Ensaios Fotográficos

Cicatrizes do abandono

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Cicatrizes do abandono
Do silêncio da morte se escuta uma vida

Pra que essas fotografias? Vai sair em algum jornal? Ótimo, minha cara não pode aparecer em jornal. Pega um café e um pastel de carne, se encontrar um jornal de hoje também aceito, este aqui é de anteontem. Como é teu nome? Pois é, Luís, quanto mais velho a gente fica, cada inverno parece maior que o outro. Pelo menos pra nós que vivemos na rua. Não tenho medo de nada, já tive. Vim pra rua com vinte e um anos, tu vê, estou com cinquenta e quatro. Antes que me esqueça, meu pai era, quer dizer, acho que ainda é, fotógrafo. Ele tinha um laboratório em casa, revelava as próprias fotografias, eu gostava de ficar lá dentro com ele, aquela luz vermelha, as fotografias penduradas para secar. Tudo ele me explicava. Que paciência! Ele fazia cada coisa para não perder uma foto…Tu também deve ser assim, pode fotografar à vontade, mas…nada de jornal.

Eu te falava do medo. Sou filho único, era superprotegido, até vir pra rua, vinte e um anos e me tratavam feito boneco de vidro fino. Por quê? Naquela época eu estudava História e me apaixonei por uma colega. Um dia cheiramos cocaína juntos. E assim andamos durante um ano e meio. Ela morreu e eu pirei, Luís. Estive em clínicas, não adiantou, preferi a rua a ter que conviver com a vergonha estampada no rosto dos meus pais. Isso ocorreu no dia em que roubei a carteira dele. Quando me dei conta do tamanho da besteira percebi que nunca mais poderia encará-lo. Aqui estou. Aqui estamos. Conheci a cachaça e me mantive anestesiado por um bom tempo. Agora estou conformado. De vez em quando recorro à minha companheira infalível. Mas eu te falava do medo. Assim que cheguei à rua eu tinha medo, é a proteção exagerada que cria essa praga. Tu sabe que o medo não existe, é criado com tempo determinado e finalidade específica. Um bagulho tipo Papai Noel, só que bem pior. Geralmente é pra te subjugar. Infelizmente tem gente que acredita a vida inteira.

Quem me ajudou foi o Jorge, o Jorge da Dora. Se tu chegar ali na Redenção e perguntar pelo Jorge da Dora todo mundo vai saber de quem se trata. Ela já morreu, era uma bruxa, conhecia essas coisas que a gente não acredita. Convivi com o casal por mais de ano, não me protegiam, me ensinavam. Na minha primeira noite, levaram tudo que eu tinha, duas mochilas, enquanto eu dormia. O guarda do posto de gasolina viu, conhecia o ladrão, vivia aqui junto conosco; foi atrás e recuperou tudo. Foi ele que me apresentou o Jorge e a Dora.

– Nestes dois tu pode confiar, não fique sozinho, pelo menos enquanto não entender bem como funcionam as coisas por aqui.

Durante uns vinte dias continuei afastado de todos, no meio das árvores, apavorado. Não conseguia dormir à noite,  só pegava no sono quando o sol acordava. Não comia nada, emagreci muito. Um dia a Dora veio falar comigo. Depois de um lenga lenga de apresentação…

– Está com sono?

– Um pouco.

– Precisa dormir, essa noite passei por aqui e tu estava acordado, inquieto.

– Não te vi.

– À noite ninguém me vê. Tu não dorme porque tem medo, está na tua cara. Qual o teu maior medo?

– As almas penadas, desde criança me falavam das almas penadas, e essa escuridão, o barulho dessas árvores, sei que estão me olhando.

– Presta atenção: alma penada não se mostra pra covarde. Alma penada é invenção de certas pessoas com medo de viver o que sentem. Tu precisa de um cachorro, se tu puxar assunto, em seguida ele conversará contigo. É na conversa que se espanta toda fraqueza. Vai por mim. O medo da morte cria absurdos, entre eles as almas penadas. Tu lembra de alguém que já morreu, alguém importante pra ti? Pois é, do silêncio da morte se escuta uma vida, escuta pra sempre. É ou não é? É preciso pensar na morte. Não digo pensar nessas coisas, voltar, vida após a morte, isso é egoísmo. Pensar em algo além do corpo. Agora, já! Está me entendendo? Tem a ver com as emoções, emoções verdadeiras, é preciso esquecer as drogas. Falo de emoção sem ilusão. Claro, mesmo vivendo na rua. Teus pezinhos te trouxeram ou alguém te jogou aqui? Agora é contigo. Está cansado? Chegaste ontem. Aqui não existe cansaço, não temos esse direito. Existem várias formas de lutar pela vida, algumas permitem pausas, a nossa não nos dá esse direito. Espera aqui que vou buscar o teu cachorro, pensa num nome. Aqui ó, e o nome? Miro? Gostei.    

Daquele momento em diante não senti mais medo. Claro que conversava com o Miro, de noite ele dormia encostado em mim. Morreu com quinze anos, depois dele tive o Silva, bem preto, tinha dezessete anos quando morreu. Agora tenho o Edgar e o Valmor, ainda não completaram um ano. Fotografa eles.

Cara, tu não vai acreditar, mas eu sinto a Dora junto comigo, cara, que loucura! Isso mesmo, ela falou no sentir. Sabe de uma coisa? Eu acredito em alma, mas sem essa de alma penada. Eu sinto. E eu acredito nos meus sentimentos. Cara, tu é muito louco, ficar aí sentado no chão, conversando comigo, estou todo sujo, fedendo, se bobear até piolho estou carregando, e tu com esse cabelão, fica aí. Nunca esqueci a frase, do silêncio da morte se escuta uma vida. O mais importante é escutar enquanto vive, não te parece? Tenho pensado muito nisso. Conversando contigo tive uma ideia:  vou procurar meu pai, sinto que ele está vivo. Eu acredito nos meus sentimentos. Tu vem comigo? 

Luíz(s) Horácio



















O projeto Moradores de rua e seus cães (MRSC) iniciou em 2012 em São Paulo quando o fotógrafo Edu Leporo teve a curiosidade de saber como viveriam os cães e seus donos que habitavam as ruas daquela cidade. Ele foi a campo, fotografou, entrevistou e conheceu inúmeras histórias. Nasceram daí livro e exposição e, em 2015, o projeto social, que logo alcançou outras cidades no Brasil e, desde agosto, está também em Porto Alegre. O objetivo do projeto é amenizar o sofrimento dos moradores de rua e seus cães. Recentemente, na capital gaúcha, foi recebida a doação de uma tonelada de ração Birbo. O projeto sobrevive por meio de doações e vendas de camisetas, bonés e moletons, e cada peça vendida corresponde a uma igual doada a moradores de rua.


Luíz Horácio é escritor e fotógrafo. Tem seis livros publicados, entre eles Perciliana e o pássaro com alma de cão, Thelma e Doralina, uma tardia declaração de amor. Realizou exposições fotográficas no Museu Arthur Guarisse e no Centro Cultural da UFRGS. Coordena, em Porto Alegre, o projeto social Moradores de rua e seus cães. 

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