Entrevista

A companheira de Cassandra Rios: uma entrevista (póstuma)

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A companheira de Cassandra Rios: uma entrevista (póstuma) Cassandra Rios com Pabla, à esquerda. (Foto de Wilson Chumbo em reportagem da Revista Manchete - 20/09/1980)

Pabla, a companheira de Cassandra Rios, contou a Jandiro Koch em 2013 como a autora foi perseguida por conta do preconceito e acabou censurada pela ditadura.

Esta é uma história triste. E uma história alegre.  Considero-me um dos maiores colecionadores de materiais diversos sobre a escritora Cassandra Rios (1932-2002). Acervo que teve seu início muito antes de os acadêmicos voltarem a atenção para ela, e que inclui edições dos livros, revistas, artigos em jornais, textos inéditos, fotografias e por aí vai.

Entre as décadas de 1950 e 1980, ela foi sucesso de vendagens. Depois continuou em alta circulação, até hoje, nos sebos. Tanto lésbicas, gays e travestis, motes de seu trabalho, quanto heterossexuais, estes, na maioria das vezes, atrás de literatura picante, foram ávidos consumidores. Isso nas metrópoles e nas cidadezinhas. Incluindo o interior gaúcho, já que aqui estamos. Em Estrela, por exemplo, conforme relatou uma antiga bibliotecária, seus tomos eram bastante retirados.

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Quando, há anos, na tentativa de reunir o catálogo, garimpei pelos sebos de Porto Alegre, fiquei conhecido entre os livreiros. Alguns pareciam constrangidos, recorrendo a imbróglios discursivos como “ele quer os livros daquela autora policial”. Como esse negócio pega, eu ficava meio envergonhado em comprar.

Nas entrevistas, ela reiterava uma explicação controversa de que Odette, seu nome de batismo, era uma pessoa, enquanto Cassandra Rios, com o qual assinava os escritos, era outra. Conversa tortuosa, provavelmente arquitetada para driblar a Censura, que andava no seu pé dia e noite – praticamente todos os seus títulos foram tirados de circulação. Argumentação que pode ter funcionado, porque não são raros os escritores que defendem o distanciamento de obra e biografia como pressuposto de análise. Todavia, no caso Cassandra-Odette, era embuste. Algo facilmente descoberto por leitores mais acurados desvela haver um bocado de autoficção. Nem tudo; nem nada.

De qualquer forma, muito foi repetido que Cassandra não gostava de tratar da vida pessoal. Em específico, ela evitava falar nos relacionamentos amorosos, sempre assunto de interesse dos bisbilhoteiros – entre os quais gente da imprensa liderava. Essa reserva, que dificilmente saberemos se era contingência ou vontade, era uma marca da época entre as lésbicas, ainda mantida por algumas com mais idade. Razão pela qual não é fácil encontrar ex-namoradas que queiram falar – do que bem sabe Hanna Korich, que produziu e dirigiu o documentário Cassandra Rios – a Safo de Perdizes. Esse é o único audiovisual disponível com imagens da autora, resgatadas de uma entrevista com Jô Soares. Filme com ausências de pessoas relevantes que se negaram a aparecer.

Depois de reunir material, passei a tentar contatos com amigos, parentes e pessoas que a tivessem conhecido de alguma forma, obtendo relativo sucesso. Cheguei até Pabla, em 2013, explorando a internet. Mandei-lhe as raras fotos que eu havia encontrado nas pesquisas, imagens dela com Cassandra, em impressos dos anos 1970 e 1980.

Confirmada a identidade. Anos haviam passado e ela, naturalmente, estava diferente. Nas publicações, ela figurava como secretária ou ajudante, outro habitual subterfúgio. Uma morena de belos traços, conforme uma foto publicada na Manchete, revista em que Cassandra foi arroz de festa, diz-se que adorada por Adolpho Bloch (1908-1995), proprietário da publicação. 

Em 2014, fui fazer uma visita. Antes dei um pulo no jazigo de Rios no cemitério em Santo Amaro. Não há sequer indicação do nome, o que dificultou a localização, no que já pensei em dar um jeito. Pedi autorização para colocar uma placa a um dos familiares vivos, pessoa que detém os direitos autorais, o que foi consentido. Intenção que ficou para trás. Depois veio a pandemia e a distância aumentou.

Recebido na casa de um sobrinho de Pabla, conversamos longamente. Gravei a conversa, um bombardeio de perguntas. Voltando ao Sul, levei um mês para ajeitar a vida. Quando reservei um tempo para a transcrição, infelizmente as pilhas haviam vazado. De uma loja que conserta eletrônicos, o gravador foi devolvido – sem sucesso. 

Ainda guardo a famigerada maquininha. Lá dentro, em algum lugar, as risadas, as revelações. Essa história rendeu muito nariz torcido, porque, quando algum estudante interessado em pesquisar Cassandra me alcança, geralmente acredita que estou escondendo o jogo – tretas do submundo acadêmico, onde existem disputas, nichos e por aí vai. Mas foi fato, incômodo que me volta de tempos em tempos: o Sony escangalhou.

Mas tem uma parte boa. Em 2013, antes da ida às terras paulistanas, enviei um rol de perguntas, que Pabla gentilmente respondeu com um manuscrito em papel almaço. Seu nome real era Vera, escrevia muito bem, algo constatado em um primeiro capítulo de uma biografia romanceada, que não foi adiante, na qual ela pretendia contar suas experiências ao lado de Cassandra. 

Conservo esse documento, entrevista por correspondência, que, se rasa, o deve ao entrevistador no modo juvenil. Segue na íntegra: 

Parêntese – Quando você conheceu Cassandra Rios? Qual o período de convivência?

Pabla – Eu a conheci em 21 de abril de 1974, em um coquetel de uma amiga em comum. O período de convivência foi de 13 anos.

P – Durante esse período, chegou a acompanhar os processos judiciais por conta da censura aos livros?

Pabla – Quando a conheci muitas de suas obras ainda estavam proibidas. Mas ela sempre quis me poupar de seus problemas com a censura.

P – Cassandra Rios era representada por algum advogado ou as questões era de alçada das editoras?

Pabla – Na época que a conheci, Cassandra era da Editora Record, e pelo fato de ser a escritora brasileira que mais vendia livros no Brasil e em Portugal, Cassandra contava com todo o apoio da editora, inclusive juridicamente.

P – Esses processos renderam alguma prisão, alguma tortura? Como Cassandra reagia emocionalmente?

Pabla – Cassandra ficou detida, 21 horas de pé, por causa de uma poesia chamada “Prisão da Liberdade”. Ela comentava sobre isso e ria dizendo que eles, na verdade, nem entendiam o que estavam lendo.

P – A literatura era a única fonte de renda? Como fazia para sobreviver com a maioria dos livros censurados?

Pabla – Era a única fonte de renda da Cassandra – a literatura. No auge da censura ela começou a editar para a Global Editora com o nome de estrangeiro, como homem, americano e hétero. Logo os seus romances se tornaram os mais vendidos pela Global – isso provando que ela era uma romancista excelente, exótica, sim, mas não pornográfica como, às vezes, era taxada.

P – Como os familiares reagiam? E os amigos?

Pabla – A família da Cassandra a apoiava muito. Sua mãe sempre se abatia muito com a perseguição que faziam com Cassandra. Houve muita gente que se afastou dela nos momentos difíceis. 

P – A temática das obras era ficcional, autobiográfica ou baseada em fatos reais?

Pabla – Cassandra conseguia mesclar ficção com realidade, muitas de suas obras foram feitas assim. Ela lia pra mim todos os capítulos assim que escrevia – menos os mais picantes. Li da Cassandra Canção das Ninfas, um livro lindo de poesia, aos meus 18 anos, e nem imaginava que um dia iria conhecê-la – aos 22 anos.

P – Cassandra era assediada pela mídia, não? Quais eram as intenções da imprensa?

Pabla – Cassandra era muito procurada pela mídia por ser uma mulher forte e polêmica, segura de si. Seu tipo físico e a maneira de vestir-se chamavam também a atenção. Cassandra foi sempre muito invejada por muitos escritores que, apesar de serem respeitados pela mídia, não vendiam 5% do que vendiam Cassandra e Jorge Amado. Muitos famosos conheci ao lado de Cassandra – e mostravam por ela muito respeito e carinho. Como Roberto Carlos, Ronnie Von – e outros.

P – Ela se sentia rejeitada pelos intelectuais da época?

Pabla – Ela nunca se sentiu rejeitada, pelo contrário, muitos queriam se acercar a ela para aparecer, ela era arisca e fugia de gente assim.

P – Onde ela residia?

Pabla – Na época em que a conheci, ela morava na Cesário Motta Júnior, no centro de São Paulo, mas mantinha a casa para a sua família no bairro Perdizes. Cassandra era, sem dúvida, dito pelos editores, a escritora que mais recebia direitos autorais.

P – A homossexualidade feminina era assunto comentado? Ela apresentava namoradas?

Pabla – Cassandra comentava muito pouco sobre a sexualidade, não cheguei a conhecer nenhuma namorada dela, ela era muito discreta.

P – Alguma manifestação política? Como foi o período em que ela se candidatou a deputada?

Pabla – Cassandra fugia de política até que eu, como sua empresária, sendo eu militante do PDT, lancei seu nome como deputada estadual em 1982. Ela não gostava de política, brigamos muito por isso, mas [ela] tinha grande respeito e admiração por Ademar de Barros Filho.

P – Ela chegou a casar com um rapaz? Ela comentou sobre isso?

Pabla – Cassandra se casou com um amigo seu para satisfazer a família e a sociedade. Tudo de sua vida passada, Cassandra comentava comigo.

P – Era religiosa?

Pabla – Cassandra era mística – mas confiava muito em Deus.

P – Além de escrever, ela gostava de ler outros autores?

Pabla – Cassandra era uma devoradora de livros. Adorava ler. Peguei gosto pela leitura através de Cassandra.

P – O que mais precisa ser dito?

Pabla – Cassandra era uma pessoa maravilhosa, humana, educada, gentil, era uma romântica. Nós ríamos muito de pessoas que se aproximavam dela com superioridade, e depois se caíam [sic] de tanto dar em cima dela. Vi artistas, senhoras socialites, casadas, tentando flertar com ela descaradamente, [momentos em que…] ela nem parecia a escritora e, sim, uma pessoa tímida, por incrível que pareça. Vivíamos muito bem dentro de um mundo onde [a] poucas pessoas era permitido entrar. Quando terminamos nosso relacionamento, fui embora para a Europa, retornando para o Brasil em 2000, mas, nas viagens de visita à família aqui, de seis em seis meses, sempre jantávamos juntas e colocávamos as fofocas em dia. Cassandra foi uma pessoa muito querida e importante em minha vida.

Vitimada por um câncer, Cassandra pereceu em 2002. Na literatura, decerto, ela aparece numa encruzilhada diante do cânone, que mal sabe como lidar com nomes idiossincráticos como Qorpo Santo (1829-1883), Maria Carolina de Jesus (1914-1977) e o dela. Para o mundo pé no chão, para o grupo LGBTQIA +, o que ela representou é imensurável. 

Pabla, por sua vez, parte constituinte daquela vivência, provavelmente integrante de vários textos em autoficção – como ela me contou -, manteve relacionamentos com homens, teve um filho, que chegou a conviver com Cassandra, viajou para a Europa, voltou – e, em 2019, faleceu em um acidente de carro, no Paraná. 

Um salve para as grandes!

CURIOSIDADES:

FILMES – Cassandra teve 5 livros vendidos para produção cinematográfica. Três deles são conhecidos. Ariella (1980); A Mulher Serpente e a Flor (1984) e Tessa, a Gata (1982). O último aparentemente não tem mais cópias disponíveis.

PSEUDÔNIMO – Nos livretos em que utilizou pseudônimos como Oliver River’s, sucesso de vendagens, que escaparam à censura, Cassandra aproveitou para debochar dos censores. Oculta pela alcunha masculina, geralmente à introdução, como em Valéria, a freira nua, Oliver/Cassandra escreveu coisas do tipo: “[…] meus deliciosos cigarros eram consumidos por quase toda a população, mas fecharam-me a fábrica e levaram-me quase à falência […]. Então passei a vender apenas a nicotina que extraio dos meus cigarros.” É uma evidente descrição da censura aos seus livros, assinados como Cassandra, por sempre ser acusada de pornografia. Ludibriando os arautos da moralidade, sucesso de vendagem com o pseudônimo masculino, agora usando, sim, a pornografia, ironizou: “Isto é um palavrão e uma banana pro mundo!”

POLÍTICA – A candidatura de Cassandra, pelo PDT, foi deixada de lado, provavelmente por desconhecimento de quem tentou verificar a trajetória de candidatos LGBTQIA+ na história do Brasil. Talvez porque os pesquisadores tenham se concentrado na premissa de que nada ocorrera fora das siglas mais à esquerda, especialmente do PT e do PSOL. Cassandra não se elegeu. De momento, pensar no resultado como rejeição popular por discriminação ou cogitar má administração da campanha não passa de hipótese sem fundamentação material. Ademar de Barros Filho (1929-2014) era do MDB, pelo qual se elegeu deputado, em 1966, depois passou para a Arena. Ele entrou para a política depois que o mandato político do seu pai foi cassado, resultando no exílio do país durante o Regime Militar.

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