a primeira delas: se por um lado me parecia que aqueles roqueiros não tinham boa vontade comigo, por outro lado devo confessar que eu não me sentia lá muito melhor acolhido por outras tribos. Nem mesmo pelo pessoal do samba. Uma coisa que as pessoas tinham em comum naquele tempo, fossem roqueiras ou fossem pagodeiras, fossem funkeiras ou fossem regueiras, fossem o que fossem, era uma inexplicável tendência a me tratar mal. Às vezes eu tinha a impressão de que um diabinho invisível ficava açulando todo e qualquer vivente contra mim, até o momento em que a criatura, por fim persuadida, me olhava de um jeito diferente, assumindo ares de maldade misturada com deboche, quase como se pensasse “bom, não tem nada melhor pra fazer, então vou cagar em cima deste aqui”. Mas, enfim, esse tipo de coisa já não acontece há um bom tempo. Hoje em dia as pessoas já não têm qualquer tendência a me tratar mal. E nem poderiam mesmo ter. Afinal, estou… curado, digamos assim. Parei com isso de ficar supondo que as pessoas têm tendência a me tratar mal. O que me leva à segunda coisa da qual quero por o leitor a par: talvez aqueles roqueiros realmente tenham me excluído e me menosprezado, talvez não. Quem pode saber? Não ouso considerar evidente a diferença entre os eventos que de fato ocorrem e os que eu meramente imagino. Tudo me parece possível — e não mais do que possível. É possível, inclusive, que neste momento eu seja um escritor, que neste momento eu escreva para uma revista digital chamada Parêntese, que neste momento eu esteja contando o final de uma certa história. Uma certa história que, sem mais delongas, prossegue — ou não — assim: Um dia, talvez compadecido do meu isolamento crescente e do meu estado de espírito lamentável, o Maickel me convidou para ir ao show da banda que ele e os outros roqueiros tinham formado havia já alguns meses. A entrada era paga, mas, se eu quisesse, ele podia me conseguir uma cortesia. — Caralho! Cês têm uma banda! Desnecessário dizer que aceitei prontamente o convite. Imaginei que aquela talvez fosse a porta de entrada para todo um universo onde as pessoas me convidassem para fazer coisas, onde as pessoas fossem comigo a lugares, onde as pessoas gostassem da minha companhia. E as circunstâncias pareciam mesmo corroborar as minhas previsões: para pegar o ingresso, tive que acompanhar o Maickel até a Serra¹, onde […]

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Receio haver a possibilidade de eu ter cometido uma injustiça na semana passada. Fiz questão de narrar como me senti excluído e menosprezado pelos roqueiros que o Maickel conheceu no terceiro ano da oficina de música ministrada no falecido Centro Cultural da Lomba do Pinheiro, mas não empreendi qualquer esforço para por o leitor a par de duas coisas que certamente teriam acrescentado profundidade ao caso. Tudo o que posso dizer, em autodefesa, é que tais coisas talvez não viessem ao caso naquele momento. Bom, agora, vêm. Eis aqui a primeira delas: se por um lado me parecia que aqueles roqueiros não tinham boa vontade comigo, por outro lado devo confessar que eu não me sentia lá muito melhor acolhido por outras tribos. Nem mesmo pelo pessoal do samba. Uma coisa que as pessoas tinham em comum naquele tempo, fossem roqueiras ou fossem pagodeiras, fossem funkeiras ou fossem regueiras, fossem o que fossem, era uma inexplicável tendência a me tratar mal. Às vezes eu tinha a impressão de que um diabinho invisível ficava açulando todo e qualquer vivente contra mim, até o momento em que a criatura, por fim persuadida, me olhava de um jeito diferente, assumindo ares de maldade misturada com deboche, quase como se pensasse “bom, não tem nada melhor pra fazer, então vou cagar em cima deste aqui”. Mas, enfim, esse tipo de coisa já não acontece há um bom tempo. Hoje em dia as pessoas já não têm qualquer tendência a me tratar mal. E nem poderiam mesmo ter. Afinal, estou… curado, digamos assim. Parei com isso de ficar supondo que as pessoas têm tendência a me tratar mal. O que me leva à segunda coisa da qual quero por o leitor a par: talvez aqueles roqueiros realmente tenham me excluído e me menosprezado, talvez não. Quem pode saber? Não ouso considerar evidente a diferença entre os eventos que de fato ocorrem e os que eu meramente imagino. Tudo me parece possível — e não mais do que possível. É possível, inclusive, que neste momento eu seja um escritor, que neste momento eu escreva para uma revista digital chamada Parêntese, que neste momento eu esteja contando o final de uma certa história. Uma certa história que, sem mais delongas, prossegue — ou não — assim: Um dia, talvez compadecido do meu isolamento crescente e do meu estado de espírito lamentável, o Maickel me convidou para ir ao show da banda que ele e os outros roqueiros tinham formado havia já alguns meses. A entrada era paga, mas, se eu quisesse, ele podia me conseguir uma cortesia. — Caralho! Cês têm uma banda! Desnecessário dizer que aceitei prontamente o convite. Imaginei que aquela talvez fosse a porta de entrada para todo um universo onde as pessoas me convidassem para fazer coisas, onde as pessoas fossem comigo a lugares, onde as pessoas gostassem da minha companhia. E as circunstâncias pareciam mesmo corroborar as minhas previsões: para pegar o ingresso, tive que acompanhar o Maickel até a Serra¹, onde […]

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