Entrevista

Leonardo Câmara Canto: figuração humana com traços (homo)eróticos e musicalidade

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Leonardo Câmara Canto: figuração humana com traços (homo)eróticos e musicalidade Detalhe de pintura de Leonardo Câmara Canto. Foto: Acervo pessoal

Depois de algum tempo, o olhar fica treinado para captar algo “no ar”. Foi assim que, no começo de 2023, botei os olhos em uma litografia feita, por Leonardo Câmara Canto, para um álbum-calendário de 1987, que estava à venda em um leilão no Rio Grande do Sul. Logo passei às tentativas de localizar o autor, no que fui bem sucedido em redes sociais. 

Como não costumo fazer rodeios, comentei que estava rastreando artistas gaúchos que haviam flertado com o homoerotismo. E que o trabalho que eu vira me remetia a essa abordagem. Na época, ele respondeu: “Na minha cabeça, imaginava que meus personagens desempenhavam um papel masculino ou feminino, que nem sempre correspondia ao sexo biológico.” Bingo! Naquele dia, ainda fofocamos um pouco sobre os bastidores do mundo das artes. 

Cerca de nove meses depois, eu andava pelo Brique da Redenção, quando vislumbrei uma pechincha – para minha surpresa, assinada por Canto. Um exemplar da série Guerreiros. Não bastasse, recentemente, ao visitar a exposição MARGS 70 – Percursos de um acervo, me deparei com uma irônica releitura de um óleo sobre tela do pelotense Leopoldo Gotuzzo (1887-1983). Pintura também assinada por Canto, um porto-alegrense que revela detalhes curiosos dessa experiência, da biografia e da expressão artística, na entrevista abaixo. Depois de meus três “encontros”, sem querer, essa conversa era obviamente necessária.

Jandiro Adriano Koch: Olá. Finalmente uma oportunidade para construirmos esse bate-papo, algo que sugeri há um tempo, mas que não se realizou até então. Vamos começar pelo trivial. Você nasceu aonde e quando? Qual o nome do pai e da mãe? O que eles faziam?

Leonardo Câmara Canto: Opa! Finalmente está saindo a entrevista. Acho que pode ser uma boa oportunidade de fazer uma revisão da minha trajetória. Nasci em Porto Alegre, em 1963. Filho de Marcos Raul Câmara Canto, economista, e de Heloisa Helena da Silva Câmara Canto, professora.

Detalhe da primeira pintura de Leonardo Canto. Acervo pessoal.

Sem título (1985). Acervo do MARGS.

J: Onde vocês residiam? 

L: Quando nasci, meus pais moravam no Bom Fim. Quando eu tinha três anos de idade, a minha família se mudou para o interior, pois o meu pai assumiu a função de fiscal do ICMS, então moramos em Santiago, Santa Rosa e Vacaria. Retornamos a Porto Alegre quando eu tinha onze anos.

J: Onde você estudou?

L: Em todos esses lugares estudei em escolas públicas. Fiz técnico em edificações no Parobé e Arquitetura na UFRGS.

J: E já manifestava tendência para artes desde cedo? 

L: Desde antes de caminhar, a minha mãe já forrava as paredes para deixar eu desenhar. Com sete anos eu já pintava a óleo.

J: Você estudou arquitetura, isso? O que veio antes: arte ou arquitetura? 

L: Primeiro as artes plásticas, mas o gosto pela arquitetura e o design já veio com seis anos de idade.

J: Você conheceu muita gente famosa do mundo das artes gaúcho, vi algumas fotografias. Lembra de alguém com carinho ou, de forma contrária, sem tanta efusão?

L: Na verdade, era um universo onde nos cruzávamos com todo mundo, mas claro, alguns ficaram mais próximos, como Cynthia Vasconcellos, Luisa Meyer, Fernando Limberger, Gustavo Nakle, André Petry. Do pessoal da gravura: Marta Loguercio, Anico Herskowitz, Paulinho Chimendes. Frequentava o atelier das Alices – a Alice Soares (1917-2005) e a Alice Brueggeman (1917-2001) – e da Maria Tomaselli.

J: Quais foram seus professores? Onde?

L: Tive muitos professores de arquitetura, mas no mundo das artes tive professores de gravura no Atelier Livre: Armando Almeida (1939-2013) e Danúbio Gonçalves (1925-2019). No mais, fui autodidata mesmo. Maria Tomaselli funcionou como uma conselheira artística.

J: Como eram as aulas no Atelier Livre? Onde ficava? 

L: O Atelier Livre fica no Centro Municipal de Cultura, na avenida Érico Veríssimo, esquina com Ipiranga. [O Atelier passou pelo Mercado Público, pela rua Lobo da Costa, até se fixar no Centro Municipal de Cultura, em 1978.] No Atelier, havia oficinas das três técnicas de gravura, pintura e cerâmica. Os professores funcionavam mais como orientadores, que ensinavam a técnica, no início, mas depois os artistas desenvolviam as suas próprias propostas.

J: Qual o tipo de arte que fazia? Qual a técnica?  Se alguém pedir para definir o seu trabalho, o que destacaria? 

L: Eu sempre trabalhei a figura humana, figuras fortes e expressivas, nas técnicas de pintura em acrílico, litografia e desenho. Cada uma dessas técnicas tem o seu encanto particular, mas sempre a pintura foi mais valorizada. Sempre fui muito influenciado por astros da música, como Prince e principalmente David Bowie. Também a moda sempre permeou as minhas imagens, mas sempre numa visão muito pessoal.

J: Há algum artista gaúcho que serviu de inspiração?

L: Bem no início me chamou a atenção o Milton Würdig, pela pegada homoerótica, mais adiante o Fernado Baril (1948-2023). A Maria Tomaselli, por conta das conversas sobre composição na pintura e gravura.

J: A presença do homoerotismo parece frequente. Como isso rolava? Era algo individual ou um jeito de uma turma de artistas gaúchos se expressarem? 

L: O homoerotismo – e o erotismo de forma mais ampla – foi uma necessidade individual de expressão, que, por sorte, encontrou eco em outros artistas. Dessa forma, se reforçou e se protegeu de ataques. Mas não havia uma troca de figurinhas entre artistas. Aproveito para registrar as obras que fiz retratando figuras femininas, sensuais e até sexuais, até com o sexo à mostra, mas que não se colocam na posição de objetos, pois são fortes demais! [O MARGS solicitou a doação da primeira obra de Canto, que é uma mulher nua, mas, sendo o primeiro trabalho do artista, ele o conserva consigo por afeição.]

Nenhuma descrição de foto disponível.
Leonardo Câmara Canto

J: Havia algum problema em relação ao tema? Questões familiares? Entre artistas? 

L: Claro que eu sabia que os meus pais achavam estranha aquela temática, mas entendiam que era algo que precisava ser expresso e estava sendo bem recebido pelo circuito das artes. Entre os artistas, era super tranquilo.

J: Você viveu com o burburinho gay naquela época? Mário Röhnelt (1950-2018), Milton Kurtz (1951-1996), Rogério Nazari, entre outros?

L: Eu vivi o burburinho daquela época, tanto gay quanto hétero. Os artistas gays eu encontrava nos vernissages e eventos do meio artístico, mas cada um tinha os seus grupos.

J: Como eram os bastidores do teu círculo de artes no período de redemocratização do país (1974-1985)? Havia alguma tentativa de dizer algo através da arte ou vocês eram mais centrados na ideia da “arte pela arte”? 

L: Eu creio que sempre se quer dizer algo através da arte, e cada artista tem algum tipo de recado a passar. Por exemplo, o Paulinho Chimendes e o Cava tinham uma pegada mais política. Já o meu trabalho falava mais de liberdade de expressão, estilo de vida, da moda e da música.

A almofada amarela (1923). Leopoldo Gotuzzo. Acervo do MARGS.

Releitura de Leonardo Câmara Canto (1986). Acervo do MARGS.

J: Como foi fazer parte do projeto Releitura a partir de uma obra de Leopoldo Gotuzzo?

L: Eu topei de cara o convite para o projeto Releitura, mas confesso que o resultado não foi tão satisfatório quanto eu esperava, ou seja, não teve tanta expressividade quanto os meus trabalhos não-releitura. Apesar de que a Almofada amarela, do Leopoldo Gotuzzo, sempre me encantou, não consegui me soltar como gostaria.

J: E a arte feita no tapume na avenida Oswaldo Aranha? Vocês foram convidados a pintar, na Copa de 1987, em vários tapumes pela cidade.

L: Foi um trabalho bacana, pois convivi com artistas que eu gostava muito, como a Cynthia Vasconcellos e a Ester Meyer. Foi desafiador na medida em que o trabalho deveria estar concluído no mesmo dia e, no processo da pintura, eu levo algumas semanas até amadurecer uma obra.

J: Lembra o que você pintou no tapume? Essa arte provavelmente acabou destruída pelo próprio tempo (chuva, sol), não?

L: O tapume era sobre a Copa do Mundo de 1986. Fiz junto com a Cynthia Vasconcellos, e teve uma pegada de humor, pois pintamos uma cena na copa-cozinha. Aproveitando o gancho, a releitura também teve uma pegada de humor, pois a obra do Gotuzzo retrata uma mulher de costas exibindo belas nádegas, e na releitura eu retratei a minha bunda.

Jornal do Comércio. 30/05/1986. Foto: Egon Gimenez

J: O álbum-calendário (1987) reuniu uma gama de artistas, inclusive o Baril, recentemente falecido. Vi que cada mês era de responsabilidade de dois artistas, que elaboravam uma obra conjunta, e que ficaste com a Marta Loguercio. Como desenvolveram esse projeto?

L: Este trabalho foi desenvolvido pelo Núcleo de Gravura, do qual eu fazia parte. Então quem fazia parte do calendário eram os membros do Núcleo e alguns convidados, como o Fernando Baril, por quem sempre tive muito carinho – eu o tinha como um mestre. Mas de fato infelizmente não chegamos a conviver muito. Por falar do Núcleo, participei de uma coletiva de gravura brasileira, organizada pelo Núcleo de Gravura, que foi exposta no Grand Palais de Champs Elisées, em Paris, com gravadores gaúchos e paulistas. O ano foi 87. Vou citar outros eventos importantes da minha carreira: em 1984, a Exposição de Desenhos Gigantes no Bar Ocidente. Nesta exposição, o pessoal da então Galeria Tina Presser (hoje Tina Zapolli) fez contato e me convidou; em 1985, a coletiva Oi Tenta, na inauguração da galeria Artefato. O Décio Presser se separou da Tina e abriu a Artefato; em 1985, a primeira individual da Galeria Artefato; em 1987, a segunda individual na Galeria Artefato; em 1989, a Sculpture Show-Performance de Esculturas Vestíveis, no salão grande do térreo do MARGS.

Arte que fez parte do calendário junto com Marta Loguércio (1987).

J: Ao que tudo indica, você deu um tempo? Existem motivos ou foi uma fase?

L: Na verdade, nunca parei de trabalhar com arte, apenas parei de expor. Mas em breve vou fazer uma exposição de pinturas.

J: Comprei dois trabalhos seus, um em um leilão e outro no Brique da Redenção – em 2023. Vi outros expostos no MARGS. Onde estão suas obras?

L: Agora estão em coleções particulares pelo Brasil e exterior. 

J: O que você faz hoje? Alguma intenção de voltar a trabalhar com arte?

L: Tenho trabalhado muito com arquitetura. E trabalhando numa nova exposição.


PS: O artista também aparece no 44º Salão Paranaense (1988); Na Feira de Gravura, no MARGS, (1986); no catálogo Topia: variações de um tema porto-alegrense (1988); em exposição de 30 anos do Atelier Livre (1991); Em A figura na obra gráfica do Rio Grande do Sul, no MARGS, (1991); no Labirintos da iconografia, no MARGS, (2011); e no Matéria e expressão, o tridimensional na Pinacoteca Aldo Locatelli (2017).


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com cinco livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. O gaúcho era gay? Mas bah! é seu último título, lançado em 2023.

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