Ensaio

Becos da cidade

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Becos da cidade

Mapas são conhecidos por nos ajudar a situarmo-nos no espaço, mas eles também servem para situarmo-nos no tempo. Quando fui atrás de juntar os fragmentos da antiga paisagem de Porto Alegre, ou seja, antes da abertura das grandes avenidas do seu centro histórico como o conhecemos hoje, os mapas se revelaram generosos guias para essa viagem no tempo. Afinal, para entender como eram os numerosos becos da cidade, era também preciso localizá-los na malha traçada pelo Capitão Montanha, quando do seu primeiro gesto de ordenar o espaço, ainda no século XVIII. 

E foi nessa forma de organizar o território, típica das colônias portuguesas, que os becos surgiram: enquanto as ruas principais caminhavam ao longo do promontório em que o núcleo urbano se formou, aproveitando declividades mais suaves, as travessas que as conectavam, subindo e descendo a ladeira, deram origem aos becos. Por seus percursos mais acidentados e por sua posição mais secundária na hierarquia do traçado urbano, os becos tornaram-se os espaços dos mais pobres e de suas sociabilidades, assim como de sua estigmatização. 

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Seus nomes remetem ao tempo de uma cidade muito pequena, em que todos se conheciam, e em que marcos singelos da paisagem davam nome ao espaço. Assim surgiram nomes de becos como o do Pedro Mandinga, o do Freitas, o do Poço, o do Jogo da Bola, o da Fonte e o da Garapa, para citar os mais conhecidos. Pois, assim como essas ruazinhas secundárias eram chamadas de becos, também becos eram os cortiços e as fileiras de casinhas espremidas entre um casarão e outro até nas ruas principais. 

É por isso que esse mapa, montado por mim (veja aqui em alta resolução), é intitulado “Porto Alegre e [alguns de] seus becos”, sinalizando que os que conhecemos hoje são apenas uma parte desses espaços da memória urbana que chega até nós. Ainda assim, ele mostra que a Porto Alegre de mais de cem anos atrás era entremeada de espaços pobres, negros, e imigrantes entre a pujança da rua da Praia e a solenidade da rua Duque de Caxias. Com isso, espero que desperte um novo olhar no transeunte de nossas ruas, fazendo com que percorra a cidade de hoje com a memória da cidade de ontem. 

Abril de 2023

Ana Luiza Koehler – Autora de Beco do Rosário (editora Veneta), quadrinhos; Mestra pelo PROPUR-UFRGS (2015) e Doutoranda no PPGAV (IA-UFRGS). 

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