Entrevista

“É preciso apreciar os desenhos da vida”

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“É preciso apreciar os desenhos da vida”

Por Julia Simões
Edição: Cláudia Laitano

Conheci a Nazaré, a Naza, em 1998-99, quando comecei a praticar Yoga. Logo descobri que ela estava à frente de um grupo que estudava Vedanta, um corpo de conhecimento que tem como fonte as Upanishads, os diálogos entre professor e aluno encontrados ao fim dos Vedas, as milenares escrituras hindus. Era preciso fazer força para ter acesso à interpretação desses textos na época: a turma, bem pequena, se reunia no início da noite numa sala do centro de Porto Alegre para ouvir fitas K7 enviadas por uma professora carioca que tinha estudado na Índia por muitos anos. Pouco depois, pedi à Naza que me desse aulas de sânscrito. Sempre muito generosa, ela topou me guiar no que sabia – tinha um método surpreendentemente eficaz, também por fitas K7. Nosso laço se formou naqueles anos. Ela me acompanhou, de perto ou de longe, em várias fases da minha vida.

Em 2001, a Naza teve a oportunidade de dar uma base mais sólida a seu percurso como professora de Yoga. Foi para Chennai, na Índia, estudar no prestigioso Krishnamacharya Yoga Mandiram, onde o professor TKV Desikachar (filho e aluno de Krishnamacharya, considerado o pai do Yoga moderno) pela primeira vez ofereceu uma formação continuada para um grupo de não indianos.

Ao longo dos anos, fiquei sabendo que a Naza também tinha se dedicado ao jornalismo e ao teatro, tinha praticado kung-fu, tinha se aproximado do budismo, e que somente depois, mais madura, tinha se dedicado exclusivamente ao ensino de Yoga. Não foi uma surpresa descobrir que vinha de uma família de outras mulheres fortes e determinadas, e que mesmo em meio aos altos e baixos da vida, sempre soube ouvir e acolher os alunos e amigos. Ela é daquelas mulheres sábias, sempre cheia de histórias interessantes para contar, que conquistou a própria liberdade através de um percurso interessantíssimo, do qual compartilho aqui alguns excertos, retirados da entrevista que fiz com ela no dia 18 de outubro de 2020, por Zoom.

Julia da Rosa Simões.

Parêntese – Teus pais são de Porto Alegre? Em que bairro tu cresceste? 

Maria Nazaré Cavalcanti – Minha mãe é de Rio Grande, mas veio muito cedo para Porto Alegre. Meu pai era cearense, de uma família de coronéis, os Holanda Cavalcanti, mas não da parte rica. Estudou Odontologia em Recife, fez um concurso nacional e escolheu vir para o Rio Grande do Sul, onde foi trabalhar no mesmo lugar onde minha mãe trabalhava. Quando casaram, foram morar na Rua Vigário José Inácio. Mais tarde, quando eu tinha dois anos, no final dos anos 1950, compraram uma casa na Rua Euclides da Cunha, no Partenon, onde me criei.  

A mãe e o pai de Naza (acervo pessoal)

P – Onde tu e teus irmãos estudaram?

MNC – Eu estudei os cinco primeiros anos no Instituto Santa Cecília, colégio de freiras. Depois fui pro Colégio Santa Inês. Meus irmãos estudaram no Colégio Rosário. Sempre estudei com freiras. Mas, por conta da minha formação, nunca me senti muito reprimida. Tinha um pouco de pena delas. 

P – Teu pai faleceu cedo, não? Como foi para a família?

MNC – Ele morreu aos 56 anos. Eu tinha 26 anos, e meus irmãos mais moços tinham 17 e 16. A morte do meu pai foi bem triste pra minha mãe, pra todos nós, mas ela já esperava, de alguma forma. A família se uniu muito em torno da minha mãe naquela época, mas eu já não morava com eles. Saí de casa com 19 anos. Aluguei um apartamento no Bom Fim com amigos. A gente mobiliava a casa com caixotes de maçã. Era comum isso. Um colchão no chão, almofadas, lindas mantas. Tinha que ter um toca-discos, fogão, geladeira. O resto eram caixas de maçã. Assim era nos anos 1970. 

P – E tu já estavas na faculdade?

MNC – Sim, eu era uma hippie sustentada pela família. Recebia mesada de uma tia, que também pagou a PUC quando passei em Comunicação. Mas logo comecei a trabalhar. No primeiro ano de faculdade, com 18 anos, trabalhei na assessoria de imprensa na Secretaria Municipal de Educação (SMED). Eu trabalhava numa sala e, na sala ao lado, trabalhavam os outros assessores da secretaria: Irene Brietzke e Ivo Bender. Um dia, meu mimeógrafo estragou e fui imprimir uma matéria na sala deles. Achei aquilo um outro mundo. O que aquelas pessoas diziam… Falavam de tudo! Porque era a época da ditadura, entende? Eles criticavam o sistema. E tentavam fazer o máximo, era uma cultura de resistência total. Fiquei amiga deles, que me adotaram, porque eu era mais moça, uns 10 anos mais moça. Aí foi a felicidade: encontrei o pessoal do teatro e me grudei. Pouco depois, saí de casa. Achei que tinha achado minha vida. Estava trabalhando, já tinha meus amigos, namorado. Então saí.

P – Chegaste a te formar em Comunicação? Quem era tua turma?

MNC – Sim, me formei em Comunicação, fui oradora da turma. Dos famosos, tinha o Caco Barcellos, a Alice Urbim. O grande influenciador da minha trajetória no Jornalismo foi o Carlos Urbim. Ele foi meu professor de redação e foi graças a ele que decidi ser jornalista. Porque, de início, achei que ia ser publicitária. Tinha aquela coisa da criatividade, de que eu gostava muito. E eu gostava muito de teatro, mas não tinha coragem de botar em primeira opção. Então fiz uma conta de chegada: se eu fosse publicitária, realizaria tudo – um pouco de teatro, um pouco de texto. Aí veio o Urbim. Acho que era o primeiro trabalho dele como professor. Mas tinha uma presença muito forte, um amor pelo texto, pelo jornalismo. Eu achava aquilo lindo, daí escolhi o Jornalismo.

P – Chegaste a trabalhar em redação?

MNC – Primeiro trabalhei como assessora de imprensa. Fiz vários estágios. Até que fui admitida como redatora da Folha da Manhã. Entrei como repórter, como todo mundo. Mas um dia o chefe de reportagem, o Carlos Dornelles, que depois foi pra Globo, viu o meu texto e disse: “Ah, guria, tu escreve bem, tu não quer ser redatora? Vou te botar de redatora da Geral”. Imagina ouvir isso! Aí parei de ir para a rua, que eu detestava. Como redatora, foi bárbaro. Trabalhava com o Carlos Urbim, o Carlos Dornelles, a Mary Mezzari, a Maria Lídia Magliani, a Núbia Silveira. O chefe de redação era o Walter Galvani. Bom, isso foi um pouco depois de ter acontecido aquela demissão geral da Folha da Manhã, quando o Ruy Carlos Ostermann era chefe de redação. Tinha censura férrea na época, um censor sentava dentro da redação. Toda aquela geração de grandes jornalistas, que formou a Folha da Manhã, saiu, e muitos foram para o Coojornal. E eu entrei logo depois. Entrei porque era uma foca, estava recém começando. Um dia, a Mary Mezzari não citou numa matéria o nome de um general que veio de Brasília para inaugurar uma obra em Porto Alegre. Na manhã seguinte, chegou para trabalhar e encontrou um bilhete azul em cima da máquina de escrever, dizendo para passar no departamento de pessoal. Foi demitida. Aí, a editoria de Geral inteira se demitiu em solidariedade. Só que fizemos uma reunião, na casa do Urbim, e ele pediu para nós, as duas iniciantes, continuarmos, porque a gente estava no inícion da carreira. Resolvi ficar, com o coração partido. Mas com aquele censor lá dentro, e mais a injustiça que tinham feito com a Mary, não queria mais. Um mês antes de completar um ano na redação, pedi demissão. Não perguntei para ninguém, foi aquela decisão de foro íntimo: não aguento mais nenhum segundo, tchau. 

P – Foi nesse momento que decidiste largar o Jornalismo e começar a estudar Teatro?

MNC – Saí do jornal no final de 1977, acho, e pedi reingresso na UFRGS. Vi que não ia continuar no Jornalismo. Fiquei 10 anos no curso de Teatro, mas não me formei. Minha estreia como atriz foi em 1978, num espetáculo da Irene Brietzke, O Casamento do Pequeno Burguês, de Bertolt Brecht. Foi no DAD que eu conheci a Maria Helena Lopes, diretora de teatro, com quem montamos o Grupo Tear, um grupo razoavelmente conhecido, bem respeitado no meio teatral. A gente viveu um momento muito bonito com o Tear, montamos um espetáculo chamado Os Reis Vagabundos (1982) que é lembrado até hoje. Era um espetáculo visionário. Se tivesse acontecido em São Paulo, acho que teria tido uma repercussão muito maior. Mas aconteceu em Porto Alegre. Era um espetáculo sobre catadores de lixo, sobre o avesso da sociedade, sobre os excluídos. E tudo dentro de uma visão poética e social também. Era muito bonito, muito forte, muito tocante. E a gente fez temporadas pelo Brasil com essa peça: Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, Belo Horizonte, centro do país.  

Divulgando a peça Os reis vagabundos, de 1982: Marco Fronchetti, Naza, Sérgio Lulkin e Clarissa Malheiros. (acervo pessoal)

P – Apesar do sucesso no Tear, acabaste te afastando do teatro. Por quê?

MNC – O trabalho do ator revira as entranhas da pessoa. Tem que ter muita estabilidade emocional para lidar com tudo o que tu passa no processo. Acho que qualquer carreira artística, de uma maneira geral, tem isso. Tem que ter toda uma estrutura, e muito carinho, alguma coisa em volta para a pessoa poder ser exigida sem sucumbir. Eu acho que a gente era exigido, mas não tinha um suporte. E eu já não tinha uma estaca firme. Essa coisa de ser muito solta. Eu tinha muita liberdade, muita criatividade, mas no lado afetivo sempre tive uma sensação de abandono, de solidão, de não pertencimento. Eu sinto que tudo o que regia as relações eram preocupações estéticas. A parte afetiva ficava em segundo plano, cada um que se virasse, que fosse se tratar. E eu me tratava mesmo, já fazia terapia. Mas tinha também umas coisas de ego, jogos de poder, manipulação, crueldades. Vai minando por dentro. Eu não tinha nenhum projeto, não pensava em casar, namorava muito, me apaixonava muito e também sofria muito com as desilusões. Uma montanha-russa. Todo aquele brilho que aparecia em cena tinha um lado B. Aquilo foi perdendo o sentido pra mim, porque já tinha começado a praticar meditação. Comecei a me interessar pelo teatro japonês, Kabuki e Nô.

P – Foi através do teatro que começou o teu interesse por meditação?

MNC – Sim. Me interessei pelo teatro Nô e Kabuki porque a Maria Helena Lopes gostava, e encontrei ali uma linguagem muito interessante, com um aspecto espiritual que eu admirava. A primeira companhia de Kabuki que veio ao Brasil apresentou-se em São Paulo, e eu fui assistir, de tanto que amava. Uma colega do Tear, a Maria Lúcia Raimundo, então professora do DAD, tinha estudado nos Estados Unidos por um tempo e lá entrou em contato com a meditação zen. E ela me disse que a base do teatro oriental era a meditação, que se eu quisesse entender esse teatro, devia praticar meditação. E me deu um livro, Os Três Pilares do Zen, um clássico. E eu comecei a meditar, pelo livro. Aí virei macrobiótica, queria me purificar. E um monte de coisas emocionais aconteceram. Bom, aí eu saí do Tear e fiquei só na meditação, na alimentação macrobiótica, morando sozinha.

P – E como chegaste ao Yoga?

MNC – Em 1991, um pouco antes de enfrentar uma depressão, teve uma coisa importante na minha vida: a UFRGS promoveu, junto com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, um seminário aberto à comunidade chamado Introdução ao Pensamento Budista. O Alfredo Aveline (hoje lama Padma Samten), que era professor do Instituto de Física, foi um dos incentivadores e tinha muitos contatos. Eles trouxeram pessoas top do universo budista, ocidentais que viam no budismo coisas interessantes, um pensamento muito evoluído, não só uma coisa religiosa. Era uma preparação para a vinda a Porto Alegre do Dalai Lama – ele inclusive recebeu o título de cidadão gaúcho! (risos) Enfim, teve esse congresso com várias atividades com pessoas daqui de Porto Alegre que já tinham um interesse pelo Budismo. E eu fui, participei disso tudo, achei maravilhoso. Aí vi o Aveline, que era professor dos meus irmãos, que hoje são professores de Física. E senti muita afinidade com aquele pensamento. Já praticava aquela meditação zen. Eu ainda não estava na crise dura da depressão, que estava começando. Já tinha algumas dores, mas achava que tudo ia passar. Achava que era uma coisa física, estava fazendo exames, mas já meditava. Acessei coisas que precisava acessar. Coisas foram aparecendo, que eu tinha varrido para baixo do tapete, coisas da infância. Enfim, tudo veio aos borbotões quando parei com o teatro. Mas veio para curar. Só que eu estava sozinha, não queria tomar remédio, era toda macrobiótica, não tomava nada. Eu queria só umas gotas, florais, homeopatia. Mas nada adiantou. Até que meu clínico geral me diagnosticou. Foi ele quem me mostrou uns relatórios da OMS que diziam: “Surge a depressão como uma das maiores doenças do final do século”. Ele me mostrou aquilo e disse: “Não é só tu, tem muitas pessoas enfrentando esses sintomas. A depressão pode se manifestar com sintomas físicos. Vou te dar um remédio”. Ele aceitou me receitar, desde que eu também fizesse psicoterapia. 

P – Em que ano começaste a fazer aulas de Yoga com a Mercedes Bodê?

MNC – Foi em 1992. Eu fazia aulas individuais com ela. Ela tinha uma série bem básica, para a pessoa tomar consciência do corpo e aprender a juntar atenção e respiração. A Mercedes é muito boa professora, dizia que o aluno tinha que ter um processo… Eu achava aquilo elegante, funcionava. Ao mesmo tempo, ela tinha vontade de estudar, e em 1993 a gente começou a estudar Vedanta.  Daí, nesse entremeio, eu sem dinheiro, sem nada, a Mercedes disse: “Tu tens muitas condições, por que tu não começa a dar aula de yoga? Vem que eu te ensino”. Então, uma vez por semana a gente se reunia, ela me explicava como guiar os alunos, no que prestar atenção, o que não podia acontecer, o que podia acontecer.  

P – E que ano foi isso?

MNC – Acho que entre 1994 e 1995. E aí foi maravilhoso, principalmente porque foi um lugar onde eu me senti muito valorizada. 

P – Quando começaste a visitar a Índia?

MNC – A primeira vez foi em 2001, para um curso regular, que acontecia sempre no mês de novembro. Todos os anos, eles abriam a oportunidade de estudantes estrangeiros terem uma introdução ao Yoga do Krishnamacharya, com vários professores e várias sessões, em todos os âmbitos: posturas, respiração, meditação e aplicação terapêutica do Yoga através de estudo de caso e depoimentos. Mas 2001 calhou de ser justamente o ano do atentado às Torres Gêmeas, ou seja, um ano excepcional. Por conta do início da Internet, eles ficaram mais conhecidos no mundo e tiveram inclusive que abrir duas turmas, porque a procura foi enorme. Então tinha gente do mundo inteiro, uma procura imensa. O curso aconteceria em novembro. Em 11 de setembro, houve o atentado. Os  aeroportos fecharam, aquela coisa toda. A maior parte dos alunos inscritos eram americanos, e todos eles cancelaram, todos. No fim, só 25 pessoas mantiveram a viagem para a Índia. Eles ficaram muito tocados, viram que as pessoas que mantiveram a decisão de ir à Índia, naquelas circunstâncias, estavam muito comprometidas. Ali é que nasceu, da parte deles, o projeto de ensinar ocidentais, um grupo que não fosse de pessoas que estivessem simplesmente fazendo um curso aqui, outro ali. Eles viram que algumas pessoas demonstravam grande interesse, então criaram um projeto que iria se iniciar no ano seguinte, de ensinar um grupo escolhido por eles, mais ou menos 25 pessoas, estrangeiros, que eles iriam ensinar regularmente como eles ensinavam os indianos. E eles decidiram receber esse grupo separadamente, na própria casa do Desikachar, onde havia um terraço grande, coberto, mas com as laterais abertas.  

Em visita à Índia (acervo pessoal)

P – Voltaste muitas vezes para lá, não?

MNC –  Eu fui de 2001 a 2007. Foi um contato com uma vertente bem tradicional de Yoga, ou melhor, com uma visão de Yoga que fazia jus àquele caminho que eu já vinha trilhando, que tinha a ver com olhar para todas as coisas não com o olhar de um misticismo barato, mas com o olhar de um saber tradicional, com um valor intrínseco, que não precisa disputar com a ciência do Ocidente porque tem valores profundos próprios, em termos de equilíbrio e eixo da pessoa, de a pessoa encontrar o valor da sua própria vida. Acho que foi isso o que mais aprendi com o Yoga: a encontrar o eixo da minha vida. Eu não precisava mais fazer coisas magníficas, como ser a grande jornalista ou a grande atriz de teatro. Era uma questão de conseguir entender que a minha própria vida, com toda sua história, seus percalços, era a base a partir da qual eu poderia construir a tal vida maravilhosa que eu queria. Que não ia ser uma vida maravilhosa para os outros, mas uma vida maravilhosa para mim, em primeiro lugar.

P – Esse é o motivo que te levou até a Índia para buscar ensinamentos a respeito dessa linhagem?

MNC – Acho que de início foi muito uma intuição de que ali havia algo que eu estava buscando. Que ali tinha um passo a mais a dar nessa trajetória. E acabou sendo mesmo. O que tinha ali? Tinha o valor pelo relacionamento individual entre o professor e o aluno. E tinha a definição de Yoga como um vínculo de compromisso, de seriedade, de acolhimento. Isso foi muito forte porque acho que foi sempre o que faltou na minha vida. Sempre fui muito solta. Ninguém dizia “eu sou responsável por ti” ou “vai por aqui, não por ali”. Era tudo na tentativa e erro. E o Yoga sempre foi uma coisa de “eu me responsabilizo”. Estou dizendo em termos pessoais, talvez para outra pessoa seja outra coisa. Mas o valor pela relação humana, pelo afeto, pelo vínculo, em que tu faz o possível para que o outro floresça, sempre me atraiu.

P – E o conhecimento de corpo, respiração e mente entra nesse vínculo.

MNC – Isso. E também no sentido de trabalhar a ti mesmo de uma maneira a desenvolver em ti esse olhar de acolhimento. Ainda está em processo para mim, mas acho que encontrar esse lugar é como tornar-se mãe ou pai de si mesmo, finalmente.

P – É libertador não precisar estar em busca de algo lá fora.

MNC – Sim, e isso é o que faz com que a gente aprecie a vida de cada pessoa, também. É muito bonito como as vidas se desenvolvem. Ou seja, tudo é perfeito, mesmo que às vezes seja difícil. É preciso apreciar os desenhos da vida, deixar a vida ser em cada um. O Desikachar tinha muito dessa sabedoria. Ele dizia que a gente não deve ter pressa de libertar as pessoas dos seus labirintos. A gente tem que observar os caminhos, a maneira como a vida vai esculpindo uma pessoa, como ela vai encontrando, no meio de todas as dificuldades, dramas e situações, aquele lugar feliz. Ele tinha uma visão muito humana do Yoga. Não era um esqueleto teórico, tinha carne e sangue. Embora eu não entendesse aquilo de cara, senti que ali tinha uma verdade, que aquele ensinamento estava muito bem aplicado. E tinha levado ele, Desikachar, para o coração dele mesmo.

P – E essa verdade tu trouxeste para ti também?

MNC – Acho que sim, porque acho que foi o que sempre busquei, um centro e um eixo. Um lugar em que eu me centrasse comigo mesma e estivesse bem. Diante do que quer que fosse. Acho que ter um lugar de paz era talvez a coisa mais importante para mim. Nunca imaginei que isso seria o meu trabalho. A vida foi me empurrando nessa direção.

P – Hoje tu és professora de yoga…

MNC – E isso é muito surpreendente pra mim. Mas foi assim que aconteceu. As pessoas sempre recorriam a mim e perguntavam coisas. O que eu achava disso, o que eu achava daquilo. Não porque eu fosse grande coisa. As pessoas vinham falar comigo sobre o que fazer, e eu sempre ouvia.

P – Não é todo mundo que tem esse valor por saber ouvir.

MNC – Uma coisa que sempre me fascinou na Índia é a tradição da escuta e de olhar para dentro. Acho que são dois extremos da minha vida. Eu tive um tempo muito para fora, na minha juventude, de produzir para fora, em profissões performáticas como jornalismo e teatro. Agora acho que estou na terceira onda. De integrar essas duas coisas. Porque eu vejo que também o Yoga não é uma coisa só de ir pra dentro.

P – É preciso viver no mundo.

MNC – Isso. É ter esses mergulhos, essas vivências pessoais, essa escuta apurada, e depois levar isso pro mundo. E eu passei muito tempo longe disso. Não sei se antes eu daria esses cursos que ando dando, de forma geral a todas as pessoas. De um tempo para cá, depois que me separei, sinto uma urgência de passar aquilo que aprendi. Estou numa fase da vida que é isso que importa. A semente a gente tem que deixar. É como uma árvore. A gente vai cultivando essa árvore. Uma vida tem que dar frutos. E isso não é necessariamente ter filhos. Dar fruto é, sei lá, ter alcançado algo belo, verdadeiro, e poder transmitir aquilo.

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