Ensaios Fotográficos

Respirar

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Respirar

Durante a pandemia, tenho caminhado pela cidade para fotografar. No inverno era mais confortável o uso da máscara, a respiração fluía e ela até ajudava a proteger do vento e do frio. Com o calor, caminhar na rua com a face coberta se tornou bem desconfortável, sufocante até. Você puxa o ar e ele não vem.

Para quem sofre de rinite alérgica, como eu, a situação é ainda pior. Qualquer espirro – e eles estão sempre presentes, independente da temperatura do dia –, umedece a máscara por dentro. E um espirro nunca vem sozinho, é uma sequência natural de três a dez. Além da poeira das ruas de Porto Alegre e da fumaça dos motores dos carros, a polinização das flores, que se intensifica a partir de setembro, também contribui para a síndrome alérgica. Para agravar, tenho um acentuado desvio do septo nasal, que deveria corrigir com cirurgia mas nunca me encorajei.

Com a sequência dos espirros, a narina direita fecha completamente e o esforço da respiração se concentra apenas na narina esquerda (ainda bem que é essa a me salvar). Abro a boca para compensar a necessidade de ar, mas o tecido da máscara dificulta. A coceira nasal também acompanha as crises, e caminho mexendo na máscara o tempo todo. Quem passa por mim na rua se assusta e se afasta. E me olha como se eu estivesse infectado pelo vírus.

Certo dia, não aguentei e baixei a máscara para dar um espirro, não lembro se era o oitavo ou o nono daquela série. Não havia ninguém por perto na calçada, e só por isso agi assim. Mas, de forma instantânea, surgiu uma senhora para me chamar a atenção, e fiquei bem constrangido.

O ensaio que apresento é o resultado de grande persistência, esforço, e da paixão pela fotografia. Nunca antes o verbo respirar foi tão significante.

Use a máscara o tempo todo, mesmo com rinite!

(todas as fotografias foram produzidas durante o ano de 2020 em Porto Alegre, com exceção da primeira que abre o ensaio, realizada em Montevidéu, e que foi premiada com Menção Honrosa no Brasília Photo Show 2020)

Flávio Wild é designer, fotógrafo e “rinítico” . Autor do livro Silêncio em Siena (7Letras, 2010). 

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