Entrevista

Cha Dafol – Notas de repúdio aos rótulos

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Cha Dafol – Notas de repúdio aos rótulos (Foto: Annekatrin Fahlke)

Cha Dafol nasceu na França, mas isso é apenas uma das tantas coisas sobre sua identidade. Artista que transita entre música, cinema, fotografia e literatura vive em Porto Alegre desde 2013

Conheci Cha Dafol quando vi seu nome nos créditos do documentário De olhos abertos, que dá voz a integrantes do jornal Boca de Rua. Acompanho a publicação há anos, tenho dezenas de exemplares guardados, passava o curta sobre o projeto na sala de aula quando era professora. Queria que os futuros jornalistas valorizassem esse trabalho feito há 20 anos por pessoas em situação de rua em Porto Alegre. Me chamou a atenção o longa ter sido dirigido por alguém que veio da França, e quando pensamos em pautas para esse especial sobre estrangeiro e estrangeirismos, fui atrás de Cha.

Antes de marcar a entrevista, pesquisei um pouco sobre sua história. Percebi que Cha é muito maior do que o filme que dirigiu ou do que seu passaporte. Ou mesmo seu gênero atribuído no nascimento. Ou ainda o ano em que nasceu, 1987, ou seu nome de batismo, Charlotte*. Não que essas informações não importem, como ela mesmo destaca, mas nenhuma é suficiente para defini-la.

Na verdade, estamos diante de uma personalidade única, como qualquer um é. Mas talvez pessoas não-binárias, como Cha, tenham se dedicado mais a refletir sobre quem são e se permitem questionar alguns padrões e expectativas de terceiros, normalmente baseadas em estereótipos – e de estereótipos, estrangeiros estão exaustos. Gays também. Nordestinos, idem. E mulheres. Aliás, existe alguém que goste de ser rotulado?

Uma pessoa não-binária não se sente contemplada pelas definições que cabem nos conceitos de homem ou mulher. Para Cha, mais do que uma lógica para pensar sobre seu gênero, é uma visão de mundo.

Artista de múltiplas habilidades, Cha tem uma banda de música brasileira – a Cha & Queixada –, já lançou um livro e trabalha ainda com audiovisual e fotografia. E faz diversos bicos, como vender frutas em feira orgânica.

É sobre tudo isso que conversamos, nessa entrevista feita por videochamada em julho, poucos dias depois de Cha chegar ao Recife, para uma temporada para “esvaziar a cabeça e ter novas ideias”. O papo é um convite a leitores, leitoras e leitorxs para refletir sobre identidades que não cabem em caixinhas.

Parêntese – O que o fato de ser francesa diz sobre tua identidade hoje?

Cha Dafol – É uma coisa entre muitas outras. Eu não nego que sou da França. Ao mesmo tempo, o francês comum não mora no Brasil (risos). Sempre acho que é muito redutor definir uma pessoa só pelo lugar onde ela nasceu ou seja qual for o parâmetro. Mas realmente tem uns traços de visão de mundo, de educação, que ficam. Não que não se possa absorver outras influências ao longo da vida. Somos um conjunto de tudo que vimos e vivemos.

P – Tua formação básica foi toda na França. O que tu ainda carrega dessa formação? 

[Continua...]

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