Entrevista

Dalva Maria Soares – Doceira e escritora, antropóloga e devota de Carolina

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Dalva Maria Soares – Doceira e escritora, antropóloga e devota de Carolina Dalva Maria Soares (Foto: arquivo pessoal)

A voz da Dalva está toda em seu livro Para diminuir a febre de sentir (editora Venas Abiertas, 2020). Algo do encantamento de suas históricas começa no título mesmo, tão claro sendo meio obscuro, anunciando uma tarefa para a escrita na mesma hora em que menciona a dureza da vida. Mas tem bem mais. 

Tem muito Baldim nas páginas do livro, que é um misto de memória e crônica. A cidade em si é daquelas pequenas comunidades mineiras, próxima a Belo Horizonte mas longe o suficiente para gerar ao mesmo tempo sentimentos de pertença e de distância – inclusão e diferença. 

Mas a voz da Dalva soa em outras alturas também. Tem esse lado de apreço pelo miúdo, cotidiano e interiorano, que se combina com uma trajetória acadêmica notável – um doutorado em Antropologia. A Dalva é uma evidência de que quando se oferecem as condições adequadas a inteligência vem à tona e ilumina. 

E faz pensar: imagina se não tivessem sido cortadas as verbas para as políticas inclusivas de uma década atrás? Ou imagina mais longe: e se o Brasil tivesse providenciado escola para os pobres, em particular para os afrodescendentes? O que teríamos hoje? Como viveríamos hoje? 

A entrevista foi feita por escrito, em maio, e por certo vai ressoar no coração dos leitores. 


Parêntese – Dalva, como andam as geleias? Conta tudo! De que tu fazes? Tem segredo que dê pra contar para leigos em produção de doces? 

Dalva Maria Soares – As geleias vão bem, obrigada. Aprendi uma de maracujá com manga que é divina. Dia desses, fiz também de abacaxi. E como nasceu uma goiabeira na frestinha do muro no meu quintal, que produziu bastante, também fiz de goiaba. Na real, não tem segredo nenhum que o Google ou milhares de perfis de culinária existentes nas redes sociais não resolvam. Atualmente, só não vira master chef quem não quer. 

P – Escritor mineiro é uma gente muito particular, né? Olhando daqui, parece que sempre tem uma ligação entre a cidadezinha mais escondida e menorzinha com o universo. Eu acho que nos teus textos, Baldim é isso, né? Uma microcidade que resume o cosmos. É isso mesmo?

DMS – Parafraseando meu conterrâneo, o velho Rosa, Baldim é minha patriazinha. Mas não foi sempre assim. Durante muito tempo desejei morar na cidade grande. O contato com as teorias antropológicas me fez reaproximar de Baldim. Percebi que o “outro” não necessariamente estava do lado de lá do Atlântico. Às vezes, a alteridade estava do outro lado do muro ou da rua. As manifestações culturais que havia na minha região e que, por muito tempo, achei que eram coisas de gente atrasada, com a Antropologia aprendi que, na realidade, eram cultura, e cultura em profundidade: a folia de reis, as guardas de congado, os autos de natal, a coroação de Nossa Senhora. Além da Antropologia, eu encontrei muito disso na literatura, especialmente na de Guimarães Rosa. Foi um assombro quando descobri que ele falava do meu quintal. Como Miguilim percebeu em relação ao Mutum, eu percebi em relação a Baldim: meu lugar era bonito, daí me reconciliei com minhas origens. As lentes que o doutor, personagem de Campo Geral, ofereceu ao menino, foram as mesmas que Rosa me emprestou para olhar para minha patriazinha. Baldim é o lugar dos meus afetos, do primeiro amor, do primeiro beijo, das primeiras descobertas. E como disse o Cazuza: “O lugar onde a gente nasce, onde a gente é criado… a gente vai ser sempre dali.”

P – Falando em escritores mineiros, dá pra ver o tanto que tu aprecias a Adélia Prado. Sim? Ou sim? Por quê?

DMS – Sim! Foi Adélia quem me despertou para a poesia. A primeira vez que li Bagagem, pirei. Era da minha mãe, das minhas vizinhas, da minha infância, de mim que Adélia falava. Me identifico muito, não só com a poesia, como também com a prosa dela. Somos mulheres, mães de filho, do interior de Minas. São livros que leio e penso: eu gostaria de ter escrito isso. 

Com o filho (Foto: acervo pessoal)

P – E quem mais? Guimarães Rosa, certo? O que ele tem que te agrada?

DMS – Quando descobri Guimarães Rosa abriu-se um portal para mim. A primeira obra que li foi “Miguilim”. Os personagens de Guimarães pareciam com meus vizinhos, minha mãe, meu pai. O cerrado tantas vezes descrito era o meu quintal. Cordisburgo, cidade natal do escritor, não fica tão longe assim de Baldim. Aliás, um de seus personagens, Turíbio Todo, do conto “O duelo”, do livro Sagarana, passa em Baldim e na cidade vizinha, Jequitibá. Eu adoro ostentar isso. Grande Sertão: Veredas é o livro da minha vida. Durante muito tempo iniciava e abandonava a leitura, não conseguindo avançar das 100 primeiras páginas. Até que um dia engrenou e eu fiquei em choque. Tá tudo lá. 

P – Como foi a tua graduação? Como rolou? Em que anos? Em que faculdade? Na tua família, já havia parentes com estudo superior? A tua escolha de área foi tranquila? Tu tinhas outros sonhos, antes?

DMS – A universidade não fazia parte das conversas em casa, até uma de minhas irmãs mais velhas decidir que cursaria o ensino superior. Venho de uma família numerosa: dez filhos. Minha mãe nunca frequentou escola, não foi alfabetizada. Meu pai sabia ler e dominava as quatro operações, mas também não teve acesso à educação formal. Papai, orgulhosamente, se definia como um lavrador. E quando eu reivindicava o título de agricultor, ele protestava: “Não, sou lavrador. Não tenho terra, só sei trabalhar nela”. Morreu sonhando com a reforma agrária. Minha mãe sonhava um futuro diferente para os filhos. O trabalho na roça era muito pesado. Levou um tempo até ela conseguir convencer meu pai a sair da zona rural e ir morar em Baldim. Mamãe queria muito que os filhos estudassem. Dos dez filhos, seis cursaram Universidade pública. Considero uma estatística interessante para um casal de trabalhadores rurais sem terra. Eu só consegui entrar na Universidade aos 25 anos, em 1991. O muro de Berlim estava caindo, a URSS se desmanchando e um sociólogo assumia a presidência do Brasil. A entrada na universidade foi o segundo choque cultural que vivi. O primeiro foi mudar de uma cidadezinha de cerca de sete mil habitantes para a capital. Eu tinha muito medo. A Universidade é um ambiente muito hostil para quem vem de onde eu venho. Fiz todo o curso trabalhando, já era casada na época e foi muito difícil administrar a jornada tripla.

P – Tu tiveste depois uma trajetória de pós-graduação muito bacana, pelo que leio buscando informações no oráculo do nosso tempo, o senhor Google. Foi em Viçosa, não é? Que assunto tu abordaste? Já era um tema ligado ao mundo da cultura popular negra e às mulheres, certo? A pesquisa em si foi interessante?

DMS – Fiz meu mestrado na Universidade Federal de Viçosa. Na pesquisa, busquei compreender o deslocamento das mulheres dos bastidores do Reinado de Nossa Senhora do Rosário para postos mais valorados na hierarquia do ritual. O Reinado, popularmente conhecido como congado, é uma importante manifestação religiosa afro-mineira, tradicionalmente masculina. Durante muito tempo, às mulheres cabiam a preparação da comida, os enfeites, podiam ser rainhas, bandeireiras. A partir da década de 1970, elas começaram a dançar, tocar tambores e a capitanear os grupos. Investiguei uma guarda só de mulheres no bairro Aparecida, em Belo Horizonte. 

P – E o doutorado? Foi na Federal de Santa Catarina, pelo que vi. Mais uma vez teve no centro a vida de mulheres no âmbito da cultura negra brasileira. Conta aí da pesquisa e do resultado.

Sim, fiz o doutorado na Antropologia Social. Durante o trabalho de campo para a dissertação no mestrado, entrevistei várias reinadeiras: rainhas, capitãs, cozinheira. Uma delas, a capitã Pedrina, me impressionou muito, e no doutorado me debrucei sobre a sua trajetória. Durante meses a acompanhei em seu cotidiano religioso. Meu trabalho de campo foi um deslocamento entre giras de Umbanda, saídas de santo no Candomblé, festas de Nossa Senhora do Rosário. Meus informantes foram seres deste e de outros mundos, tais como Pomba-giras, Pretos Velhos, Zé-Pilintras. Foi uma experiência incrível. A capitã Pedrina é uma liderança muito importante. É um misto de mãe de santo, benzedeira, assistente social, psicóloga. Continua um importante legado herdado dos pais, capitão Leonídio e Sá Rainha Ester, não só na cidade de Oliveira/MG, como no estado de Minas e até mesmo fora do país. Capitã Pedrina e seu terno estiveram em Paris como representantes da cultura mineira, em 2005, ano do Brasil na França. 

P – A tua experiência de viver um tempo em Floripa, como foi? Teve surpresas? Era outro Brasil? Teve vivência de racismo, não foi?

DMS – Florianópolis é uma cidade linda, onde a natureza abraça a gente, mas, como os estados do sul do país, é majoritariamente branca e racista. Se eu tinha alguma dúvida em relação a minha cor, ela foi dissipada nos anos que morei na ilha. Acho que era o mesmo Brasil racista de hoje. Meu filho, inclusive, sofreu muito racismo nas duas escolas onde estudou. A sorte é que ele sempre teve a consciência racial muito fortalecida, desde criança. E quando foi chamado de negro, por um gurizinho menor do que ele, respondeu: “Sou sim, com muito orgulho!” Por eu ser uma jovem senhora estudando, por levar meu filho para a sala de aula por não ter com quem deixá-lo, por não conseguir ler em inglês, também sofri racismo e discriminação no doutorado. Penso que hoje, quase 10 anos depois, o ambiente universitário está melhor, muitos coletivos negros e feministas foram criados e tem-se uma preocupação em acolher os diferentes, mas no início dos anos 2000 era ainda muito difícil. 

P – Tu tiveste uma experiência de passar uma temporada na Europa, no meio do doutorado, certo? Onde foi? Como foi? Como é ver o Brasil e Baldim lá de longe?

DMS – Não foi bem “na Europa”, foi só em Lisboa. No começo eu tinha a expectativa que viajaria para vários países, mas o dinheiro da bolsa só dava mesmo para as despesas. Circulamos somente pelos arredores de Lisboa: Cascais, Cintra, Porto, Óbidos, o que já foi incrível. Fiz um estágio doutoral sanduíche na Universidade Nova de Lisboa. Foi uma experiência maravilhosa. Tenho muita gratidão ao povo brasileiro por me bancar, via Capes, durante nove meses em Portugal. Era um período de governo popular que investia em educação. Conheci muitos brasileiros e brasileiras fazendo estágio, doutorado e pós-doutorado por lá. Meu filho teve a oportunidade de cursar um ano letivo em uma escola com mais de vinte nacionalidades diferentes. Penso que essa é uma experiência que todo estudante deveria ter. Lembro que o Programa Ciências sem Fronteiras sofria muitas críticas na época. Os estudantes eram acusados de apenas fazer turismo. Velho, fazer turismo é maravilhoso. Todo mundo deveria ter esse direito. Amplia seu repertório cultural, você cria redes. Além de conhecer um outro sistema educacional diferente do nosso, outras coisas me impressionaram bastante, por exemplo, a sensação de segurança e um transporte público que funciona. Trem, ônibus, metrô e, de quebra, o charme do bonde. Ah, também achava o máximo receber um centavo de troco. Quanto a ver Baldim e o Brasil lá de longe, parafraseio o poeta: o Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. Tem coisas que só temos aqui, nesse Brasil lindo e contraditório.

Em Lisboa. (Foto: arquivo pessoal)

P – E a literatura? Além do teu livro, que é encantador, eu vejo que no facebook tu sempre mencionas leitoras, talvez especialmente senhoras. É isso mesmo? Por quê?

DMS – Meu livrinho é composto de crônicas escritas no período em que estive reclusa em Baldim para escrever a tese. Nos momentos que me sentia travada para a escrita acadêmica, escrevia textões no Facebook sobre o que estava sentindo, voltando a morar em Baldim, depois de tanto tempo de peregrinação por diferentes lugares. Foram cerca de quatro anos escrevendo quase que diariamente. Isso levou à formação de uma rede de leitoras à minha volta. Minhas vizinhas, contemporâneas, amigas da minha mãe. Muitas com pouca experiência de leitura, mas que gostavam do que eu escrevia porque tinha Baldim como cenário, porque conheciam os personagens. Várias batiam no meu portão para compartilhar da alegria de ler os textos. Penso que muita gente não lê porque não se reconhece nos livros. É sempre a narrativa de uma “história única”, como diz a nigeriana Chimamanda: branca, burguesa, masculina. Quando as pessoas se reconhecem na escrita elas se surpreendem e sentem prazer na leitura. 

P – Que planos de escrita estão no teu horizonte agora?
DMS – Planos são muitos, resta conseguir realizá-los. A luta pela sobrevivência, agravada pelos tempos pandêmicos e sem trabalho formal, me rouba um tempo precioso que gostaria de dedicar à escrita. Tenho alguns projetos que me são muito caros, mas, como diz Virginia Woolf, sem um teto todo meu e quinhentas libras fica difícil me dedicar à ficção. Daí, lembro de Carolina Maria de Jesus, de quem sou devota, que além da produção publicada em vida, como o best-seller Quarto de Despejo, deixou cerca de cinco mil páginas manuscritas, seis romances, poesia, peças de teatro. Penso que meu lugar social está mais próximo de Carolina do que de Woolf, uma mulher britânica, europeia, herdeira. E parafraseando Adélia, eu sou é mulher do povo, mãe de filho, periférica, sonhando em escrever ficção. Mas as coisas têm acontecido; devagarinho, mas têm acontecido.

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