Entrevista

Jorge Fróes: “Eu só não tenho vontade de ler manual”

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Jorge Fróes: “Eu só não tenho vontade de ler manual” Jorge Fróes (Foto: arquivo pessoal)

Jorge Fróes responde sobre os tempos em que foi professor de Jeferson Tenório, comenta seus gostos por literatura e fala da relação com o Movimento Negro após o assassinato de seu primo.

Com quantas pessoas você conversa sobre futebol? E sobre o último seriado que assistiu? Sua próxima viagem? Com quem tu conversas sobre literatura? 

O Jeferson Tenório teve a chance de participar de um grupo que se reunia por este motivo mesmo, o amor pelos livros. O encontro com o professor de literatura Jorge Fróes na sua época de estudante mudou sua vida, talvez para sempre. 

Os dois se encontraram com o professor Luís Augusto Fischer, editor aqui da casa, e conversaram sobre isso e muito mais. E não fique só na vontade: o vídeo da íntegra deste encontro está no link abaixo.

Texto e edição: Nathallia Protazio

Parêntese – Conversando um dia com o Jeferson Tenório, ele me falou de uma figura decisiva, o Jorge Fróes, um professor de literatura que ele teve. Jorge, tu te lembras do Jeferson aluno? (por Luís Augusto Fischer)

Jorge Fróes – Lembro sim do Jeferson, ali na aula do pré-vestibular, interessado. Eu levava uma série de revistas e algumas coisas, o Jeferson era o cara que pedia emprestado. 

P – Conta um pouco da tua história, família, enfim, teu conhecimento de mundo. (por Luís Augusto Fischer)

JF – Bom, eu sou daqui de Porto Alegre, mas acho que tenho mais interesse de falar sobre a literatura na minha vida. A minha entrada foi através de três processos. Eu me lembro que minha mãe lavava a casa e largava uns jornais para secar a madeira do chão. Eu ficava sentado na cadeira ou abaixado, lendo o que estava ali. Essa coisa do jornal no chão pode ter me despertado um certo gosto pela palavra. Porque em casa a gente não tinha nenhum livro. Lembro que na véspera de eu ir para a primeira série, devia ter uns sete anos, um cara bateu lá em casa e meu pai comprou três dicionários: um de sinônimos, um de verbos e um gramatical. Talvez ele não tivesse nem a noção de livraria e mesmo assim comprou. Em seguida eu aprendi a ler, e gostava. Só quando eu comecei a dar aula fui utilizar mais o dicionário de verbos e o gramatical. Mas o vínculo da leitura pela leitura é a questão dos quadrinhos. Caía um gibi lá em casa, eu lia. Lia e colecionava tudo, o Fantasma herói, a Mônica, que surge lá por 70, 71. Depois, fui morar na Bom Jesus. Encontrei um amigo que também gostava de escrever e a gente começou a fazer paródias. Belchior, Roberto Carlos, vários cantores. As paródias que a gente fazia eram pornográficas. Imagina, a gente pegava e transformava a letra. Um dia a professora de Ciências pegou um bilhetinho andando. Ela estava nos levando pra direção pelo corredor comprido da escola Coelho Neto, ali na Bom Jesus, mas no meio do caminho eu a convenci que a gente não ia mais fazer. No outro dia, meu amigo mostrou uns versinhos pra ela. Aquele tipo a professora gostou. Claro que fiquei com inveja, porque quando eu vi os versinhos pensei – Ah, se ele fez isso eu também faço.

P – Eu sempre digo que sou o resultado desse encontro com Jorge Fróes. Nos encontramos no cursinho pré-vestibular para pessoas negras onde estudei por dois anos. A gente formou um grupo que passou a frequentar o apartamento do Jorge, ali no Leopoldina. Um paraíso de livros. Na época era tanto livro que não tinha espaço nem pra sentar. Aquilo foi muito impactante pra mim. (por Jeferson Tenório)

[Continua...]

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